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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


Crítica de Cinema

Rito de passagem leva a lugares incomuns nas histórias infantis

Miguel Pereira*

17/06/2013

 Divulgação

Apresentado, em sessão de pré-estréia, na mostra O Jovem no Cinema: do rebelde sem causa às redes sociais, que fez parte da exposição sobre juventude realizada na PUC-Rio, de 9 a 14 de junho, o filme Corda bamba, de Eduardo Goldenstein, narra as aventuras de Maria, uma menina equilibrista que vive os dramas da passagem da infância para a adolescência. O lançamento comercial está previsto para o próximo mês. O filme tem por base o livro de Lygia Bojunga, autora premiada da nossa literatura infantil. Não é uma simples transposição de um texto literário. Cria o espaço cênico a partir de uma interpretação que se abre a novos significados. Um exemplo claro disso é a interessantíssima sequência da velha contadora de histórias onde o sentimento infantil está inserido numa moral mais ampla. Ela representa uma espécie de metáfora da voracidade dos sistemas de poder e suas intrincadas artimanhas.

Corda bamba tem ainda procedimentos narrativos que conduzem o espectador para lugares pouco usuais nas histórias infantis. As portas e frestas, assim como as janelas e corredores, além do circo, têm funções não apenas decorativas e reveladoras do sentido tradicional existente em muitos filmes do gênero, mas se abrem para um contexto dramático do íntimo e do pessoal da personagem central. É essa forma que dá sentido ao final do filme, expresso na bela carta de Maria para a mulher barbada, sua companheira do circo.

É um filme que tem um lugar especial na cinematografia brasileira. Um exemplo raro do cinema infanto-juvenil realizado com habilidade e talento. Tem as características de uma obra visceral. Eduardo deixa clara a marca da sua paixão por esse trabalho. Cada cena é iluminada pelo cuidado artesanal e por uma anima pulsante. Atinge seus objetivos de dialogar com o público. No início, o espectador pensa já ter visto algumas daquelas imagens. Aos poucos, acaba seduzido pela forma de apresentação e pelo ritmo, sempre surpreendente, que vai agenciando a sua atenção. Sem se dar conta, a narrativa o encanta e seduz.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.