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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


País

Cidadão-repórter, o novo porta-voz da informação

Mayra Nolasco* - Do Portal

14/06/2013

 Reprodução

Há 12 anos o site coreano OhMyNews dava o ponta pé inicial no que se conhece como jornalismo cidadão, ou jornalismo participativo. A crescente colaboração do leitor na produção de notícias nos meios digitais surgiu como uma tendência no modelo jornalístico americano. Também adotada no Brasil, a prática divide opiniões e abre debates sobre a integração entre grande mídia, jornalistas e cidadãos comuns. Provando que esse tipo de jornalismo conquistou o leitor, o Ibope 2012 mostra que 70% das pessoas que leem as versões on-line de jornais já postam ou produzem conteúdo na internet.

Pioneiro, o projeto de fotojornalismo cidadão FotoRepórter, do jornal O Estado de S. Paulo, foi criado em 2005 com o objetivo de receber contribuições de imagens para publicações do grupo. Como retribuição, o leitor pode ser remunerado pelo material divulgado. Nos primeiros cinco meses de projeto, 11.019 fotos foram recebidas e 1.521 publicadas. O sucesso da ideia culminou, pouco tempo depois, no Eu-Repórter, a plataforma on-line do jornal O Globo, que aceita texto, imagem, vídeo ou áudio, mas sem pagar pela participação do autor.

O jornalista Chico Otávio, repórter do Globo e professor da PUC-Rio, faz um balanço positivo do jornalismo comunitário nos jornais:

– Essa novidade foi positiva para as redações porque aproximou e tornou o leitor uma figura ativa. No passado, essa relação era muito complexa. O jornalismo participativo democratiza a informação, isso é incontestável. O público se torna um protagonista da produção da notícia, algo inédito para a imprensa mundial.

Hoje, o tema que ganha mais contribuições dos leitores do Eu-repórter é a desordem urbana, e o grande foco de interesse está na cidade do Rio de Janeiro. Chico Otávio chama a atenção para este fato.

 – O que realmente me preocupa é a temática. A grande maioria das contribuições diz respeito ao chamado jornalismo hiperlocal (espaço de vida do leitor), nada além disso. Há pouca chance de essa realidade mudar, é um limite técnico do leitor. Ele não tem condição, por exemplo, de enviar uma notícia internacional que não seja meramente opinativa.

A qualificação do leitor participativo é a grande crítica da professora de Comunicação Social Sylvia Moretzsohn, da Universidade Federal Fluminense. No texto Sobre alguns mitos do jornalismo cidadão, a autora fala sobre a transformação, provocada pela internet, dos leitores em jornalistas em potencial. Para ela, essa mudança abandona o referencial de credibilidade de um veículo de informação e dissemina qualquer tipo de notícia em um espaço onde não há garantias da identidade de quem informa.

O fotojornalista Marcelo Carnaval, com 22 anos de carreira, fez parte da chegada da era digital no jornalismo e vê de perto a participação do leitor no jornal O Globo. A manipulação de imagens, um dos pontos perigosos desse meio, não é preocupação para ele, assim como a desqualificação do fotógrafo.

– Cada vez que os leitores mandam fotos, as pessoas veem mais a necessidade do repórter fotográfico. Os leitores mandam o que capturaram naquele momento, quase de imediato. A coisa é tão rústica que não sofre manipulação. Quando a foto é muito boa, pode desconfiar.

Arquivo  A TV Globo trabalha com um jornalismo participativo diferente dos jornais on-line já citados. O programa Parceiro RJ, quadro do telejornal RJ TV, convoca moradores do Rio a mostrar, em vídeo, os problemas dos locais onde vivem. Os participantes não precisam ser jornalistas, mas passam por uma prova de seleção. A emissora oferece oficinas e palestras, e o apoio de profissionais. Os “parceiros” são contratados da Globo e têm o trabalho remunerado, além da chance de crescimento na empresa.

O pesquisador Carlos Castilho defende a ideia de que, em vez de discutir quem pode ou não ser jornalista, o certo seria a preocupação com a captura do conhecimento tácito (sabedoria popular) existente nas comunidades urbanas e rurais.

– Não existe uma ética própria para o jornalista. A ética do jornalista é a mesma do cidadão comum, é igual para todo mundo. Esse novo modelo de jornalismo não deve se prestar a ser uma máquina de produzir intrigas e inverdades – enfatiza Chico Otávio.

* Reportagem produzida para a disciplina Laboratório de Jornalismo, da professora Carla Rodrigues.