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Rio de Janeiro, 20 de junho de 2024


Cultura

Grandes damas da telenovela vieram à PUC para contar suas histórias

Pedro Erthal* - Da sala de aula

29/08/2013

 Reprodução

Luz, câmera e ação. “Mas precisa de tanta luz assim?”, era a pergunta mais frequente nas gravações do programa Damas da TV, em que 22 atrizes, protagonistas de telenovelas nos últimos 45 anos, foram entrevistadas na PUC-Rio pelo professor de Comunicação Social e diretor acadêmico da CAL, Hermes Frederico, sobre suas experiências dentro e fora da TV.

O programa, que acaba de estrear no Canal Viva, celebra os 50 anos de telenovela diária nacional. Segundo o apresentador e idealizador do programa, este foi o mote para a série. Hermes, fanático por novela desde a infância, avalia a história deste produto nacional:

– A telenovela no Brasil tem uma grande importância cultural. Além do fato de ser muito bem produzida, ela atinge a população brasileira como um todo, em todos os níveis intelectuais e sociais. Artisticamente, é um produto de muito bom gosto.

Em 2001, Hermes criou e produziu o seriado documental Grandes damas, para o canal GNT. Foram 16 episódios, que abordaram a vida e obra de algumas das mais importantes atrizes brasileiras. Cada episódio homenageava uma atriz (como Nicete Bruno e Aracy Balabanian, nas fotos abaixo), com entrevistas e trechos de trabalhos relevantes.

Essas atrizes, cujas histórias se entrelaçam com a da teledramaturgia brasileira,  começaram suas carreiras em uma época em que atuar não tinha o glamour de hoje. Os salários eram baixos e a televisão, ainda uma mídia nova e incerta. A atriz Nivea Maria, de 66 anos, que teve como papel mais recente a matriarca Isaurinha da novela Salve Jorge, contou que seus pais não aceitaram imediatamente sua escolha de carreira:

– Quando contei que seria atriz, meus pais desaprovaram. Até que meu pai assistiu pela primeira vez a uma peça de teatro em que eu atuava. Depois disso, somado ao fato de que não me desviei das minhas responsabilidades dos estudos e da minha vida pessoal, eles aceitaram.

No caso de Gloria Pires (49), a mais jovem a ser entrevistada no programa, a aceitação familiar não foi problema. Seu pai, o ator e humorista Antônio Carlos Pires, foi seu guia, ensinando-a a ler e memorizar os textos e a atuar. Mesmo assim, ela conta ter enfrentado dificuldades no início da carreira:

– Foi um começo muito sofrido. Tinha um senso de responsabilidade grande, e por isso, um medo de errar. Mesmo após as primeiras novelas, não tinha vontade de continuar a carreira de atriz – contou Gloria, que estreou na televisão aos 5 anos, em 1968, na telenovela A pequena órfã, na TV Excelsior.

Reprodução  De todas as atrizes entrevistadas, a que causou maior comoção foi Fernanda Montenegro, de 83 anos. Após a entrevista, dezenas de fãs e alunos do Departamento de Comunicação esperavam a atriz no corredor, e todos foram atendidos. Fernanda, que em 1951 foi a primeira atriz a ser contratada pela TV Tupi, contou que sua estreia na telinha foi modesta:

– Era uma produção feita para ninguém, porque ninguém tinha aparelho de televisão naquela época. O Assis Chateaubriand trouxe alguns aparelhos para o Rio de Janeiro e São Paulo, e os colocou em diversos lugares, para que a população conhecesse o que era essa tal televisão.

Se tanta coisa mudou nas comunicações desde Chateaubriand, não foi diferente para a telenovela brasileira.

– Hoje, o público é maior, então a novela tem o compromisso de também informar. Além disso, hoje as camerazinhas pequetitas filmam em HD e mostram tudo; já as câmeras de antigamente não mostravam quase nada – comparou Glória Menezes, de 78 anos, cujo trabalho mais recente foi na série Louco por elas, da Rede Globo.

Outra mudança marcante na telenovela é o tamanho do elenco. Durante a entrevista concedida a Hermes Frederico, Regina Duarte, de 66 anos, afirmou ver de forma negativa o aumento excessivo dos elencos. Em sua primeira novela, A deusa vencida, de 1965, o elenco contava com 19 atores. Já no remake de O astro, de 2011, última de que participou, 50 atores faziam parte apenas do elenco principal; contando o elenco de apoio e as participações especiais, esse número passa dos 100.

– Antigamente, eram quatro casais que a gente acompanhava e por quem torcia. Agora, são 25. Você leva pelo menos meia novela para se decidir por qual casal vai torcer. E é esse vínculo que faz o telespectador querer assistir. Até conseguir conhecer os personagens, demora muito – comentou a atriz, que comparou a situação das novelas antigas com o Big Brother. – Lá, são 18 pessoas no início do programa, e o fenômeno se dá porque você tem tempo para conhecer essas pessoas, se apaixonar por algumas e odiar outras.

Importância do nome artístico

Reprodução  Arlette Pinheiro, Nilcedes Soares e Renata Sochaczewski. Todas estas atrizes participaram do programa, mas poucos telespectadores as reconhecem por estes nomes. Depois de décadas sendo chamadas de Fernanda Montenegro, Glória Menezes e Renata Sorrah, não só o grande público como elas próprias já estranham ouvir o nome “verdadeiro”.

– S-o-c-h-a-c-z-e-w-s-k-i. É complicado mesmo. É de origem polonesa. Impossível lerem e falarem corretamente. Logo no começo da minha carreira, passei a escrever Sorrah, que acho lindo, além de muito mais fácil – brincou Renata.

Fernanda Montenegro, ao inventar seu nome artístico, não imaginou que ganharia tamanha proporção:

– Inventei este nome achando que ficaria só no rádio. Mas a vida me botou para fora da rádio, para a frente de um palco, e depois no cinema e na TV. E ficou. Mas sei que também sou a dona Arlette. E ela é bem resguardada. Poucos me chamam ainda assim: primos, minha irmã, meus pais.

A próxima geração

Por mais que considere a vida de atriz mais fácil hoje do que antigamente, Debora Duarte não queria que as filhas seguissem seu caminho.

– Achei ruim quando elas decidiram ser atrizes. Acho muito difícil viver disso no Brasil. Primeiro, não sei como se faz para entrar nesse meio. E, quando se entra, demora até encontrar a linguagem que se quer para exprimir seu trabalho e dizer a que veio. Depende de muitos fatores para dar certo.

Fernanda Montenegro, como mãe, também deixou que os filhos escolhessem a profissão por conta própria:

–Se os filhos vieram para a mesma profissão, é sinal de que os pais não foram tão distantes, por mais que seja uma profissão que nos faça desaparecer de casa.

* Reportagem produzida para a disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso.