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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


País

Voluntário da primeira vinda de papa lembra encontro histórico

Mariana Totino - Do Portal

23/07/2013

 Arquivo Pessoal

“Sejam missionários!”, diz um dos versos do hino oficial da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) do Rio de Janeiro. A poucos dias da chegada do Papa Francisco ao Brasil, jovens e adultos católicos, muitos deles voluntários em contagem regressiva desde 2011, preparam-se para o início dos atos oficiais da JMJ, nesta terça-feira, 23. Apesar de ser um evento inédito no país, que irá reunir 1,5 milhão de peregrinos vindos do mundo inteiro, além de apresentar desafios sem precedentes em termos de movimentação de pessoas pela cidade e de ser o primeiro grande evento internacional na agenda do novo pontífice, uma multidão de fiéis já se reuniu outras vezes em terras brasileiras para ficar perto de um papa. Para quem ajudou na organização da primeira vinda de um papa ao Brasil, há 33 anos, e, desde então, passou a se dedicar à evangelização de jovens, o momento é propício para a renovação do ânimo e da esperança da juventude.

O fundador da Comunidade Católica Shalom, Moysés Azevedo, tinha 20 anos quando participou, como voluntário arquidiocesano, da organização da visita de João Paulo II, que em 1980 passou por 13 cidades brasileiras em 12 dias, fazendo a última parada em Fortaleza, para a abertura do 10º Congresso Nacional Eucarístico. Aberto ao público, o encontro com o papa lotou o estádio do Castelão, na capital cearense, e foi nesta ocasião que Moysés ficou diante do papa (foto), momento que o levaria, dois anos depois, a dedicar sua vida à missão de evangelizar jovens. Para o católico, missionário, que fez votos de pobreza e celibato, a vinda do novo papa ao Brasil deixará um legado espiritual e será um estímulo para a juventude. Ele ressalta ainda que a JMJ é para todos, inclusive adeptos de outras religiões, católicos, batizados, praticantes ou não (leia também: Jornada desperta não religiosos e católicos não praticantes):

– Será uma festa da fé, de braços abertos para celebrar o dom da fé. Neste momento que o país vive, a vinda do papa é providencial. Ele vem como o verdadeiro mensageiro da paz e, pela própria forma dele de ser, com simplicidade, humildade e coerência de vida, passará uma mensagem de verdade, de paz, de caridade e, ao mesmo tempo, fará um chamado de consciência e de responsabilidade para os jovens. O papa indica um caminho de verdade, de construção de um mundo melhor, de uma sociedade mais fundamentada no amor, na coerência e, especialmente, no serviço daqueles que são mais necessitados de Deus, de justiça e de paz.

 Arquivo Comunidade ShalomMoysés esteve também em outras jornadas mundiais da juventude e acredita que um dos pontos especiais desta jornada, com o papa Francisco, é a maneira particular que o novo pontífice tem de “incluir-se ao chamar à consciência toda a humanidade”. O papa jesuíta-franciscano “não põe o dedo em riste, convida a todos, inclusive a ele mesmo, a ouvir o clamor da humanidade que busca resposta para questões profundas”. Moysés relaciona esta busca – e a compreensão de uma incompletude que seria comum a todo ser humano – com o “vazio de amor, liberdade e verdade no coração” descrito por Santo Agostinho, o qual “só Deus pode preencher”.

Exemplo de quem, atuando na igreja, fortaleceu a fé, Moysés lembra que aos 16 anos não tinha mais vontade nem de ir às missas dominicais, que nunca deixou de frequentar graças à influência dos pais e da família cearense tradicionalmente religiosa, até que, num fim de semana, resolveu participar de um encontro com um grupo jovem. Lá ele teve “uma experiência pessoal com o amor de Deus, uma conversão”, percebendo que ali poderia encontrar “a felicidade que um coração jovem procura em muitos lugares que às vezes só deixam os corações ainda mais vazios”, passando a enxergar a igreja como uma família. A partir daí, integrou de serviços de evangelização de jovens, além de colaborar em eventos da igreja.

