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Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2017


País

Ex-líderes comentam a nova face da mobilização nacional

Guilherme Simão e Rodrigo Serpellone - Do Portal

02/07/2013

 Divulgação

A onda de manifestações que se espalhou pelo Brasil nas últimas semanas trouxe à memória outros momentos históricos de mobilização popular, como a Passeata dos 100 Mil, em 1968; a campanha das Diretas Já, em 1984; e os caras pintadas indo às ruas pedir o impeachment de Fernando Collor, em 1992. Em todos esses momentos, foi a juventude que se mobilizou para formar as fileiras. Mas em 2013, pela primeira vez, não há líderes – ou estes fazem questão de não se destacar. Ouvidos pelo Portal PUC-Rio Digital, ex-líderes estudantis e sociais que participaram de movimentos nos anos 60, 80 e 90 comentam as principais diferenças dos protestos atuais: a multiplicidade de bandeiras, a intolerância partidária e a falta de liderança clara, além do regime democrático que favorece o diálogo.

As grandes manifestações populares da história recente do Brasil foram lideradas por movimentos sociais, estudantis e sindicais. A Passeata dos 100 Mil, em 1968, e o Fora Collor, em 1992, por exemplo, foram organizados por estudantes. A campanha Diretas Já, por eleições presidenciais diretas, em 1984, cresceu a partir da entrada de entidades sindicais e partidárias. Já os protestos atuais são organizados pelas redes sociais e não apresentam lideranças definidas.

Na visão do professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) Daniel Aarão Reis – um dos líderes do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8), que tentou instalar a política socialista no Brasil a partir da luta armada –, a pluralidade e a ausência de liderança são naturais no início de grandes movimentos sociais.

– As lideranças já estão aparecendo e, se o movimento perdurar, o que espero e no que acredito, surgirão mais lideranças, representativas destes movimentos que tendem agora a se suceder. Mas tudo isto vai se decantar à medida que as manifestações continuem, precisando-se sua pauta, que também, obviamente, será um objeto de disputa.

Dos movimentos dos anos 1960, o atual recupera três legados preciosos, enumera Aarão Reis:

– Em primeiríssimo lugar,  a autonomia em relação aos partidos políticos e ao Estado. Um outro legado que merece reflexão: a seriedade e a consequência com que são assumidas as reivindicações concretas, concebidas não como jogo de cena para atingir outros objetivos, mas como algo que se deve perseguir com determinação e coragem. Finalmente, eu mencionaria também a perspectiva de “ir para as ruas”, fazer das ruas, das manifestações nas ruas, um fator de pressão e de poder.

Flávio Pacheco O escritor e jornalista Arthur Poerner (na foto, de camisa preta no centro; à esquerda, Aldo Arantes, de marrom, na retomada do terreno da UNE, na Praia do Flamengo, em 2007), autor de O poder jovem – livro lançado em 1968 e proibido pelo AI-5 junto com títulos de Che Guevara e Mao Tsé Tung – vê com emoção a retomada das ruas por estudantes:

– É emocionante para mim, e acredito que para toda a geração heroica de militantes dos anos 60, ver e ouvir nas ruas os clamores que, há menos de quatro décadas, nos levaram à prisão, à tortura, e, muitas vezes, à morte.

Poerner acredita que haja, nas manifestações atuais, uma influência do movimento zapatista mexicano, de 1994, a favor da participação direta da população na política. Ele lamenta que o movimento estudantil brasileiro tenha perdido força nas mobilizações populares, e atribui isso à consolidação da democracia nas últimas décadas:

– Desde o sucesso das passeatas do movimento Fora Collor, o Brasil vive um processo de ampliação e consolidação dos direitos democráticos que enfraqueceu o movimento estudantil nas ruas, embora ainda não se possa considerar que temos uma democracia plena, pelo que resta de preconceitos na sociedade.

 Arquivo Pessoal Aldo Arantes Aldo Arantes, que presidiu a União Nacional dos Estudantes (UNE) entre 1961 e 1962 (na foto, em sua posse), vê como um problema a falta de líderes no processo em curso, ao mesmo tempo em que pondera que “a liderança surge de um processo natural e não pode ser imposta”.

– O movimento precisa de um rumo político e lutar por objetivos concretos. Como a representação é multifacetada, é preciso ouvir as entidades organizadas, partidos, sindicatos, o próprio Movimento Passe Livre (MPL).

Personalidades de movimentos sociais e ex-líderes estudantis criticam os manifestantes que expulsaram militantes e membros de partidos e sindicatos nos protestos recentes. Um dos líderes estudantis da Passeata dos 100 Mil, o ex-deputado federal Vladimir Palmeira afirma que esta é “uma luta popular e, portanto, deve receber o apoio de quem quer que seja”.

