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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Inspiração frequente ao cinema, HQ renova coleção de fãs

Vítor Afonso - aplicativo - Do Portal

02/08/2013

 Arte: Nicolau Galvão

Devoradas em jornais, revistas e, mais recentemente, na internet, as tradicionais histórias em quadrinhos renovam-se com a sistemática transposição para o cinema e a febre das redes sociais. Segundo a distribuidora Diamond Comics, o mercado de quadrinhos cresceu 22,59% em março deste ano, em comparação o período equivalente de 2012. A Marvel conquistou uma fatia de quase 40% do setor, deixando para trás a DC, com 27,06%. Os sucessos no papel, em plena era digital, se refletem e se amplificam em grandes produções para a telona. Na fornada recém-fabricada, a missão de multiplar os fãs e os lucros é liderada por Wolverine: Imortal (James Mangold, EUA, 2013), que estreou na sexta-feira passada, e O Homem de Aço, a releitura do super-homem dirigida por Zack Snyder (EUA, Canadá, Reino Unido, 2013). Nesta sexta adaptação cinematográfica, o herói aposenta o indefectível sungão vermelho por cima da roupa.

Fora a recente geração de filmes inspirados nas HQs, o mundo dos quadrinhos comemora os 50 anos da Turma da Mônica, cuja versão jovem oxigenou, segundo o próprio criador Mauricio de Souza, a audiência e a receita. Em meio às novas tintas com que essas histórias se perpetuam, o Portal PUC-Rio conversou com leitores e colecionadores aficionados por gibis, para melhor compreender como se move a inesgotável e elástica paixão pelas revistas. Um dos mais entusiastas, o jornalista Rodrigo Fonseca, repórter e crítico de cinema do Globo, transformou o hábito em inspiração profissional. Ele conta, orgulhoso, que a coleção de 12 mil gibis (“a maior parte guardada na casa da mãe”), iniciada em 1989, aos 9 anos, além de ter colaborabo para a alfabetização, o fez “cair no cinema”:

– Culturalmente, o que me alfabetizou foram os quadrinhos. E fui parar no cinema porque a narrativa sequencial dos quadrinhos contribuiu para eu gostar da narrativa sequencial animada e em ação do cinema.

Com o coração dividido entre os quadrinhos e o cinema, Fonseca destaca Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (Christopher Nolan, EUA, 2012) como a adaptação dos gibis para a telona que mais o interessou. Já quanto ao novo filme do Super-Homem, ele tem restrições, embora acredite no sucesso comercial:

– Achei o filme fraco. Mas tem potencial de sucesso. Há coisas positivas, como ter sido filmado por um diretor (Zack Snyder) que respeito muito. Ele toma uma liberdade corajosa, mas que resulta em fracasso em termos de dramaturgia cinematográfica. Fez um filme mais próximo de uma tradição de ficção científica, no qual não cabe muito o personagem – argumenta.

Com a propriedade de quem há muito trafega com desenvoltura por aquelas feições não raramente próximas de arte, o crítico acredita ser “um erro comparar as histórias dos gibis com o cinema”. Para ele, o quadrinho pode “inspirar o cinema”, resultando em grandes filmes, mas também pode haver o efeito contrário. Desta forma, a questão é “como adaptá-lo”:

– O quadrinho é o quadrinho e o cinema é o cinema. Alguns filmes conseguem ser inspirados pelos quadrinhos, como é o caso do último Batman. Mas às vezes surge um filme com pouca qualidade, como é o caso de Capitão América: O Primeiro Vingador, que é travado. Os Vingadores e o primeiro Homem de Ferro também são grandes filmes.

Sobre a faceta de colecionador, Fonseca diz que mantém a leitura mas hoje é raro guardar as revistas. Culpa a “falta de espaço” e a “queda na qualidade de produção”. Ainda assim, garante que compra quadrinhos “praticamente todos os dias” e se deixa levar pelo xodó com nome de clássico cinematográfico:

– Compro uma vez a cada dois dias, no mínimo. O que mantenho mais como xodó é uma revista chamada Vertigo, porque gosto muito de uma série que ela publica denominada Escalpo. O gibi 100 balas, sempre que é lançado, eu compro, mas vai acabar. Quando eu não estou bem, compro Homem-Aranha, meu analgésico – confessa o jornalista, revelando o uso terapéutico dos gibis certamente compartilhado pelos colecionadores.

 Clique para ampliar Entre os favoritos da infância, ele aponta três revistas guardadas “com carinho especial”:

– Tenho Grandes Heróis Marvel do fim de 1993, com uma história sobre o príncipe Namor. Li esse gibi umas 40 vezes. Tenho um do Conan, versão colorida, que li cerca de 90 vezes. E tenho o número 100 de A espada Selvagem de Conan.

