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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

"O elo dos movimentos é o desejo do avanço democrático"

Júlia Cople - aplicativo - Do Portal

04/09/2013

 Fernando Frazão / Agência Brasil

Milhares de cidadãos entopem a Europa de protestos contra os planos de austeridade e as altas taxas de desemprego. Argentinos organizam panelaços contra a instabilidade econômica e a falta de transparência do governo, enquanto jovens chilenos lutam por ensino universitário gratuito. Mesmo o Brasil, cuja última manifestação com significativo apoio da massa havia completado 21 anos, no processo de impeachment do então presidente Fernando Collor, surpreendeu os sociólogos ao levar multidões para as ruas nas chamadas Jornadas de Junho. De motivações diversas – econômica, social, política –, não raramente difusas, as manifestações convergiram para o descontentamento com os serviços públicos prometidos, a representação política e a mídia tradicional. Decantada a poeira dos excessos, impõem profundo debate sobre suas origens, implicações e feições. 

Uma das contribuições a esse painel de reflexões atravessou o Atlântico para instalar-se na aula inaugural do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, quarta-feira passada. Convidado a palestrar sobre a democracia a partir dos movimentos sociais – pacíficos e radicais, como a polêmica investida dos Black Blocs –, o professor Geoffrey Pleyers, da Fundação Belga de Pesquisa Científica da Universidade Católica de Louvaine, foi categórico ao propor "um debate mais amplo acerca do funcionamento do sistema democrático". Membro também do Centro de Análise e Intervenção Sociológicas da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, Pleyers é autor do livro Alter-globalization (Globalização alternativa, em tradução livre). Nele defende, numa sintonia nada proposital com a voz das ruas, opções "ao paradigma dominante da mundialização econômica e informativa".  

 Júlia Cople Para o pesquisador, cuja organização lógica constrastava com o breu do Auditório Padre Anchieta atingido por uma pane elétrica, é preciso refletir sobre as recentes manifestações "à luz de duas vias: da subjetividade e da razão". Só assim poderemos fazer "uma análise coerente dos movimentos" e compreender a crise de representação bradada pelas esquinas e a ação dos Black Blocs, grupos, segundo ele, "muito politizados" e "nada vândalos".

Ao propor uma visão mais abrangente, Pleyers (foto) considera igualmente fundamental traçar interseções entre movimentos de diferentes países, cujo elo, afirma o pesquisador, revela-se a “vontade de aprofundar a democracia”. Em entrevista ao Portal, o belga aponta uma incompatibilidade entre a repressão aos movimentos e o regime democrático; ressalta a "intensa separação social que observa no Brasil"; projeta os desafios ao sucesso das reivindicações populares; avalia a cobertura da mídia e esclarece as mudanças de iniciativa do gênero ao longo das décadas. Noves fora, assume uma dicção otimista: “Se a democracia está viva, ela se reinventa”.

Portal PUC-Rio Digital: Qual a essência dos movimentos sociais?

Geoffrey Pleyers: Os movimentos sociais são a exploração de alternativas. Eles são performáticos, isto é, protestam e experimentam. Essa experiência, por sua vez, se divide em experiência vivida e experiência científica, a segunda chamada também de experimentação. Desse modo, chegamos à análise de duas lógicas distintas de manifestação. Há a via da razão, pautada pela racionalidade, pela regulamentação e pelas instituições, e há a via da subjetividade, que visa a alcançar autonomia frente aos poderes e nortear seu ativismo a partir da experiência própria. Cada lado defende a sua lógica, o que ajuda a compreendermos a crise de representação, afinal a experiência sempre é pessoal e não pode ser delegada. Em palavras gerais, como disse Gilles Deleuze (filósofo francês), a resistência é um ato de criação. É importante estudarmos os atores sociais e as perguntas centrais dos movimentos, mas também os níveis local, nacional e global. Esse estudo é fundamental para suscitar o debate onde não havia e levar a participação popular para além do voto nas eleições.

Portal: Que diferenças o senhor observa entre as recentes manifestações populares e as de outrora, como na década de 1960?

