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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Economia

Brasil tem de ajustar exportações a novo rumo econômico chinês

Luis Edmundo Sauma - aplicativo - Do Portal

02/09/2013

 Arte: Nicolau Galvão

A desaceleração chinesa apimenta o caldo de preocupações do governo brasileiro, às voltas com a renitência da inflação, a alta do dólar, as manifestações populares, a suposta espionagem da agência de segurança americana NSA e até um princípio de incêndio diplomático com a Bolívia. Maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, destino de 17% das exportações no ano passado, a China despencou do crescimento de 13% em 2007 para a previsão atual de 7,7%. O recuo, embora represente um ritmo invejável a europeus e emergentes (o Brasil deve crescer em torno de 2,3%, segundo projeção revista hoje pelo relatório Focus, do Banco Central), é acrescido de uma fonte talvez ainda maior de preocupação: a valorização do consumo interno, o que ameaça a penetração dos produtos brasileiros no país asiático.

Para o economista Luiz Roberto Cunha, decano do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio, a mudança "não tem volta", e o Brasil tem de se adaptar à nova configuração econômica chinesa e mundial. Na avaliação do especialista, a nova estratégia da China tem implicações políticas: 

– Isso (maior convergência ao consumo interno) chega a ser uma forma de manutenção do modelo político. A população chinesa começou a criar distúrbios, principalmente por conta das condições de vida precárias. A meu ver, essa mudança não tem volta – opina.

No mundo globalizado, lembra o também economista José Maria Machado, professor do Ibmec, as influências do cenário mundial tornam-se inevitáveis, embora reconheça que os efeitos sejam sentidos em fases distintas. Para ele, a própria China foi afetada tardiamente pela crise:

– Entendo que a principal causa para a desaceleração da economia chinesa esteja ligada ao ambiente econômico internacional adverso com baixo crescimento do PIB dos países da Zona do Euro e ainda dos EUA, seus principais parceiros comerciais. O pequeno progresso dessas nações impacta negativamente na corrente de comércio exterior chinês – argumenta.

Essa desaceleração representa, ao mesmo tempo, causa e consequência da mudança no rumo econômico da China, em transição na forma de crescimento. A intenção do novo governo de Xi Jinping é alternar a base da economia, antes caracterizada pelos investimentos e pelas exportações, para o fortalecimento do consumo interno. Assim, acreditam as autoridades chinesas, o país compensa o recuo do poder de exportação decorrente da crise.

Diante da mudança na diretriz econômica, o país luta para aumentar o poder aquisitivo da maior população do mundo, que em 2011 tinha 100 milhões vivendo com menos de U$ 1 por dia. O governo pretende duplicar a renda per capita da população para U$ 10 mil, diminuindo a diferença entre renda urbana e rural.

Com o foco econômico chinês mais voltado para dentro, o Brasil já acusa o golpe. As exportações para lá caíram 17% desde o segundo semestre de 2012, em relação ao período equivalente de 2011, e a balança comercial entre os dois países recuou 90% na mesma época. 

Segundo economistas, a pauta de exportações brasileiras é fragilizada pela predominância de produtos básicos  com baixo valor agregado, no jargão econômico –, principalmente matéria-prima. Característica que, como indica informe da Organização Mundial do Comércio (OMC), fez o Brasil cair “para o degrau mais baixo na escala de valor agregado em seu comércio com a China nas últimas décadas”. Um exemplo é a soja: 95% das remessas ao exterior embarcam sem qualquer processamento. Podutos assim correspondiam, em 1995, a 10% do volume total exportado; hoje correspondem a 83%, o equivalente a US$ 34 bilhões.

– A preocupação é de que o país não se torne, como vem se desenhando nos últimos anos, um preponderante exportador de produtos básicos, em detrimento da queda de participação na pauta exportadora de produtos manufaturados, em especial dos de maior valor agregado, menos sujeitos à volatilidade de preços e mais atingidos pelas variações do câmbio – explica Wagner de Medeiros, coordenador de câmbio, financiamento e seguro de crédito à exportação da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil).

O Brasil acende sinal amarelo por conta também da estratégia chinesa de desenvolver a própria indústria de base, como aço, ferro, papel, soja. Espelho disso foi a queda de 11% registrada pelo Índice Internacional de Preços de Commodities (CRB) no segmento de commodities de metais, entre fevereiro de 2012 a fevereiro deste ano. De acordo com especialistas, o minério de ferro, produto brasileiro mais importado pelos chineses, se tornaria mais competitivo se fosse negociado em placas de aço. Ultrapassaria, provavelmente, os U$ 3,5 bilhões gerados no ano passado em negociações com os chineses.

Investimento em infraestrura expõe contraste entre países

Tão importante quanto diminuir a dependência de produtos básicos na pauta de exportações, prescrevem oa analistas econômicos, é a conjugação de três esforços fundamentais associações à capacidade de gestão: aumentar a produtividade, melhorar a infraestrutura e enxugar os gastos públicos. Em relação à infraestrutura, o exemplo chinês é emblemático. Mesmo com renda per capita semelhante à de República Dominicana e Jamaica, países considerados subdesenvolvidos, a China investe cerca de 45% do seu PIB em infraestrutura, contra 18% do Brasil.

Ampliar os investimentos, com especial atenção à infraestrutura, é uma das receitas indicadas por economistas para o país retomar o rumo do crescimento sustentável. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), para o Brasil crescer 5% ao ano, a taxa de investimento deveria chegar a 25%.

– O Brasil está na contramão, não apenas da China, mas de todos os países que almejam crescer de modo sustentável e conquistar espaço no mercado internacional, mesmo os que tenham, como é o nosso caso, vantagem da grandeza de seus mercados internos. A economia brasileira há muito é refém da falta de investimentos avalia Medeiros.

