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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


País

Demissões abalam mercado nacional de comunicação

Rodrigo Serpellone - Do Portal

14/06/2013

 Mauro Pimentel

Recentes demissões coletivas em veículos de comunicação como os jornais Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo e Valor Econômico; o Grupo Abril; as TVs Record e RedeTV! e portais online como o Terra, onde 28 foram dispensados nesta quinta-feira, preocupam desde profissionais mais experientes até os recém-formados. Especialistas divergem quanto à causa destes acontecimentos: enquanto uns creem que a crise do capitalismo chegou ao jornalismo, outros apontam a ganância de empresários deste setor. Levantamento do site Comunique-se soma 1.200 demissões de jornalistas somente em 2012, e a expectativa este ano é de um número ainda maior.

A Folha de S.Paulo anunciou uma reestruturação em que cerca de 20 jornalistas foram demitidos. A direção comunicou à ombudsman, Suzana Singer, que “as redações do futuro deverão ser cada vez mais enxutas, assim como o produto impresso”. Entre os demitidos estão nomes como Andreza Matais, ganhadora do Prêmio Esso de Jornalismo 2011. Suzana Singer, em artigo na Folha, resumiu que, “aos que acreditam que o jornalismo de qualidade faz bem à democracia, resta torcer para que a travessia dê certo”.

No Estado de S. Paulo, 40 jornalistas foram demitidos após o fim do suplemento literário Sabático. Em nota oficial interna, divulgada pelo site Blue Bus, a direção do jornal afirma que ele será reduzido a três cadernos e um suplemento. Confira parte da nota do diário paulista: “Pesquisas comprovaram que os leitores querem mais conveniência e eficiência de leitura, mais apostas de edição, um jornal mais compacto – principalmente nos dias úteis. Tudo isso sem perder o aprofundamento e o poder de análise que caracterizam o jornalismo do Estado”.

No jornal Valor Econômico, as demissões chegaram a 50, sendo 30 jornalistas, o que foi chamado de “ajuste geral” pelo presidente do grupo, Alexandre Caldini Neto. Entre os demitidos havia muitos jornalistas experientes, como o repórter especial Paulo Totti, premiado com o Esso, com passagem por diversas redações do país ao longo de 60 anos de carreira jornalística.

Mas uma das maiores demissões em massa ocorreu na filial carioca da TV Record: somente no último dia 3 de junho o Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro recebeu 400 pedidos de rescisão de contrato da emissora, sendo que, destes, cerca de 170 são jornalistas e radialistas. De acordo com o presidente do sindicato, Miguell Walther Costa, a entidade suspendeu as homologações e acionou, junto com o Sindicato dos Jornalistas do Rio, o Ministério Público do Trabalho (MPT) para pedir esclarecimento sobre as demissões. Entre outubro de 2012 e maio de 2013, a Record já havia demitido paulatinamente em torno de 260 funcionários.

Miguell Costa espera que a denúncia do sindicato contra a emissora sirva para impedir que os “passaralhos”, como são chamados pelos jornalistas, se espalhem por todo o país:

– Não podemos concordar com isso em um momento de crescimento da economia brasileira. Os empresários estão na contramão da história. Ano passado, a Record aumentou seu faturamento.

Após as demissões, surgiu o boato de que a emissora encerraria as atividades do seu centro de produção de novelas, o RecNov, pois não haveria contingente suficiente para gravar as novelas. Em nota oficial, a empresa desmentiu: “A Record informa que o RecNov permanece como seu Centro de Produção de Teledramaturgia, no Rio de Janeiro, com a previsão de produzir pelo menos um horário de novelas para a grade de programação. (...) Esta informação é necessária para desmentir boatos que, seguidamente, atingem a Record.”

Arquivo  Na Abril, na semana passada, sete diretores de núcleo foram demitidos e o grupo anunciou mudanças em sua estrutura, ao criar cinco unidades de negócios (UN): UN Veja, UN Exame, UN Abril Segmentadas, UN Digitais e UN Assinaturas. Setenta funcionários da empresa já foram dispensados e, segundo o jornal Estado de S. Paulo,  cerca de dez revistas do grupo deixarão de circular. As mudanças ocorrem logo após a morte de Roberto Civita, diretor e presidente do conselho administrativo da Abril, no dia 26 de maio.

A Abril divulgou nota oficial, assinada pela diretora-geral da MTV Brasil, Helena Bagnoli, desmentindo os boatos de uma suposta venda ou encerramento da emissora, franquia da americana aberta no país pelo Grupo Abril em 1990: “Estamos trabalhando no planejamento de 2013 e fechando projetos e parcerias. Estamos fazendo um trabalho incrível, nossa audiência vem aumentando, nossos programas estão cada dia melhores e bem vistos, estamos fechando um casting sensacional para o VMB (Video Music Brasil, premiação da emissora para músicos brasileiros), que será ainda mais incrível do que foi o ano passado”.

Para o diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro Bruno Cruz, a única razão para as demissões seria a busca de lucro por parte dos empresários:

– Não vejo motivos para tantas demissões, a não ser que as empresas queiram aumentar o lucro. No mundo atual, o negócio tem que dar cada vez mais dinheiro, como uma empresa de petróleo. Talvez seja por pressão de investidores; não sei qual é a meta de lucro deles.

