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Rio de Janeiro, 25 de julho de 2024


Esporte

Doping esportivo cresce 126% com a pressão por resultados

Leandro Garrido* - Da sala de aula

27/06/2013

 Arte: Nicolau Galvão

O escândalo de doping envolvendo o multicampeão de ciclismo Lance Armstrong reacendeu o debate a respeito do combate ao uso de substâncias ilegais no esporte. Nos últimos cinco anos, a Agência Mundial de Antidoping (sigla em inglês: WADA) registrou um aumento de 126% no número de atletas que se envolveram com dopagem (ver gráfico abaixo). De acordo com a agência responsável pela administração da base de dados oficial, a quantidade de esportistas flagrados no exame, que era de 333 em 2006, passou para 337 em 2007, 482 em 2008, 553 em 2009, chegou a 738 em 2010 e fechou o ano de 2011 com 754 novos casos. Os números deste ano ainda não foram finalizados, mas, Londres 2012 já apresenta mais ocorrências de doping que Pequim 2008, antes mesmo de todos os exames serem concluídos.

Em um cenário onde cada milésimo de segundo é decisivo, os dados refletem um dos períodos do esporte que mais têm se exigido dos atletas. O professor de Educação Física da UFRJ Marcos Andrade afirmou que a preparação física evoluiu e, com ela, o desempenho nas provas e a pressão sobre os competidores. Fã assumido de Armstrong, ele também lamentou a fraude do ciclista:

– Muita coisa mudou. Hoje em dia, os treinamentos procuram sempre atingir o limite do esportista. O problema é que nem todos suportam o ritmo do dia a dia. Por conta disso, alguns usam produtos para obter o melhor resultado possível. Alguns são proibidos, outros não, e outros sequer são detectados nos exames convencionais, como aconteceu com o Lance – lembra.

O ciclismo é a terceira modalidade com maior número de casos na história, de acordo com a antidoping database, com 397 no total.  Perde apenas para levantamento de peso, com 454 atletas flagrados no exame, e atletismo, com 663. Sete vezes campeão da Volta da França, Lance Armstrong foi banido do esporte e perdeu todos os títulos que conquistou desde agosto de 1998. Em comunicado oficial, a Agência Antidoping dos Estados Unidos (sigla em inglês: Usada) acusou o americano de usar a substância EPO (Erythropoietina), esteróides e transfusões de sangue a fim de melhorar seu desempenho nas competições. Primeiramente, não foi detectado nada de irregular nos exames feitos pelo americano. Porém, após confissões de outros atletas sobre o uso do EPO e seus efeitos, a investigação se estendeu até Armstrong, e se encerrou com a confirmação de seu banimento do mundo esportivo.

Embora o fato da base de dados ter registrado aumento considerável no número de casos de doping nos últimos anos, o mesmo não pode ser constatado quanto à punição máxima que um esportista pode receber. De 2006 a 2011, 73 atletas foram proibidos de participar de competições pelo resto da vida (ver gráfico abaixo). Número baixo e que não apresentou crescimento constante nos anos analisados. Entre os punidos, estão os brasileiros Marcelo Moreira, do arremessamento de peso, e Rebecca Gusmão, da natação.

Secretário de Esporte do Rio de Janeiro em 2010, Rogério Pimenta explica que o nível das punições impostas pela WADA varia de acordo com a substância utilizada. Caso o atleta seja reincidente, ou seja, já tenha sido flagrado em exames anteriores, ele sofre suspensão vitalícia. Pimenta aponta alguns fatores que colaboram para o avanço do doping:

 – Há uma enorme pressão para obtenção de resultados expressivos. Tais resultados implicam maior possibilidade de patrocínios, de participar das melhores competições, de maiores prêmios financeiros e outros suportes importantes. Várias correntes consideram essa busca desenfreada por resultados, que geram mais recursos aos atletas, um dos principais responsáveis pelo aumento do doping.

Pimenta lembra que os ídolos do esporte têm papel fundamental no processo educacional de jovens. Escândalos como o de Armstrong afetam a imagem pessoal do esportista e de pessoas que nele se inspiram. Ao mesmo tempo, o episódio pode possibilitar a motivação para novas conquistas. Independente do papel do atleta para prevenir o doping e o aumento de casos, o ex-secretário também ressalta a participação do Estado no combate:

– O Estado deve agir no processo de formação dos atletas: investimento qualificado que permita preparação atletas desde a base até o alto rendimento. Esse processo deve considerar não apenas os aspectos técnicos, atléticos, científicos e nutricionais, mas aspectos educacionais e de valores para que o atleta tenha condições de resistir às pressões sabendo que estará assistido (pelo Estado) se os resultados não acontecerem. Sua formação não o isolará da sociedade caso não venha a se tornar um atleta de alto rendimento. Estará apto a dar prosseguimento em sua vida profissional.

Uma vez utilizados, produtos ilegais não podem se tornar rotina na realidade de atletas. Assim acredita a nutricionista Sônia Modesto. Para ela, "o perigo do doping é o esportista acreditar que nunca vai ser flagrado no exame ou punido por conta de uma ou duas doses a mais do que o permitido".

– O maior problema é a informação sobre o que pode e o que não pode. Existem muitos produtos que são saudáveis e permitidos no âmbito esportivo, mas apenas se forem consumidos em doses calculadas – afirma.

Texto produzido para a disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso, ministrada pela professora Carla Rodrigues.