Um dos maiores problemas no Brasil, o transporte progrediu exponencialmente na China. Entre 1978 e 2007, a capacidade portuária e o transporte aéreo avançaram 20 e 15 vezes, respectivamente. O aumento se reflete no PIB chinês, que cresceu 68 vezes no mesmo período. Em 2010, diante às demissões em massa nas fábricas exportadoras, a China ordenou que o novo sistema ferroviário fosse concluído até 2012, em vez de 2020, despejando mais de U$ 100 bilhões para fomentar os projetos. Enquanto isso, o Ministério de Transportes brasileiro adiou pela terceira vez a licitação para o Projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV), avaliado em R$ 8 bilhões, por falta de concorrência. O percentual de território ocupado pela malha ferroviária brasileira é menor do que países como Sudão, Angola e Congo. Para Luiz Roberto Cunha, o Brasil perdeu esse bonde:

– O Brasil acabou perdendo uma oportunidade. Apesar de serem coisas de extrema importância, o governo gasta muito em educação e saúde, poupando pouco. Com isso, acaba dependendo da poupança externa, de financiamento exterior. Isso só acontece se o país tiver perspectivas e condições favoráveis. Já tivemos essas condições há alguns anos, mas agora estamos numa fase mais complicada – pondera.

Ainda de acordo com o economista, o cenário atual, influenciado, por exemplo, pela redução no ritmo de crescimento chinês e pela escalada do dólar, está longe de representar uma grande aflição para a economia brasileira:

– A médio e longo prazo, a China continuará sendo um dos motores do mundo, principalmente àqueles países que trabalham com o fornecimento de matérias-primas – prevê ele – Dados a curto prazo não indicam tendência nenhuma, isso só ajuda a vender jornal. É muito normal que bolsas de valores pelo mundo oscilem dessa maneira. A China não passa por uma crise, ela simplesmente parou de crescer em um nível absurdo para crescer muito. O principal problema para o consumidor é a crise política – relativiza.

Alimentos podem ser o sustento brasileiro

Um dos caminhos para manter lubrificado o comércio com a China é, sugerem especialistas em negócios internacionais, ajustar o repertório exportado às novas demandas decorrentes da valorização do consumo interno. Significa, por exemplo, investimento em commodities alimentícias. Pois, com o enriquecimento da população chinesa, o consumo de alimentos aumenta. Sinal dessa tendência foi a entrada da BRF no mercado chinês no ano passado, em parceria com a Dah Chong Hong. Ademais, o Brasil exporta 25% da sua safra de soja para os chineses, gerando pouco mais de U$ 12 bilhões.

Outro caminho remete ao fortalecimento da indústria papeleira, que ocupa a quarta colocação no ranking de exportações brasileiras para a China. As fabricantes de celulose prometem investir mais de U$ 10 bilhões até 2020. 

Novos rumos chineses favorecem menos os Brics do que os novos Tigres Asiáticos

As mudanças na economia chinesa devem, no entanto, reforçar a tendência de perda de comptetitividade do Brics (grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) no tabuleiro do comércio externo, e de ascensão de outros emergentes, principalmente os novos Tigres Asiáticos (Filipinas, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã) e o México, cujas exportações concentram uma parcela maior de bens industriais. De todo o comércio feito pelo Brics com países desenvolvidos, a China responde por 2/3 das movimentações.

– A China afetará o Brics, principalmente no que diz respeito ao investimento externo e à demanda interna decrescente. Esses fatores afetam o crescimento do PIB. Os países que compõem o Bric têm apresentado crescimento moderado nos últimos três anos – recorda Machado.

O avanço desses países pode ser freado pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano). A política de redução de juros adotada pelos americanos durante a crise de 2008, além da injeção mensal de US$ 85 bilhões, ajudou os países em desenvolvimento, que se beneficiaram das flexibilizações do Fed. Agora, apesar de o cenário econômico americano ainda se apresentar incerto, o Fed pretende aumentar os juros, migrando o capital externo dos países em desenvolvimento. Conforme o EPFR Global, US$ 3 bilhões deixaram fundos de mercados emergentes só na última semana. Com esse êxodo  o total de retiradas totalizou US$ 20,4 bilhões desde o fim de maio  Ben Bernanke, presidente do Fed, levantou a possibilidade de reduzir os estímulos no fim do ano.

Escalada do dólar, inflação, crescimento baixo completam pacote de preocupações

A escalada do dólar acrescenta algumas rugas às feições atuais da economia brasileira. Embora seja, em princípio, favorável às exportações, a queda acentuada do real, somada à química perversa entre inflação alta e crescimento baixo, reduz a vitalidade econômica para superar obstáculos como uma relação comercial com a China menos aquecida. A cotação da moeda subiu 25% desde o início de 2012, chegou recentemente a R$ 2,38, maior marca desde dezembro de 2008, e sangrou a balança comercial brasileira, que teve seu menor superávit em 10 anos.

A depreciação do real revela-se a maior entre as perdas sofridas por moedas dos países emergentes no ano. Relatório do Banco Internacional de Compensações (BIS), uma espécie de banco dos bancos centrais, aponta o real como a terceira moeda mais desvalorizada entre as 61 analisadas, atrás só do iene japonês e o rand sul-africano. Em agosto, a moeda brasileira caiu 6% frenta ao dólar, de acordo com o Broadcast. O professor José Maria Machado lembra a influência do câmbio num cenário volátil:

 Não se pode esquecer que o câmbio é um dos preços mais importante da economia, ainda mais em países como o Brasil, cujas moedas não são aceitas como pagamento de importações ou dívidas com o exterior. O preço do dólar afeta o comércio interno e externo, a inflação, as contas do governo, o crescimento econômico e a popularidade dos governantes – completa.