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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Economia

Diversificação e microgeração rumo à eficiência energética

Jana Sampaio - aplicativo - Do Portal

23/08/2013

 Arquivo Portal

As incertezas sobre a capacidade das hidrelétricas de atender às demandas nacionais; os frequentes acionamentos das térmicas, mais poluentes e mais custosas, e as deficiências crônicas de transmissão renovam o debate sobre os rumos da política para o setor. Enquanto o governo intensifica a agenda de leilões – um hoje, exclusivo para eólicas, o outro na próxima quarta (28), de caráter misto –, especialistas reiteram a necessidade de o país se alinhar aos investimentos mundiais em matrizes renováveis. Com potencial territorial e climático para se tornar referência em geração de energia verde, o Brasil ainda engatinha na área. Perde, por exemplo, para a Argentina quando a pauta são os programas institucionais de incentivo. Na avaliação do professor de engenharia elétrica da PUC-Rio Reinaldo Castro de Souza, é preciso investir na diversificação de matriz energética e "diminuir a burocracia que freia o desenvolvimento".

A matriz energética brasileira é composta por um sistema predominantemente hidráulico, responsável por 80% do total consumido. Os 20% restantes são provenientes de fontes de energia em sua maioria fósseis e altamente poluentes, como as termoelétricas, que neste ano vêm sendo mais acionadas devido às quedas do nível dos reservatórios das hidrelétricas. Por isso, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) despachou todas as usinas movidas a diesel e carvão do país. Souza alerta para a necessidade de reduzir a dependência das hidrelétricas:

– O problema das hidrelétricas é a incerteza em relação ao fluxo de chuvas necessário para encher os reservatórios. Caso as chuvas de janeiro não sejam abundantes, como nesse ano, o governo é obrigado a ligar as termoelétricas antes do previsto – explica – Desta forma, é fundamental não sermos tão dependentes das hidroelétricas.

O professor qualifica a diversificação da matriz energética como decisiva para evitar a sobrecarga dos reservatórios. Segundo ele, a composição ideal dedicaria 70% às hidroelétricas e 30% a fontes de energia limpa, como a eólica e a solar, tecnicamente chamada de fotovoltaica – cuja participação na matriz revela-se ainda incipiente: 1%. "É uma cosquinha no imenso sistema de energia", diz Souza. "Até alcançar o êxito no desenvolvimento das tecnologias, o país vai precisar resolver alguns problemas, sobretudo de gestão e infraestrutura", projeta o especialista.

Apesar de ocupar a 10ª posição no ranking dos países que mais investem em matrizes sustentáveis, o avanço da energia eólica no país esbarra em lapsos de infraestrutura. Dezenove desses parques estão parados há mais de um ano por falta de linhas de transmissão. Já somam prejuízo de R$ 400 milhões, repassados, em parte, à conta de luz. Para solucionar tais deficiências, o governo apostas nos leilões de energia eólica e mista, hoje e na próxima quarta-feira, respectivamente. Pelas novas regras, só podem participar dos leilões empresas com estrutura de transmissão, situadas em regiões próximas à rede de consumo.

 Arquivo PUC Embora o governo justifique este critério pela reconhecida necessidade de corrigir e prevenir falhas de transmissão, especialistas alertam para o risco de se perder eficiência energética. Souza é enfático ao afirmar que a "região é sagrada" para que haja um melhor aproveitamento do potencial eólico.

– O país precisa de políticas energéticas que funcionem de forma coordenada. Não se pode pensar que é melhor construir um parque eólico de baixo rendimento só pela proximidade a rede de consumo –  argumenta.

O engenheiro Luiz Cezar Pereira, diretor da Enersud, especializada em soluções eólicas para consumidores de pequeno porte, completa:

– Claro que seria muito melhor que a região explorada fosse perto de um centro de abastecimento, como São Paulo, mas é preciso que a planta esteja numa região em que se obtenha o máximo rendimento, como o encontrado no nordeste. 

De acordo com Pereira, "é preciso encontrar a fonte de energia ideal para cada região", ainda que não considere as hidrelétricas substituíveis:

– O Brasil é muito extenso e por isso tem vantagens e desvantagens únicas. O ideal é desenvolver o potencial das fontes renováveis e utilizá-las para cogeração de energia hidráulica.

A tal ação coordenada sugerida por Souza remete ao modelo encontrada pelos Estados Unidos. O país investiu primeiro na construção de linhas de transmissão que cruzam o país para, só depois de concluídas, construir os parques eólicos.

– O investimento “padrão Fifa” foi justamente o calcanhar de Aquiles do Brasil, que encontrou nos leilões de energia a solução para o elefante branco que se tornaram as linhas de transmissão, ou melhor, a falta delas, no nordeste – avalia.