Quando os quadrinhos são levados para a internet, contudo, eles “caem para um nível inferior”, ressalva Fonseca. O especialista considera que, apesar da possibilidade de adaptar os gibis para o mundo virtual, a internet não acrescenta muito às histórias. Além de ser “desconfortável para ler”, não há uma linguagem própria para o quadrinho nesse meio:

– Para quem é leitor de quadrinhos há muito tempo, isso é algo desconfortável. A gente usa a internet como reprodutora, mas sem ter grandes acréscimos. A gente joga o quadrinho ali, no novo suporte, e isso acrescenta pouco.

O crítico e fã de quadrinhos destaca a série Os Malvados, de André Damer, produzida em meados da última década, como “o objeto do gênero mais interessante que apareceu na internet”. Provavelmente, teria preferido acompanhada no velho e ainda valorizado papel.

Superproduções aquecem a leitura de revistas pelos jovens

 O estudante Ronan Coelho, de 19 anos, se mostra igualmente apaixonado pelas histórias em quadrinhos. Entre as idas e vindas de metrô para a universidade e para o estágio, ele se entrega ao hobby cultivado desde os 10 anos de idade. Um casamento reaquecido pelos sucessos de Hollywood:

– Gosto muito dos quadrinhos da Blizzard, da Marvel e da DC. Os Vingadores e a Liga da Justiça sempre estiveram na minha infância, e agora, depois de alguns anos, voltei a viver essa fase. Não dá para dizer que as superproduções do cinema não contribuíram para isso.

HQ alçado também às telonas, Thor é uma das revistas marcantes do leitor contumaz. Na coleção distriuíbuda por duas estantes cheias de gibis, a edição "mais especial" é do herói de Asgard, que chegou ao cinema em 2011:

– É uma edição de capa dura – orgulha-se – A história foca Loki, meu vilão favorito, irmão de Thor.

 Clique para ampliar Apesar do carinho com as revistas, Coelho lembra que não era uma criança cuidadosa com aqueles mais tarde convertidos nos primeiros exemplares da coleção. Como outros tantos gibimaníacos, prefere a edição impressa, em vez de ler pela internet. Ele lembra a dura que o transformou num coleciosador organizado:

– Não me preocupava, sempre deixava as revistas espalhadas. Um dia, contrariada com a bagunça, minha mãe rasgou a revista favorita na época. Era do Pokémon, lembro até hoje da capa. Aprendi a lição. Agora meus quadrinhos são guardados em ordem e nunca estão espalhados.

Na contramão do que observa em boa parte dos leitores assídos, os livros o conduziram até os gibis. Antes, passou pelos mangás. Hoje, prefere os quadrinhos americanos. O jovem explica que os gibis "se apresentaram" como uma forma de preencher a falta de tempo e deixar ativo o “lado gamer” da infância:

– Por causa do trabalho e da faculdade, não consigo jogar os games como eu jogava. Por isso, comecei a comprar quadrinhos de jogos da minha infância. Isso me fez ver como são as histórias por trás dos jogos e me interessei mais pelos roteiros, pelos personagens e pelas mitologias.

O estudante de Comunicação Social ainda identifica nos gibis traços proveitosas à vida acadêmica e ao trabalho. Segundo ele, além de “manter a criança interior viva” e “fugir das besteiras da internet”, as histórias em quadrinhas colaboram para a prática e para o estudo da comunicação:

– Entrei no mercado da comunicação para trabalhar como redator. Desta forma, preciso estudar todos os tipos de texto –  pondera – Ideias nunca são demais. Acredito que essas leituras são importantes para formar um profissional criativo.

Aos 50, rainha dos gibis brasileiros mantém o fôlego

Apesar da força, descomunal, ela esboçou carreira de super-heróis, tampouco virou superprodução de Hollywood. Soube, no entanto, espantar as armadilhas do mercado para tornar-se a menininha mais conhecida dos quadrinhos brasileiros e chegar aos 50 anos, completados em março, com renovado fôlego comercial. A estreia, contudo, não foi nos gibis. Mônica apareceu pela primeira vez em março de 1963 nas tirinhas do jornal Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo). Inspirada na filha homônima de Maurício de Sousa, foi a primeira personagem feminina na turma que já contava, por exemplo, com Cebolinha.

 Clique para ampliar Com 200 mil exemplares, a primeira edição de Mônica e a sua turma era ublicada em 1970. Pela primeira vez um personagem das tirinhas de Maurício de Sousa ganhava revista própria. Em 2012, a continuidade do sucesso foi comprovada com 1,2 milhão de livros publicados. Um combustível sem o qual seria impossível a jornada rumo à necessária globalização: a Mauricio de Sousa Produções (MSP) se espraiou para 30 países, embora ainda cuide para manter a fatia de 86% dos gibis consumidos no mercado brasileiro. 

