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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Analistas: Irã "mais flexível" tende a atenuar isolamento

João Pedroso de Campos - aplicativo - Do Portal

27/08/2013

 Arte: Nicolau Galvão

A recuperação da economia e a retomada da capacidade de diálogo, tanto interno quanto externo, são os principais desafios do novo presidente do Irã, Hassan Rohani, para atender às expectativas que o levaram a uma vitória em primeiro turno na eleição de junho. Apontado por especialistas como o mais moderado entre os candidatos à presidência, Rohani sucede o radical Mahmoud Ahmadinejad e fala em uma "abordagem construtiva" dos assuntos ocidentais. Ele deve usar sua experiência de negociador nuclear no impasse com o Ocidente para diminuir o isolamento internacional do regime teocrático de Teerã, baseado na figura do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país persa.

O professor do Departamento de História da PUC-Rio Maurício Parada lembra que os candidatos a presidente no Irã passam pelo crivo de um conselho de clérigos xiitas, do qual o aiatolá Khamenei é o principal dirigente. Mesmo considerado o mais moderado entre os seis candidatos, Rohani deve encontrar, segundo Parada, tanto amparo dentro da ordem legal do país quanto seu antecessor.

– O tom mais brando é uma tendência legitimada pelo aiatolá, que admitiu a presença do presidente como candidato e aceitou a sua vitória. A tendência de centro e de um maior diálogo está se fazendo sentir dentro da política iraniana e o Estado dá ao governo uma sustentação politica muito forte.

Ora mais moderado, ora mais agressivo, o governo iraniano é a variação de um regime teocrático liderado pelo aiatolá. Além das questões eleitorais, é dele a última palavra em assuntos de defesa e política externa. Especialistas apontam, contudo, que Hassan Rohani tem bom trânsito com Khamenei e, embora possa enfrentar alguma resistência da ala mais conservadora, tem laços com facções e departamentos que o colocam numa posição confortável para governar. Entre estes analistas, o professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio (IRI) Márcio Scalércio (foto) também observa uma postura sólida, embora mais branda, do presidente para propor mudanças e uma nova direção econômica: "ele dará um tom menos ácido às declarações."

 Reprodução Internet – Rohani entende a área nuclear porque foi membro e negociador. Foi previsto que a retórica se tornaria mais moderada após as eleições. Houve até comentários de que lideranças americanas e israelenses estavam descontentes com a saída de Ahmadinejad, porque a retórica dele ajudava a radicalização do Ocidente e de Israel contra o Irã. O novo presidente não vai dar essa contribuição – afirma.

Márcio Scalércio compara o desenho político iraniano ao americano para explicar como se sustentam presidentes reformistas e moderados, como Rohani e o antecessor de Ahmadinejad, Mohammad Khatami, num país em que a figura de um líder supremo ligado ao Islã ocupa o centro da cena política. Para o professor da PUC-Rio, Khatami foi o presidente que mais avançou em reformas quanto às mulheres, à cultura e à liberdade de expressão desde a revolução islâmica, em 1979.

– Um estado teocrático não é necessariamente radical. Isso já foi provado antes, com o Mohammad Khatami, que mostrou a agenda mais construtiva depois da revolução. São nuances de um regime. Como se fosse, nos Estados Unidos, a substituição de um governo republicano por um democrata. O regime não muda, o que muda é a linha política do governo – pondera.

Apesar destas previsões, e da variação entre presidentes mais e menos conciliadores, os oito anos de relações conturbadas com Ahmadinejad fazem líderes ocidentais e israelenses desconfiarem da moderação de Hassan Rohani. Depois da participação do novo presidente no Dia de Qods, que desde 1979 expressa a rejeição à ocupação de Jerusalém por Israel, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que "nada muda no Irã". Para o também professor do IRI Paulo Wrobel, entretanto, a postura moderada deve surgir, gradativa e inevitavelmente, diante da degradação da economia persa pelas sanções internacionais:

– A moderação se contrapõe aos oito anos de radicalismo de Ahmadinejad, que deu o tom do isolamento. O país clama por uma política mais moderada que eu acho sustentável. Há diversas formas de conduzir um regime teocrático. Se ser teocrático não implica radicalismo, a moderação não significa estabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos ou cessão do programa nuclear.