O subeditor do portal Comunique-se Anderson Scardoelli relaciona as demissões nos veículos impressos à perda de receita publicitária:

– A causa de tantas demissões tem um vilão principal: os anunciantes. Recentemente, a Folha demitiu jornalistas e o Sérgio Dávila (editor executivo) alegou “o fraco desempenho da economia e seu reflexo na publicidade”. A publicidade perdeu força no impresso, e ao mesmo tempo ainda não entrou com peso nos veículos online. Com menos anunciantes, infelizmente, os veículos têm que enxugar gastos.

 Arquivo Portal Na visão do jornalista e professor Leonel Aguiar, coordenador do curso de Comunicação Social da PUC-Rio, porém, trata-se de uma “crise mascarada”, em que a entrada da comunicação na internet e o redirecionamento da verba publicitária para outras mídias não passam de falsas desculpas por parte dos empresários:

A web ainda não se concretizou como rentável, e as empresas são resistentes a perceber suas transformações. Elas ainda tateiam no escuro e não promoveram essa adequação. A segunda desculpa paternalista é o redirecionamento da verba publicitária do jornal impresso para a TV. Mas isso também não é verdade, pois há veículos de televisão que entraram nessa crise, conforme mostram os dados alarmantes.

Aguiar chama as demissões de “banho de sangue”, e identifica como grande vítima deste processo o “reportariado” – em referência ao proletariado de Karl Marx. De acordo com o professor, a figura do repórter está sendo substituída pelo “jornalista sentado”, que apura, escreve e edita as reportagens sem sair da redação. Aguiar aponta uma exploração deste profissional, em razão das seguidas demissões, somadas à produção para novas mídias:

– As pessoas passaram a trabalhar de 12 a 14 horas por dia, por acumular diversas funções no jornalismo. O repórter tem que pautar, escrever e editar, além de publicar a reportagem em diversas mídias. Isso é uma exploração inadmissível do trabalho do jornalista.

O subeditor do portal Comunique-se Anderson Scardoelli, no entanto, não vê relação direta entre o acúmulo de funções e a perda de excelência:

– A multifunção dos jornalistas serve para mostrar que o mercado enfrenta o enxugamento nas redações, mas não relaciono isso a uma queda de qualidade. Não vejo problemas em aproveitar ao máximo um profissional que seja bom em texto e imagem, por exemplo.

Seja como for, redações menores significam mais trabalho para quem não foi demitido. Segundo Bruno Cruz, o aumento da pressão e a queda nas condições de trabalho causam perda de qualidade da informação para o consumidor. O professor Leonel Aguiar concorda: “Fica mais difícil para o jornalista produzir bom jornalismo e defender os valores da profissão: qualidade, pluralidade e democracia, no sentido da informação voltada para o interesse público”.

O futuro, segundo os especialistas, não será de prosperidade para o jornalismo brasileiro. Scardoelli vê uma renovação de jornalistas, tecnologias e linguagens, porém, acredita que não haverá vagas para todos, “como já não está tendo”. Bruno Cruz, do Sindicato dos Jornalistas, no entanto, não vê falta de vagas para os profissionais da área, mas uma desvalorização do jornalista: Arquivo Portal

– As pessoas demitidas conseguem se recolocar no mercado em condições inferiores. Acabam até conseguindo emprego, mas com menos direitos de plano de saúde, seguros, vale alimentação e transporte, além de salários baixos.

Miguell Costa enxerga uma luz no fim do túnel e acredita na abertura de novas vagas nesse mercado. Para isso, no entanto, seria necessária uma reformulação do poder empresarial jornalístico:

– Há a necessidade de mudar a lei que regulamenta as comunicações no Brasil. Estamos vivendo um novo tempo nas tecnologias. Temos que buscar um novo marco regulatório que abra o mercado jornalístico para outras empresas. Hoje existe um monopólio. A comunicação brasileira está na mão de poucas famílias.

Leia também a reportagem Cidadão repórter: o novo porta-voz da informação, sobre o crescimento do jornalismo participativo.

Demissões em massa:

Na Abril especula-se que mil pessoas serão demitidas, sendo 300 da MTV. Além disso, fala-se na extinção de 11 revistas da empresa, o que caracterizaria uma migração do grupo de jornalismo para o setor educacional.

Folha: especula-se que 10% dos jornalistas foram demitidos, incluindo vencedores do Prêmio Esso e outros que estavam há muito tempo no jornal.

No Estadão especula-se entre 20 e 50 demissões, além da reformulação do jornal.

Na Record, cerca de 400 funcionários foram demitidos. Houve, inclusive, dificuldades de gravar as novelas do canal, pois não havia produtores de estúdio. O RecNov, no entanto, vai ser mantido.

No Valor houve cerca de 50 demissões, sendo 30 jornalistas.

Na ESPN, especula-se que serão feitas de 300 a 400 demissões, o que representa cerca de 5% do efetivo total.

Outros exemplos do ano passado são o fim do Jornal da Tarde e os salários atrasados e demissões em massa da RedeTV. A Ejesa, que também fechou um jornal, o esportivo Marca, demitiu 70 funcionários do jornal O Dia no fim de 2012.

O Comunique-se levantou que mais de 1.200 jornalistas foram demitidos em 2012, sendo um terço da RedeTV.