Arte: Mariana Totino  Alguns jovens têm a oportunidade de chegar mais perto do papa. Desta vez, na visita do Papa Francisco ao Brasil, serão 12 jovens que irão almoçar com o papa na residência oficial do arcebispo Dom Orani João Tempesta, o Palácio São Joaquim, e outros cinco, cada um representando um continente, que irão receber o sacramento da confissão das mãos do pontífice. Em 1980, Moysés era um dos 400 voluntários da Arquidiocese de Fortaleza e foi escolhido pelo arcebispo local da época, o cardeal Dom Aloísio Lorscheider, para representar os jovens entregando um presente ao papa João Paulo II.

– Após muita reflexão, o que me vinha à mente era a experiência que eu tinha vivido, de ser um jovem, nascido numa família católica, que se afastou da Igreja e buscou a felicidade em outros lugares, para depois descobrir que a felicidade estava diante de mim. Veio, então, o desejo de dar de presente para o papa, nada mais do que a minha própria vida, para dar de graça o que de graça eu recebi. Fiz uma carta ofertando a minha juventude para evangelizar outros jovens – relata Moysés.

O olhar do papa é a lembrança mais viva que o missionário carrega do momento que esteve aos pés do representante máximo da Igreja Católica. Perto do papa, ficou muito comovido e não conseguiu falar nada do que tinha pensado em dizer. Havia até ensaiado algumas palavras em italiano, idioma que não conhecia na época. Ele recorda que só conseguiu se ajoelhar e entregar a carta e, mesmo não tendo dito nada, era como se João Paulo II o ouvisse:

– Ele me olhava como se entrasse na minha alma e dissesse que eu não precisava dizer nada. Era como se ele me abraçasse, me abençoasse e tocasse meu rosto. Nunca mais vou esquecer aqueles olhos, pois, através deles, eu experimentava algo maior, que me amava, me guiava e acolhia aquela oferta da minha juventude. Aqueles olhos representavam também os braços da igreja, que me abraçavam. Quando saí dali, sabia que tinha recebido uma graça muito grande. Mas eu não sabia identificar que graça era aquela.

 Arquivo Comunidade ShalomExatos dois anos após a entrega da carta ao papa, no dia 9 de julho de 1982 – uma coincidência que Moysés só percebeu dez anos depois – foi oficialmente inaugurado o primeiro centro evangelizador da Comunidade Católica Shalom, em Fortaleza. Hoje, a comunidade que está em mais de 60 cidades brasileiras e mais de 20 países, teve aprovação concedida pelo Papa Bento XVI e, no ano passado, teve também os estatutos aprovados.

Para atrair jovens que haviam perdido a vontade de ir à missa e que não participavam de grupos de oração, o centro da comunidade tinha um diferencial: na frente era uma lanchonete, mas atrás tinha uma capela. Jovens estudantes trabalhavam preparando e servindo os lanches. No primeiro momento, lanchavam e conversavam sobre vários assuntos, entre eles, a fé. Depois, todos seguiam para a capela, na parte de trás da lanchonete, onde participavam de missas e adoravam o Santíssimo Sacramento. Aos poucos, mais jovens e famílias passaram a frequentar as atividades do local e alguns deles revelavam a Moysés que também desejavam dedicar suas vidas à evangelização.

– Comecei a me inquietar, sem saber como viveria o que tinha ofertado aos pés do papa. Andava nas ruas de Fortaleza e via jovens, como eu também era, buscando a felicidade em tantos lugares, como eu também busquei, mas que um dia, sem mérito nenhum, descobri que a felicidade do ser humano está na experiência da verdade, do amor. Tive, então, a ideia, que parecia louca, mas que cada vez ficava mais forte, de fazer uma espécie de lanchonete: se esses jovens não sentem vontade de ir à missa nem a um grupo de oração, eles comem um sanduíche, tomam um suco, comem uma pizza.