Experiente negociador nuclear, presidente tem missão de atenuar sanções econômicas

Assim como outros 188 países, o Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e tem direito a refinar Urânio sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Quebra o tratado ao não permitir visitas de agentes, mas aponta que as exigências ocidentais para o fim do seu enriquecimento de urânio não são respaldadas pelo TNP. Diante da ameaça nuclear iraniana, a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Europeia e os Estados Unidos impõem sanções econômicas a Teerã. Atenuar estas medidas, que isolaram o Irã e contribuíram para inflação de 23,6% e desemprego de 15,5% em 2012, é, para Maurício Parada (foto), o principal desafio do novo presidente. O especialista vê uma economia dependente do programa nuclear e da "soberania a todo custo" desafiar a reputação de negociador nuclear de Hassan Rohani.

– A principal redefinição é a do programa nuclear. É a questão central nas negociações com o Ocidente, em especial Estados Unidos e seus aliados, na busca por mais negociações e diminuição das sanções. Isso poderia gerar um clima econômico positivo. Veremos se o discurso será o de soberania a todo custo, que tem sido o ponto de tensão à medida que os ocidentais se sentem ameaçados com esse tom. Arquivo

O setor de petróleo e gás, que corresponde a 80% das exportações iranianas, é um dos mais afetados pelas sanções. Desde 2005, com o endurecimento do diálogo de Ahmadinejad com o Ocidente, a aquisição de novas tecnologias e o estabelecimento de convênios internacionais de cooperação ficaram limitados.

– A situação econômica é delicada. Inflação e desemprego são agravados pelas sanções, mas também refletem uma economia carente de recursos e desorganizada. São reflexo da estagnação da indústria do petróleo e das sanções econômicas que não permitem ao Irã a exportação de petróleo a muitos países, além de proibir investimentos – exemplifica Paulo Wrobel.

Scalércio compara as sanções a Teerã aos embargos à África do Sul na época do Apartheid e a Cuba. Ele pontua a grande influência do bloqueio comercial na economia, mas diz que as dificuldades econômicas do Irã não devem ser atribuídas somente ao bloqueio comercial:

– Por um lado, a questão econômica iraniana é a mesma de países pobres. Mas inflação, pobreza e desemprego ficam em compasso de espera por causa das sanções. Isso atrapalha a economia iraniana assim como atrapalha Cuba e atrapalhava a África do sul à época do Apartheid.

Ainda de acordo com Márcio Scalércio, o Irã não produz armas nucleares mas está a caminho de dominar o processo de produção. Isso porque, para se conseguir material físsil para uma bomba, é preciso dominar todo o processo de enriquecimento do urânio e enriquecê-lo a 90%. Na cerimônia em que deixava o cargo de chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Fereydun Abasi Davani afirmou que o país tem 17 mil centrífugas nucleares, das quais 10 mil estão ativas e 700 já produzem urânio a 20%, quantidade suficiente para produzir combustível nuclear. As declarações contrastam com o discurso esperançoso de Barack Obama ao saber da eleição de um moderado no Irã.

– Em política tudo se negocia, mas isso [o Irã ter armas nucleares] se arrasta desde 1995. Os americanos só se sentirão apaziguados e dispostos a discussões sérias se o Irã desistir do projeto nuclear. Mas os iranianos têm direito de não abrirem mão, ao mesmo tempo em que desrespeitam o tratado porque não aceitam a supervisão. Esse presidente já disse que o Irã não vai deixar de refinar. – lembra Scalércio.

Disposto a dialogar com o Irã e ser um "sócio disposto", como indicou a Casa Branca, Obama ensaia, segundo Maurício Parada, uma movimentação politica para se reaproximar de questões abandonadas ou deixadas em segundo plano nos últimos anos. Efeito desta postura, o diálogo concorreria com a figura pública internacional dos Estados Unidos depois dos últimos fatos em relação ao vazamento de escutas e espionagem na internet.

– O governo americano vê agora uma nova situação eleitoral e se preocupa com alguma forma de recompor seus laços na região. Isso é um trunfo. Algumas vitórias internacionais e ampliar diálogos são trunfos eleitorais e tanto. Quem sabe haja um momento de distensão e melhora nas relações, mas ainda é cedo – ressalva.