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Rio de Janeiro, 19 de maio de 2024


Cultura

Monarco: "Baniram o samba de raiz, feito por um amor perdido"

Brenda Baez - aplicativo - Do Portal

27/02/2014

 Arte: Viviane Vieira

"Esse é, mais uma vez, o fenômento da música se renovando". Assim o jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo, professor de MPB na PUC-Rio, caracteriza o ano que consagrou dois bambas da nossa música, Cauby Peixoto e Monarco. Em nome do vigor produtivo aos 80 anos, ambos foram premiados no 24º Prêmio da Música Brasileira, categoria "melhor cantor" de MPB e samba, respectivamente. Cauby também foi agraciado por Minha Serenata, escolhido o "melhor Albúm"; e Monarco, aclamado pelos súditos de Madureira e Oswaldo Cruz, área do subúrbio cariona onde nascia em 1923 a Azul-e-Branca transformada em sinônimo de carnaval. O mestre, como é reverenciado lá e em outras rodas culturais, virou presidente de honra da Portela. Com tanto reconhecimento, o coração de Monarco se deixou levar, como diz a obra-prima de Paulinho da Viola:

– É como cantava Nelson Cavaquinho:  "Se quiser fazer por mim, que seja agora, me dê as flores em vida". Estou muito honrado e emocionado por todo esse reconhecimento! – exclama Monarco, que retribui:

– A Portela é a minha vida. 

Com a elegância habitual, o autor de sucessos como Coração em desalinho e Tudo menos amor encontrou uma brecha na maratona regressiva à Sapucaí (a Portela é a penúltima escola a desfilar na próxima segunda-feira) para conversar com o Portal. Fala mansa, corre fácil, feita da mesma irreverência e sensibilidade com que fabrica crônicas melódicas da alma carioca. O líder da Velha-Guarda, nascido Hildemar Diniz, explica a origem do apelido, comenta as premiações recentes, critica um monopólio do samba-enredo nas escolas, conta histórias e, claro, extravaza a expectativa da maior vencedora do carnaval (21 títulos), não à toa chamada de "Majestade do Samba", para quebrar o jejum estendido desde 1984.

Portal PUC-Rio: Mestre, uma curiosidade: qual a origem do nome Monarco?
 

Monarco: Começou em Nova Iguaçu, com uma brincadeira de criança. Um amigo estava lendo uma revista em quadrinhos quando pronunciou a palavra “Monaco”, devia estar escrito “Mônaco”, não lembro direito. Achei engraçado, comecei a rir. Então ele virou para mim e perguntou: “Está rindo de quê, seu… Monaco?” Daí pegou. O “r” só veio depois, não me lembro como.

Portal: No ano passado, o senhor foi consagrado com o Prêmio da Música Brasileira, na categoria "melhor cantor" de samba, virou presidente de honra da Portela. Qual a importância desse reconhecimento?

Monarco: Foram os dois presentes de 80 anos que ganhei antes de cortar o bolo. Como diz Nelson Cavaquinha em uma de suas canções: “Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora, me dê as flores em vida, o carinho, a mão amiga”. Estou bastante emocionado e honrado. A Portela é a minha vida.

Portal: Falando nisso, como começou o caso de amor com a Azul-e-Branco? 
 

Monarco: Meus pais tinham seis filhos para sustentar. Saímos de Cavalcanti quando ainda era bem jovem e fomos para Nova Iguaçu por conta da situação financeira. Mal sabia que lá viveria a parte mais bonita da minha infância: jogava bola sem me preocupar com a vida e, desde então, ouvia no rádio os cássicos do samba, inclusive um de Noel Rosa que falava do Paulo da Portela e o bairro de Oswaldo Cruz. Depois que meus pais se separaram, me mudei com a minha mãe para Oswaldo Cruz e, conversando com alguns amigos, descobri que morava perto da Portela. Fui conhecer a quadra em 1947, e nunca mais saí.

