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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Dez anos depois, Vieira de Mello é lembrado por sua luta pela paz

Pedro Nabuco* - Da sala de aula

19/08/2013

 Arquivo Fundação Sérgio Vieira Mello

No fim da tarde de 19 de agosto de 2003, mais precisamente às 16h28, um caminhão-bomba passou pela barricada de segurança do hotel Canal, onde ficava a sede da ONU em Bagdá, e causou uma forte explosão, matando  22 pessoas e ferindo cerca de 150. Entre os mortos no atentado, cuja autoria foi reivindicada pelo chefe da Al Qaeda no Iraque, Abu Musab Al-Zarqawi, estava o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, representante especial das Nações Unidas para o Iraque, e uma das pessoas mais importantes no processo de reconstrução que começava a ser implantado no país governado por Saddam Hussein entre 16 de julho de 1979 a 9 de abril de 2003.

Hoje, a Fundação Sérgio Vieira de Mello se dedica a promover o diálogo para a solução pacifica de conflitos. A fundação também realiza a entrega anual do prêmio Sérgio Vieira de Mello a pessoas, grupos e instituições que se dedicam à reconciliação de nações ou comunidades em conflito. A ONU resolveu designar o dia 19 de agosto como Dia Mundial Humanitário, em memória de todas as pessoas que perderam as suas vidas na promoção da causa humanitária.

No momento da explosão, Sérgio estava em seu escritório, no terceiro andar da sede da ONU, numa reunião com  o norte-americano Gil Loescher, especialista em refugiados. O caminhão-bomba explodiu bem embaixo de onde ficava o escritório matando todos os membros da sua equipe presentes na reunião, exceto Sérgio e Gil, que ficaram presos sob os escombros.

Exatos cinco meses antes do atentado, os Estados Unidos haviam invadido o Iraque, com apoio de uma força de coalizão – ignorando a ONU, que não deu aval para tal invasão –, sob a justificativa de que o país estava produzindo e armazenando armas de destruição em massa, algo que anos depois acabou se provando ser uma falsa justificativa.

Desde a sua chegada ao país, Sérgio trabalhava para entregar o poder ao iraquianos o mais rápido possível. Acreditava que era melhor que tomassem eles próprios suas decisões, mesmo que erradas, do que os americanos as tomassem por eles.

 Arquivo Fundação Sérgio Vieira de Mello Com um extenso currículo de trabalhos em países devastados por guerras, como Líbano, Bósnia (foto), Sudão, Camboja e Timor Leste, na maioria das vezes trabalhando para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Sérgio tinha experiência em lidar com situações extremas, em que era preciso buscar o diálogo entre as partes para tentar progressos, mesmo que pequenos, fugindo, de acordo com ele, da fórmula que só enxerga dois lados com um bom e outro, mau. 

De acordo com o professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio Kai Michael Kenkel, especialista nas áreas de operações de paz, intervenção humanitária e segurança internacional, esta postura de evitar visões maniqueístas era bem brasileira:

– Sérgio não excluía certos atores da mesa. Dizia que imparcialidade não existe. Quando se tem uma Ruanda, uma Bósnia, quando um lado está fazendo 90% das violações, imparcialidade não existe.

O início da carreira

Nascido em 1948 no Rio de Janeiro, filho de diplomata, Sérgio cresceu morando em diferentes lugares pelo mundo, principalmente na Europa, seguindo seu pai. Em 1968, quando cursava filosofia na Sorbonne, engajou-se no movimento estudantil francês que tomou as ruas naquele ano.

Em 1969, passou a trabalhar para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, onde ficaria pela maior parte de sua carreira, chegando a se tornar o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, posição que ocupou até 2003, quando tirou uma licença de quatro meses para trabalhar no Iraque, a pedido do secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

 Arquivo Fundação Sérgio Vieira de MelloUm dos seus trabalhos mais bem-sucedidos foi no Timor-Leste (foto). Depois de mais de 20 anos de ocupação da Indonésia, a antiga colônia portuguesa foi tomada por um conflito com os ocupantes indonésios. Os timonenses votaram pela independência, mas milícias pró-Indonésia lançaram uma campanha de violência e matança que fizeram mais de 500 mil refugiados.

Depois que Portugal e Indonésia concordaram entregar o controle do país às Nações Unidas, Sérgio foi enviado como representante especial do secretário-geral e administrador da transição do controle do país para as mãos do povo do Timor Leste. Como governador do território e encarregado da força internacional da paz da ONU, Sérgio conseguiu ser bem-sucedido, ajudando a estabelecer o Timor Leste como uma nova nação.