Com 50 anos de histórias, a Turma da Mônica coleciona fãs também da geração mergulhada nas redes socais. Como o estudante Guilherme Valle, 21 anos, que coleciona essas revistas da turma desde os 4 anos. “Para dar continuidade à história”, agora acompanha as aventuras da turma na versão jovem:

– Lia a Turma da Mônica clássica quando era criança, hoje leio a Turma da Mônica Jovem (TMJ). Em princípio, não me liguei muito quando a nova revista foi lançada, em 2008. Mas, depois que ganhar a primeira edição, acabei me interessando e passei a colecionar também.

Entre gibis de Zé Carioca, Mickey, Pato Donald, Thor, Batman, Homem-Aranha, Hulk e Turma da Mônica, Guilherme contabiliza 300 revistas em quadrinhos. Mais de 80%, estima ele, corresponde a histórias da “dentuça que conquistou o Brasil”. O conjunto reúne desde os quadrinhos clássicos da Mônica até os mais recentes, nascidos em 2008, passando por edições especiais.

– Guardo por carinho, mas também como colecionador – esclarece – Compro a TMJ mensalmente e tenho todas as edições, inclusive as especiais.

Embora o sucesso dessa turminha tenha se pavimentado no papel, seus puderam acompanhá-la em outras praias. Como a adaptação, em 1978, do clássico Romeu e Julieta, de Shakespeare, que chega aos teatros brasileiros com o nome Mônica e Cebolinha no mundo de Romeu e Julieta. Dez anos depois, a primeira animação longa-metragem da Turma da Mônica estreava na telona: Estrelinha Mágica. Em 1990, uma edição especial do gibi apresentou o Estatuto da Criança e do Adolescente.  em 2001, Mônica virou uma adaptação do quadro Mona Lisa. Em 2007, tornaria-se a primeira personagem fictícia designada embaixadora da Unicef. No ano seguinte, numa estratégia para renovar o público, Mônica e sua turma ganharam uma versão jovem. Com 500 mil exemplares, a revista segue um dos maiores sucessos editoriais brasileiros.

Alguns sucessos dos quadrinhos que ganharam as telonas:

Superman:

A história em quadrinhos criada por Stan Lee acumula seis versões para o cinema. As quatro primeiras foram estreladas por Christopher Reeve, nos filmes Superman - O filme (Richard Donner, 1978), Superman - A aventura continua (Richard Lester, 1980), Superman III (Richard Donner, 1983) e Superman IV: Em busca da paz (Sidney J. Furie, 1987). Em 2006, Brandon Routh reviveu o herói emSuperman - O retorno, com direção de Bryan Singer. Na mais recente adaptação, O Homem de Aço, do diretor Zack Snyder, em cartaz nos cinemas brasileiros, Henry Cavill interpreta o personagem. 

Batman:

O primeiro gibi do Batman foi publicado originalmente em 1940. O personagem dos quadrinhos já apareceu em sete filmes, interpretado por cinco atores. O primeiro foi Adam West, em Batman, o homem morcego (Leslie H. Martinson, 1966). Michael Keaton vestiu a capa preta duas vezes, em Batman (1989) e Batman - O Retorno (1992), ambos dirigidos por Tim Burton. Em 1995 foi a vez de Val Kilmer, no filme Batman Eternamente; depois, de George Clooney, em Batman & Robin (1997). Os dois foram dirigidos por Joel Schumacher. A mais recente interpretação de Bruce Wayne coube a Christian Bale, na trilogia Batman Begins (2005), Batman: O cavaleiro das trevas (2008) e Batman: O cavaleiro das trevas ressurge (2012), todos dirigidos por Christopher Nolan.

Homem-Aranha:

As primeiras teias do herói foram lançadas nos cinemas por Tobey Maguire, na trilogia Homem-Aranha (2002, 2004 e 2007, Sam Raimi). O diretor revelou ser um viciado em histórias em quadrinhos. Em 2012, Andrew Garfield viveu o personagem no filme O espetacular Homem-Aranha, dirigido por Marc Webb.

Homem de Ferro:

O polêmico playboy Tony Stark foi interpretado por Robert Downey Jr. em Homem de Ferro (Jon Favreau, 2008), Homem de Ferro II (Jon Favreau, 2010) e Homem de Ferro III (Shane Black,2013). Downey Jr. Também viveu o herói no filme Os vingadores (Joss Whedon, 2012), outro sucesso dos quadrinhos que ganhou a tela grande.

X-Men:

A famosa história em quadrinhos chegou ao cinema em 2000, com o filme X-Men, dirigido por Bryan Singer. Os papéis principais foram vividos por Hugh Jackman (Wolverine), Patrick Stewart (Professor Charles Xavier), Halle Berry (Tempestade), Ian McKellen (Magneto), Famke Janssen (Jean Grey), James Marsden (Ciclope), Anna Paquim (Rogue) e Rebecca Romijm (Mística). De volta no papel no recente Wolverine: Imortal, Hugh Jackman também atuou como o personagem no filme X-Men Origens:Wolverine (Gavin Hood, 2009).