Já o diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) Itamar Silva acredita que a agressão a manifestantes indica traços de intolerância do brasileiro:

– Isso é intolerância com o diferente. Por isso ainda encontramos dificuldade em avançar em temas no país como aborto, casamento homossexual. Esse é o momento de discutir e aprofundar o debate de quem somos e quais instituições podem nos representar. Devemos permitir uma ampla manifestação das diferenças e, nas diferenças, encontrar os pontos convergentes – afirma Itamar, para quem a democracia não se faz sem personalidades e a mediação de instituições. O próprio Ibase, fundado por Herbert de Souza, o Betinho, que mobilizou milhões de pessoas nos anos 90 para a campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida.

Especialistas acreditam que a falta de liderança nas manifestações dificulta as negociações com o governo. Para a questão dos transportes, o Movimento Passe Livre foi o representante popular nas reuniões com o poder público. Na última sexta-feira, 28, o governo federal anunciou a criação de um canal de diálogo com os jovens nas redes sociais. Itamar Silva, no entanto, acredita que falta transparência na escolha dos representantes da sociedade, principalmente no Rio:

– Não há espaço vazio na política. Nada neste meio é gratuito, ninguém faz algo de forma ingênua; eles (as autoridades) escolhem com quem conversar. No caso do Rio, a resposta do governador (Sérgio Cabral) foi tímida. Não houve uma iniciativa para convocar movimentos sociais – afirma Itamar, em referência ao movimento Ocupa Delfim, cujos integrantes foram detidos nesta terça, 2, após duas semanas acampados na porta do prédio de Cabral, no Leblon.

No início das manifestações, os movimentos sociais e estudantis estiveram praticamente ausentes das ruas. Na última quinta-feira, 27, porém, a UNE e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes) organizaram uma passeata de 2 mil pessoas em Brasília, pedindo mais investimentos na educação. A conselheira do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) Claude Fahd Hajjar defende a participação destas instituições nas manifestações e afirma que elas podem ajudar no diálogo entre governo e sociedade:

– Os movimentos sociais prestarão um enorme favor à nação se ajudarem a encontrar saídas para as intensas reivindicações dos jovens no Brasil. Queremos contribuir com nossa experiência das ruas e dos fóruns. Muitas vezes sentimos que os candidatos que apoiamos, antes tão próximos, ficam distantes. É quase impossível fazer chegar a nossa voz, o nosso parecer.

Protestos têm mais diferenças que semelhanças com atos do passado

Para Itamar Silva – que desde os anos 1970 participa dos movimentos sociais e foi presidente da Associação de Moradores do Morro Santa Marta, onde nasceu e ainda mora –, a variedade de representações se constitui na maior diferença entre as manifestações de antigamente e as de hoje. Ele também enfatiza que a união entre esquerda e direita nos protestos é algo inusitado:

– O movimento das Diretas Já tinha uma única bandeira. Tinha todo o espectro da esquerda e defendia a democracia. Hoje as manifestações têm demandas de mais direitos para as minorias, da reforma política, do esclarecimento de gastos na Copa e nas Olimpíadas, do investimento em saúde, educação e transporte. Essa multiplicidade de bandeiras é a grande diferença entre os movimentos. Pela primeira vez vejo pessoas de direita e esquerda, com bandeiras diferenciadas e percepções de mundo diferentes, protestando juntas.

 Arquivo Pessoal Arthur Poerner O jornalista Arthur Poerner (na foto, de preto, carregando o caixão do estudante Edson Luís, cujo assassinato deu origem aos protestos de 1968) vê semelhanças, principalmente na luta pela democracia e pelo governo com participação popular. Mas para ele, as manifestações atuais querem algo a mais:

– As palavras de ordem mantêm o ritmo, as rimas e os sons daqueles tempos sombrios. A mensagem mais generalizada e abrangente é a mesma: “o povo unido jamais será vencido”. A maior diferença é que a atual onda de passeatas e manifestações é por mais democracia. E a nossa era por democracia, simplesmente. Nós lutamos pelo mais essencial e elementar direito democrático: o de ir e vir. Isto é, a diferença está na quantidade, intensidade e qualidade de democracia reclamada.

Outra grande diferença, desta vez tecnológica, é a forma de mobilização popular. As redes sociais tomaram o lugar dos cartazes e do boca a boca, únicos recursos possíveis em meio à ditadura militar. Para Aldo Arantes, as redes sociais são mesmo a melhor forma de a juventude se unir:

– A internet é o progresso na mobilização. Se na época usávamos a UNE Volante, caravana que percorreu o país para promover debates de cunho político e cultural, hoje os estudantes devem encontrar as formas modernas.