Ásia lidera investimentos em energia limpa

Mesmo com a redução dos investimentos em 11%, no ano passado, decorrente ainda da crise econômica deflagrada em 2008, a indústria de energia limpa obteve, em 2012, um de recorde de 88 GW na capacidade instalada. Na corrente contrária à desaceleração de europeus e americanos, e ao histórico poluente, China e Japão passaram a concentrar mais esforços em energia renovável. Ásia e Oceania hoje representam 42% do total de investimentos do gênero no mundo, US$ 101 bilhões.

O mercado chinês de energia limpa é um dos mais férteis. Apesar do recuo no ritmo econômico – em 2012, a China teve seu menor crescimento em 13 anos, de "apenas" 7,8% –, o país registrou aumento na capacidade de energia limpa instalada para 152 GW, 9,5 vezes superior ao do Brasil, que soma 16 GW. A China atraiu, no ano passado, US$ 65 bilhões de investimento em energias renováveis, alta de 20% em relação a 2011 e o correspondente a 30% do total investido na área pelos países que compõem o G-20 (maiores economias do mundo).

 Divulgação

Clima e geografia sustentam potencial verde no país

O Brasil tem potencial para chegar à elite da energia verde, mas o caminho exige aperfeiçoamentos de infraestrutura e administração, afirmam os especialistas. Ainda assim, o país chegou, em 2011, pela primeira vez, à liderança mundial de capacidade instalada para geração de energia por biomassa, que se baseia na obtenção de energia a partir de lixo. Outro ponto favorável remete a possibilidade de combinar, na matriz nacional, as energias eólica e a solar, pois o período de ventos fortes corresponde aos de seca, proporcionando um desempenho de 60% a 70% da capacidade máxima. Pereira considera essa combinação uma alternativa às termoelétricas e usinas nucleares.

O modelo de matriz energética com espaço crescente para as energias limpas, observado em vários países europeus, será consumado em cinco anos no Brasil, prevê Souza. Já Pereira condiciona o avanço à "priorização de investimentos". Segundo ele, a falta de investimento no setor hídrico faz com que as usinas sejam construídas da mesma forma há 50 anos:

– As hidrelétricas pararam no tempo. Para melhor aproveitar o potencial hidrelétrico do país devemos investir em pequenas centrais hidrelétricas (PCH) como alternativa em regiões cortadas por rios.

Microgeração é a bola da vez

Desenvolvida em países como a Alemanha, a microgeração dá os primeiros passos no Brasil. O sistema sustenta-se na produção de energia limpa em casa a partir de fonte hidráulica, eólica ou fotovoltaica para geração complementar de energia elétrica. As novas regras da Aneel concedem desconto na conta de luz do usuário que aderir à cogeração. Para se popularizar, o modelo depende ainda de aspectos como o acesso residencial a tecnologias como placas solares ou turbinas de pequeno porte. 

Nos Estados Unidos, os incentivos à microgeração fazem parte das políticas públicas. O investimento doméstico é dividido com o governo. Para especialistas, iniciativas do gênero devem ser adotadas no Brasil, onde ainda são poucos os casos de empresas e residências que aderem à microgeração de energia, seja eólica ou solar. Para Pereira, a baixa procura está relacionada à falta de incentivos governamentais:

– A partir do momento em que as instituições governamentais utilizarem a energia limpa em seus prédios ou em escolas, o custo diminuirá. Nos EUA, quem instala painéis solares ou uma usina eólica em casa tem desconto de 30% no imposto de renda e redução no valor do IPTU – compara.

Participante do projeto piloto que implanta a tecnologia para microgeração, conhecida como smart grid, em Parintins, na Amazônia, Souza explica o processo:

– O projeto existe há dois anos. Fizemos um trabalho de avaliação junto com a população local para saber se eles estão preparados para a nova tecnologia e para agir em parceria com a Eletrobrás, que é a distribuidora.

 

Fukushima: desastre atômico impulsiona energia renovável

Com os vazamentos de água contaminada por radiação decorrentes do acidente nuclear na usina de Fukushima, em 2011 – o último há dois dias , o Japão reúne esforços para controlar as barragens e impedir a contaminação do Oceano Pacífico. O mais grave acidente atômico desde Chernobyl, em 1986, modificou a política energética do país e impulsionou a discussão de fontes de energia alternativa. 

Desde a tragédia, o Japão desligou 48 de seus 50 reatores, que respondiam por cerca de um terço da energia consumida no país, e passou a investir em matrizes renováveis, especialmente a sola. No ano passado, tornou-se o quinto que mais investe em energia limpa. O setor cresceu 75% no mercado japonês, em relação ao ano anterior, alcançando a marca de US$ 16,1 bilhões. O país é o quarto em investimento em energia solar, que atraiu 87% do total dos investimentos nos últimos seis anos.