 Comunidade ShalomQuanto à santificação do beato João Paulo II, prevista para até o fim deste ano, Moysés vê com muita alegria a confirmação de um exemplo de coerência e de dedicação de vida, que mostra que a santidade não está tão distante de nós:

– Em primeiro lugar, é uma alegria poder ver a Igreja confirmando vidas de ofertas e doação, tais como a vida de João Paulo II. Ele enfrentou totalitarismos, dentro de um percurso de fé e de esperança, viveu um grande período de renovação da  Igreja. Em segundo lugar, é uma alegria muito grande ver um santo contemporâneo a nós, pois existe a impressão de que a santidade está muito distante. Reforça que a fé é um bem da humanidade.

Moysés explica ainda que missionários da Comunidade Católica Shalom vieram para o Rio de Janeiro trabalhar na preparação da JMJ, seja no Comitê Organizador Local ou nos eventos culturais paralelos, como o Bote Fé e o Halleluya que acontecerá nos Arcos da Lapa e terá atrações musicais, e em outros dois festivais realizados pela comunidade. Quando não houver nenhum ato central da JMJ, é lá que eles estarão.

– Estaremos na JMJ todos os dias. Nascemos assim, no meio dos jovens e aos pés de um papa. Nos dias de jornada, participaremos de todos os atos centrais, mas uma equipe também estará trabalhando nos atos culturais, em que realizaremos várias atividades próprias da comunidade. Estamos a serviço desde a preparação da Jornada. Milhares de jovens estão vindo conosco – afirma Moysés.

Visitas de papas ao Brasil

A última visita de um sumo pontífice ao Brasil foi em 2007, quando o papa (agora emérito) Bento XVI visitou São Paulo e canonizou o beato brasileiro Frei Galvão. Antes disso, João Paulo II, idealizador das jornadas mundiais da juventude, reconhecido como o papa peregrino, foi o primeiro a visitar o país, de 30 de junho a 12 de julho de 1980, passando por cidades como Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Teresina, Belém, Manaus, Recife e Fortaleza, tendo retornado ao Brasil outras três vezes (em 1982, 1991 e em 1997). Hoje a multidão de peregrinos da JMJ e os 60 mil voluntários, que desejam chegar perto de um papa, contará com esquema especial de segurança e serviço de transporte para se deslocar até os locais onde haverá eventos oficiais. Já na passagem de João Paulo II no Castelão, numa quarta-feira, 9 de julho de 1980, que reuniu 120 mil pessoas, a segurança era feita em torno do papa, carros deveriam ser deixados a 600 metros do estádio e autoridades precisaram pedir pelo rádio para que as pessoas não se dirigissem mais ao estádio, a fim de conter o fluxo de pessoas que só aumentava, em filas montadas desde as duas horas da manhã (os portões abririam somente às 8h30).Reprodução

Segundo reportagem do Jornal do Brasil publicada no dia seguinte ao encontro, havia “pessoas chegando a pé, desde o meio dia de terça-feira, que pareciam se dirigir a um piquenique, com sacolas, marmitas e até cadeiras”. Investidas para chegar perto do papa e pessoas dormindo em frente ao estádio também são relatadas. A grande aglomeração de pessoas resultou em tumultos, um dos portões de acesso ao estádio foi derrubado, houve dezenas de feridos e três mortos. No estádio, o cantor Luiz Gonzaga prestou homenagem ao papa, tocando o baião “Obrigado, João”, e o público entoou canções como “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos. No Rio de Janeiro, João Paulo II foi hospedado no Sumaré, na mesma casa que o papa Francisco ficará, e visitou a Favela do Vidigal. Desta vez, a comunidade que receberá a visita de um pontífice será em Manguinhos.