Pleyers: Vejo que agora há uma inspiração maior na participação, no sentido de que não bastam as instituições. Na Europa, há protestos contra o neoliberalismo, como um modelo que não traz desenvolvimento sustentável. Mais do que isso, questiona-se a irracionalidade das políticas econômicas. Há consciência do poder do dinheiro, da influência da mídia e da semelhança de planos de ação dos partidos ditos opostos. Apesar desse consenso, há poucas ações. Todo mundo sabe o que fazer, mas nada é concluído. Por exemplo, com a deflagração da crise de 2008, todos sabiam que os paraísos fiscais deveriam acabar, mas, passados cinco anos, não foram fechados. Hoje há quem queira uma nova democracia. Já eu acredito que esses movimentos são um complemento da democracia participativa vigente. O que quero dizer é que se a democracia está viva, ela se reinventa. É, inclusive, o elo que vejo entre os movimentos: a vontade de aprofundar a democracia.

Portal: Quais os desafios ao êxito dos movimentos sociais?

Pleyers: Como eu disse, o importante é promover o debate onde não havia, e o desafio é levar a participação para além do compromisso eleitoral. O importante, em termos de democracia representativa, é a vigilância constante dos cidadãos frente aos políticos eleitos. Isso é fundamental para qualquer sistema. Outro ponto importante é que deve haver democracia em sentidos mais amplos. Democracia no campo de consumo, na participação direta no seu bairro e na busca por estar sempre bem informado. Claro que os políticos têm que mudar, ser honestos. É também uma mudança importante para a cidade. É uma responsabilidade. Uma cidadania mais ativa para uma democracia mais ativa. Apontar os problemas da corrupção é parte da solução, mas é também exercitar mais a nossa própria cidadania. Aqui no Brasil, mais especificamente, observo que a classe média está debatendo um caso da favela (refere-se ao desaparecimento do pedreiro Amarildo, morador da Rocinha). Esta aproximação dos dois mundos é muito interessante.

Portal: O que exatamente o senhor quer dizer com "dois mundos"?

Pleyers: Creio, de maneira inocente, que a coisa mais interessante é que o movimento reflete a desconexão entre duas sociedades distintas no Brasil. Uma bastante democrática, a classe média, com direitos, e outra, que a polícia pode matar e ninguém fala nada. Se a classe média sofre com gás lacrimogênio, é notícia. Se matam dez pessoas da outra, não é notícia. Agora, a classe média está falando de um caso da favela. Este movimento está aproximando um pouco esses mundos, e isso é muito interessante.

Portal: Casos assim representam ainda um empecilho à democracia plena?

Pleyers: Não se pode falar de democracia quando alguém desaparece, por exemplo. Um caso assim é uma ameaça para democracia. E há centenas de ocorrências, mas apenas uma já é intolerável, imcompatível com a democracia. Isso, para mim, fala muito sobre o Brasil, fala do desafio para a democracia e para as instituições. Tenho que dizer que meu enfoque não é Brasil, falo como cidadão. Entretanto, uma coisa que não entendo é como é possível que, em um país profundamente democrático, a sociedade tenha uma polícia assim. Não consigo entender como isso pode ocorrer em uma sociedade democrática.

Portal: E a polêmica ação dos Black Blocs? O que representa nesse caldo de protestos?

Pleyers: Os Black Blocs são atores muito interessantes, porque atravessam as fronteiras. Não são atores brasileiros, são globais. Creio que, para entender esses momentos, o nível nacional é importante, mas temos que avaliar as diferenças de distintos tipos de ativismo e formas de democracia além do plano nacional. Tampouco podemos cair no “globalismo” de dizer que todos os Black Blocs são iguais, porque cada um tem suas especificidades. É um movimento alternativo mundial. Não é o Black Blocs, são os Black Blocs. Isto é, há distintas lógicas de ação dentro do movimento. Há uma vertente menos plotizada, que gosta dos eventos, tem uma lábia contra o sistema, mas não pretende contestar uma pauta específica, e sim tirar proveito da situação. São esses que acabam saqueando as lojas. Outra parte é o que chamo de Black Blocs “culturais”.