Portal: A Velha-Guarda da Portela sempre foi uma referência no mundo do samba. Mas as velhas-guardas, de uma forma geral, encerram o desfile. O senhor acredita que ainda há espaço para esta ala nos desfiles de hoje? 
 

Monarco: Sim. A velha-guarda é representada por aqueles que deram início a tudo. São os componentes mais antigos da escola, os que enfrentaram os momentos mais difíceis, numa época em que o samba ainda não era valorizado. Não precisam estar necessariamente na Comissão de Frente, pois todas hoje têm um padrão estabelecido, inclusive de coreográfia. Tivemos o exemplo da Velha-Guarda Show, que foi muito aplaudida no desfile. Serviu de incentivo para toda a escola.

Portal: Ainda em relação a valorização dos bambas tradicionais, o que representou a inauguração do busto de Paulo da Portela, um dos artífices da Azul-e-Branca, na quadra da escola? 
 

Monarco: Tudo começou com ele. O mestre merecia uma homenagem de destaque na escola que ajudou a criar. Foi a sua lideraça, trabalho e persistência que fizeram da Portela uma grande escola de samba. Foi uma felicidade fazer parte disso! Estavam comigo o Paulinho (da Viola), o Zeca (Pagodinho), a menina Marisa (Monte) e outros sambistas que também homenagearam nosso fundador.

Portal: Apesar desses reconhecimentos, alguns dizem que o hoje samba nas escolas não atravessa seus melhores dias... 
 

Monarco: A situação está complicada em todas as escolas. Não se cria mais nada, só samba-enredo. Ninguém chega à quadra e mostra um samba que compôs durante a semana. Não se vê nas escolas, amigos mostrando sambas uns para os outros. Os sambistas estão acabando. O samba de terreiro ou o samba de raíz que nós estamos cantando hoje, vai contra tudo isso. Eu, o Nelson Sargento e o Wilson Moreira fazemos a resistência desse estilo que foi banido das quadras das escolas. Você nunca vai ouvir numa quadra, um samba do coração, daqueles que o sujeito faz por um amor perdido, enaltecendo as estrelas ou a passarada como o Candeia fazia.

Portal: E o samba-enredo que elas fazem?
 

Monarco: O samba-enredo não tem qualidade. É feito na correria. Uma colcha de retalho que todo mundo faz um pouco. No fim das contas, o carnaval vira um espetáculo grandioso, mas na quarta-feira todo mundo já esqueceu o samba-enredo.

Portal: A Portela, embora seja a maior vencedora do carnaval carioca, com 21 títulos, não vence desde 1984. Agora, como presidente de honra, o senhor aposta em que para quebrar o jejum?

Monarco: Coração, lealdade e inteligência na frente. Somos tradicionais e temos o mesmo que as outras escolas. Sem amor, nada se consegue. Precisamos ser vigilantes, pensar mais na escola. Agora é arregaçar as mangas e botar nossa Portela entre as preferidas. Temos que brigar pelo 1º ou 2º lugar. Se perdermos, vamos voltar com dignidade, sem "asas quebradas". É a escola com o maior número de títulos, só precisamos ter pulso e bastante dinamismo. O desfile desse ano vai ser lindo! Hoje não temos mais escolas pequenas. Temos a Grande Rio e a Tijuca, por exemplo, fazendo grandes desfiles. Beija Flor, nem se fala. Não temos que ir para o carnaval pensando em não descer, e sim em conquistar, sair da avenida aos gritos.  

Portal: Depois de todo esse revigor, o senhor traça que planos para a carreira?


Monarco: Pretendo continuar fazendo o samba que eu sempre fiz, conforme eles surgirem no meu coração, sem ligar para o mercado. Isso é samba de verdade.

Samba e MPB: Mixagem histórica

Cauby e Monarco, consgrados no 24º Prêmio da Música Brasileira, têm mais em comum do que a vitaliade artística aos 80. Apesar dos estilos e carreiras bem distintos, bebem em fontes geneticamente afinadas.De raízes africanas, MPB e samba surgiram em um Brasil ainda colonial e, desde lá, trançam suas histórias.