Após o trabalho no Timor, o brasileiro cresceu ainda mais em prestígio na ONU, e o seu nome era cogitado como um dos possíveis candidatos à sucessão do cargo de secretário-geral.

– Ele combinava três coisas que teriam feito dele um bom secretário-geral: tinha um carisma muito grande; tinha mais de 30 anos de casa, e por isso conhecia em todos os sentidos o sistema da ONU; e era conhecido por ser mais do que um simples administrador – afirma Kai Michael Kenke.

A ameaça do terror

A princípio, quando foi convidado para atuar no Iraque, Sérgio não queria ir, mas, cedeu à medida que a questão foi crescendo e se tornando central na ONU. A equipe que o acompanhou era composta dos melhores especialistas da comunidade internacional. Em entrevista a um canal de televisão no dia 17 de agosto de 2003, dois dias antes do atentado, ele ressaltou que o papel da ONU era o de ajudar os iraquianos a substituir o mais rápido possível a coalizão no controle do país. “Ninguém gosta de estar sob uma ocupação”, disse.

Contra a transição, a organização terrorista Al Qaeda, porém, já tinha deixado claro que, além dos países da coalizão, a ONU também era alvo. Antes da invasão, a Al Qaeda não atuava no Iraque, já estava presente no país pós-invasão. Um de seus líderes na região era o terrorista Abu Musab al-Zarqawi, que deu ordens diretas para atacar a sede da ONU e matar Sérgio. Para a Al Qaeda, o sucesso da ONU no Iraque seria uma ameaça aos planos da organização terrorista.

De acordo com o professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio, Kai Michael Kenkel, Sérgio estava muito frustrado com o trabalho em conjunto com os americanos, principalmente com Paul Bremer:

– Naquela época, a ONU tinha que se distanciar dos americanos, mas não podia trabalhar sem eles, de quem dependiam materialmente. Mas, politicamente, tinham que se distanciar o máximo possível.

Após a explosão, Sérgio ficou preso entre os escombros junto com Gil Loescher e durante horas teve o auxílio de dois médicos do exército americano que contavam apenas com uma bolsa de mulher para levar medicamentos para dentro dos escombros. Sequer uma pá estava disponível para ajudar a retirar o homem mais importante das Nações Unidas no Iraque.

Mesmo nessa situação, Sérgio ainda se preocupava mais com o estado das outras pessoas do que consigo próprio, perguntando a toda hora sobre outros funcionários feridos. Após conseguirem retirar Gil Loescher dos escombros, os médicos voltaram para tentar ajudá-lo, mas era tarde. Morria o homem que poderia ter feito alguma diferença no futuro do país iraquiano.

Iraque pós-atentado

Logo após o atentado, a ONU retirou a maior parte dos seus funcionários do Iraque. Para Kenkel, isso era um recado para os americanos de que sua segurança tinha falhado: “A experiência da ONU em ver os seus funcionários numa situação de risco de vida era muito mais limitada em 2003 do que é hoje”. A ONU recebeu criticas por ter saído do Iraque. Segundo Kenkel, a decisão se deveu muito mais pela frustação com o trabalho em conjunto com os americanos:

 – Eles estavam muito frustrados com os americanos, e não pensavam estar alcançando os seus objetivos. Não enxergavam um modo de agir sem estar avançando a agenda dos americanos.

Sem a presença da ONU, o poder ficou entregue aos americanos que puderam implantar a sua agenda sem resistência externa. Pior. O país virou campo de batalha entre a chamada Insurgência e as tropas da coalizão. Segundo o grupo Iraq Body Count, de 110 mil a 120 mil civis morreram desde 2003. Mesmo com a retirada das tropas americanas e o poder nas mãos dos iraquianos a situação não está muito diferente de há 10 anos.

– A situação segue sendo ruim, continuam jogando bombas, há o problema dos curdos, dos xiitas que não está muito bem resolvido,  uma série de questões de segurança, a renda do petróleo, o desenvolvimento do país – diz Kenkel.

Não há como afirmar se Sérgio Vieira de Mello teria realmente feito diferença se pudesse ter seguido com seu trabalho. Apesar do sucesso no Camboja e na Indonésia, por exemplo, a situação no Iraque era muito mais complexa. Porém, se o poder tivesse sido entregue aos iraquianos rapidamente, como queria, talvez o país tivesse aprendido com seus erros há mais tempo, e hoje seus cidadãos pudessem ter condições de vida mais dignas.

* Reportagem produzida para a disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso da professora Itala Maduell.