Portal: Como assim?

Pleyers: É muito mais uma cultura, uma referência, um estilo de vida dos membros. Não são as pessoas que vão depredar os bancos, por exemplo. Eles têm uma maneira cultural de atuar no movimento. Também vi muitas manifestações alter-mundialistas com blocos de cores: os Black Blocs vestidos de preto, os mais radicais, e os Black Blocs de amarelo, com postura pacífica. A questão muito interessante é que os Black Blocs não são nada vândalos, são profundamente politizados. São pessoas cujo ativismo é guiado pela via da subjetividade. Têm uma lábia contra o capitalismo, uma expressão que alguns veem como violenta, mas que faz frente à violência do sistema econômico e da polícia. É também uma forma de expressão. É gente que tem um compromisso muito forte com a liberdade de seu movimento e seus ideais. 

Portal: Além dos Black Blocs, há uma parcela da população, sobretudo entre os mais jovens, que defende a violência como o meio mais eficaz de protestar. Como o senhor avalia essa inclinação?

Pleyers: Há dissidências no movimento, embora a tendência seja majoritariamente pacífica. A ideia é que a maioria pensa demais na imagem do movimento para a opinião pública e para a mídia. Há dois problemas: como podemos controlar os que defendem o radicalismo sem líderes ou organizações formais? Cada um exprime a sua subjetividade, e isso é um problema constante.  No outro extremo, há o tratamento dado aos Black Blocs pelos integrantes da via da razão. Para estes, a violência é improdutiva e os Black Blocs, inimigos, criadores de uma imagem ruim do movimento. Os racionais não entendem que há a via da subjetividade também. Quem diz que a violência não tem lugar pensa racionalmente, porque quer uma imagem boa na imprensa. Não querem ser vistos como vândalos, mas como gente de boas ideias. Por outro lado, os Black Blocs jogam pedras na polícia e também nos líderes da via da razão, porque os acusam de “roubar”, verticalizar, institucionalizar o movimento. Há um confronto dos dois lados. Mas, para mim, há um complemento. Estão na mesma marcha, mas não entendem que a lógica de quem está ao lado é apenas diferente da sua. Esse debate é constante.

Portal: O senhor disse que os racionais prezam pela imagem do movimento na mídia. Como podemos avaliar o trabalho dos meios de comunicação nesse contexto?

Pleyers: As duas vias têm posições distintas frente à imprensa. A via da razão quer protestar contra o poder da grande mídia. Coloca notícias no Facebook, por exemplo, por acreditar que a imprensa não divulga tudo o que ocorre ou o faz de forma distorcida. Entretanto, na via da subjetividade, não se deve criticar a mídia, mas meios alternativos devem ser criados para que cada um possa se expressar, colocar seu ponto de vista. Não é apenas importante a postagem de notícias com outro enfoque, mas também o fato de cada um poder se expressar diretamente. Para mim, como já disse, o importante é que todas as mazelas sociais sejam abordadas. Se a classe média sofre com gás lacrimogênio, é notícia. Se matam dez pessoas da favela, não é notícia? Isso é que é intolerável para a democracia.

Portal: Nos movimentos sociais em geral, há uma crítica àqueles que se manifestam apenas por meio da internet. Chama-se de “ativismo de sofá”, uma ação dita não muito eficaz para as causas. Para o senhor, qual o papel das mídias alternativas no ativismo?

Pleyers: É um debate grande. Como sociólogo, não é meu papel dizer se o Facebook, por exemplo, está mal ou bem, mas é fato que muitas das passeatas são marcadas via rede social. É muito importante, e uma justificativa para sua importância é o tipo de ativismo que combina a vida pessoal com a vida pública de ativista. Sua vida política, em quem você vota, o que você defende. A vida cotidiana, o consumo, as discussões de cada dia. Não há separação entre sua vida e seu mundo e o Facebook contribui para essa mescla. Você marca de ir a marchas no Facebook e faz amigos de Facebook nas marchas. É contraditório: algo muito global para expressar o particular.