Na segunda metade do século XIX, começaram a adquirir características nacionais no ritmo, na melodia e na harmoniaQuando a pioneira Chiquinha Gonzaga compôs, em 1910, "Abre Alas", uma das mais conhecidas marchinhas, fez com que, mais uma vez, os dois estilos fossem, como se diz hoje, mixados. Propagados pelos país em 1930, logo alcançaram a condição de identidade verde-amarela.  

 Ligia Lopes Não por acaso, o Dia da Música Popular Brasileira alude ao nascimento de Chiquinha Gonzaga. "Essa escolha é perfeita. Ela é um abre-alas da música popular", compara Paulo Cesar de Araújo. 

O compositor Carlos Lyra, um dos pais da Bossa Nova, reforça: “a MPB significa uma das expressões da cultura brasileira de maior importância”. Outro dessa turma, Roberto Menescal sobe o rom da reverência: "é importante não só para o país, mas para mundo". Paulo César concorda:

– A MPB acompanha o cotidiano desse povo desde o seu surgimento, funcionando como uma crônica ao dia a dia rural e urbano desde então – argumenta o historiador, autor de biografias como Roberto Carlos em detalhes­.

Difundida por João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e outros jovens cantores e compositores de classe média da Zona Sul carioca, a Bossa Nova escreveu, nos anos 1950 e 1960, um capítulo não menos representativo da música brasileira. Derivado do samba e sob forte influência do jazz, o movimento fabricou uma das músicas mais tocadas mundo afora: Garota de Ipanema. Em princípio, o rótulo referia-se apenas ao modo de cantar e tocar samba naquela época, a uma reformulação estética dentro do moderno samba carioca e urbano, deixando para trás o "modelo Noel Rosa", como categoriza Menescal: 

– Nós tiramos a gravata da Música Popular Brasileira e colocamos as primeiras bermudas. Jogamos ela para cima. Nossa música passou a ter a nossa cara. A cara do Brasil. 

Para Araújo, a MPB deve ser dividida em dois momentos: antes e depois da Bossa Nova. "Viemos de uma música mais tradicional, da Era de Ouro, e chegamos à Modernidade. De alguma forma, tudo o que vem depois foi influenciado pela Bossa Nova".

– Cauby, com 63 anos de carreira, faz parte desses dois momentos – exemplifica o especialista.

Em 1968, o AI-5, quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar, desafinou os enredos musicais, ao proibir atividades ou manifestação sobre assuntos de natureza política. Contra a censura prévia, compositores recorriam ainda mais à criatividade, lembra Araújo:

– As músicas tinham que ser enviadas para a censura, e eram quase todas vetadas. Essa guerra constante desenvolveu muito a criativdade para driblar a censura. O Chico (Buarque) foi o campeão.

Para Monarco, hoje a ditadura é outra. O mestre portelense diz que o samba-enredo deixa pouco ou nenhum espaço para as demais variações, historicamente alinhadas ao que de melhor saída das quadras e das rodas espalhadas pelo subúrbio carioca:

– Não se cria mais nada além de samba-enredo que, logo depois que sai, todo mundo já esquece – reforça o cantor e compositor. 

O professor do Departamento de Letras da PUC-Rio Júlio Diniz reconhece que parte do que há de melhor na cultura brasileira tem a ver com a MPB e os filhos da Bossa Nova. Mas considera os jovens talentos uma mudança positiva na tradição: 

– Tem bastante gente boa no mercado. Não vejo problema de renovação. O mundo que é diferente, não podemos comparar. Na época de Graciliano Ramos, perguntaram se não ia aparecer um escritor como ele, qando apareceram Guimarães Rosa e, depois, Rubem Fonseca. Havia o mesmo questionamento em relação a Camões, e depois veio Fernando Pessoa. Os novos não são melhores, mas diferentes – pondera. Ele acrescenta:

– Existem poucos cantores que cantem e não sejam só compositores. Mas as cantoras são incríveis, há uma explosão delas, como Marisa Monte, Gadu, Adriana Calcanhoto e tantas outras.