Itamar Silva acredita que a internet, além de facilitar a mobilização, traz uma espécie de participação da sociedade na política:

– A panfletagem eletrônica é muito interessante. Ela mostra que há outra forma de fazer política. A internet tem um dinamismo incontrolável e dá autonomia a quem está na base social e quer uma política participativa.

Há pelo menos uma semelhança entre os protestos, apontam Poerner e Itamar: os jovens de hoje, como eles, também poderão contar que fizeram parte da história brasileira.

Os protestos vão acabar ou continuar?

Menos de um mês após os primeiros movimentos, algumas reivindicações foram atendidas, como a anulação do aumento das tarifas de transporte público nas maiores cidades do Brasil; a rejeição da PEC 37, que limita o poder do Ministério Público em investigações; e a aprovação, em primeira instância, dos projetos que tornam corrupção crime hediondo e destinam os royalties do petróleo para a educação e a saúde.

Para o ex-líder estudantil Vladimir Palmeira, após as medidas tomadas pelo governo, as manifestações perderão força:

– O movimento começou com a questão dos transportes e já houve uma satisfação geral. A Dilma já promoveu um diálogo direto. Agora o movimento tende a diminuir, pois já conquistou muitas coisas.

 Carlos Serra Já o professor Daniel Aarão acredita que ainda estamos no “fim do começo” de um processo social complexo que deverá se alongar no tempo, em uma “acirrada disputa entre forças políticas”:

– A direita e a grande mídia querem criar um movimento contra Dilma e o PT. Por outro lado, as máquinas burocráticas dos partidos e sindicatos de esquerda tentam sair da letargia, convocando manifestações como a greve geral marcada para 11 de julho. Entre estas forças, veremos até que ponto as manifestações conseguirão preservar sua autonomia, o que está diretamente relacionado à sua capacidade de elaborar e defender uma pauta política mínima, como fizeram no início com a reivindicação do passe livre.

Sobre a reforma política, principal aposta do governo para solucionar a insatisfação das ruas, Aldo Arantes enfatiza que deve considerar a opinião da sociedade, embora haja pressão de setores conservadores para que a discussão seja limitada aos governantes:

– As manifestações pedem reformas profundas e avanços corajosos do governo. Como a mãe de todas as reformas é a política, é fundamental ouvir a opinião pública sobre essa reforma. Embora o povo seja capaz de decidir sobre o rumo do país, neste momento, as elites defendem que a população não está preparada para discutir a reforma política – afirma Arantes, que hoje é diretor-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas e Defesa do Meio Ambiente (INMA).

Para Aarão Reis, o principal resultado das manifestações atuais, para além das conquistas, é a politização da sociedade brasileira, antes marcada por um “oba-oba”, principalmente com a realização de grandes eventos no país:

– A consequência mais importante foi a instauração de um amplo debate nacional, no qual todas as forças sociais e políticas têm se enfrentado, contribuindo para a necessária politização da sociedade. A um país dominado por um oba-oba, pelo marasmo, sucedeu-se outro, que discute os problemas cotidianos, que os relaciona com a falta de vontade dos governos em resolvê-los e com a crise de representatividade que marca a democracia brasileira. Houve aí uma grande mudança, reforçada pelas vitórias parciais, o que aumentou em muito a autoconfiança dos manifestantes.

Violência nas favelas mostra autoritarismo do Estado

 Arquivo PortalItamar Silva, morador da Favela Santa Marta e fundador do Grupo ECO, instituição social que ajuda quem vive no morro, ressalta que os problemas das favelas, em geral, não aparecem com força nas manifestações. Mas afirma que as comunidades “estão se mexendo” e isso está revelando violência extrema por parte da polícia, como no caso do Complexo da Maré, onde uma operação do Bope, no dia 24 de junho, deixou dez mortos:

– Não senti, por exemplo, a expressão do impacto das remoções de favelas por causa das Olimpíadas. O que aconteceu na Maré, porém, revela um Estado autoritário, violento. Isso acontece porque os movimentos sociais de cidadania estão se expressando. O povo da favela, quando vai à rua, tem tratamento diferenciado e há um consentimento da sociedade quanto a isso. De que cidadania estamos falando? Quem pode se expressar? Se estas questões não forem respondidas, vamos achar que há um corte de classe, em que uns podem protestar e outros não. Para uns, bala de borracha, para outros, bala de metal.