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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


País

Segmentação e análise: legados de Civita

Brenda Baez e João Pedroso de Campos* - Do Portal

28/05/2013

 Reprodução Veja

O aumento do consumo de informações em mídias eletrônicas – aproximadamente dois bilhões de pessoas no mundo consultam plataformas digitais diariamente – põe em xeque o futuro do jornalismo impresso. Por outro lado, o legado do presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril, Roberto Civita, que morreu domingo passado, aos 76 anos, aponta uma das saídas possíveis à sobrevivência das publicações de papel, em especial das revistas: segmentação e análises profundas. Criador de revistas como Veja, Exame, Quatro Rodas e Playboy, Civita discutiu, principalmente nas páginas de Veja, a segunda revista de maior circulação no mundo, o que via do Brasil e da atuação jornalística no país.

Para o também jornalista Lula Branco Martins, professor da disciplina Comunicação Impressa no Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio e colunista da Veja Rio, a segmentação e as reportagens mais profundas dispensam, nas revistas, mudanças tão significativas quanto as em curso nos jornais, que, para evitar a concorrência com a velocidade de publicação da internet – inclusive a própria edição eletrônica – vêm trocando o tradicional perfil noticioso por abordagens além da notícia.

– Hoje há revista sobre tudo. Sobre avião, diabetes, comida vegetariana, e várias delas são da Abril. Os jornais podem ter uma vida útil menor do que as revistas, que resumem a semana e são bússolas de orientação ao leitor. A reinvenção da mídia impressa deve ser no jornal, que deve deixar de ser noticioso para ser mais profundo e analítico. O Globo, por exemplo, tem o aplicativo Globo a Mais e uma redação mais integrada com rádio e o portal digital. As revistas dispensam grandes mudanças. Elas falam, cada vez mais, com públicos específicos.

A produção deste conteúdo aprofundado exige, naturalmente, uma mão de obra qualificada. Para Roberto Civita, tais profissionais não precisavam ser necessariamente jornalistas. Ele argumentava que o gabarito profissional depende, sobretudo, de uma boa formação educacional desde cedo e de muita leitura. O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, enxerga uma contradição:

– Ele (Civita) era formado em jornalismo, fez pós-graduação na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e sabia da importância do embasamento técnico, cultural e ético para uma atividade que diz respeito à sociedade.

Lula também acredita na qualificação específica para se obter o garimpo, principalmente à mídia impressa, de reportagens detalhadas, contextualizadoras, que produzam nitidez diante do bombardeio de informações imediatistas e superficiais. Lembra que o leitor é um termômetro deste trabalho, que talvez se torne ainda mais necessário frente à revolução digital.  Nicolau Galvão  

– A universidade e a formação específicas ajudam a formar esse profissional comprometido em apurar e transmitir informações aprofundadas, contextualizadas e úteis ao bem comum. Mas a qualificação exige também bons relacionamentos, vivência de mundo e muita leitura – completa.

Uma semana após a morte de Ruy Mesquita, diretor do Estado de S. Paulo, Maurício Azêdo ressalta que "a segunda grande perda da imprensa em um curto período privou o jornalismo brasileiro de dois dos seus mais destacados militantes". Azêdo ainda destaca a valorização profissional empreendida por Civita:

– À frente da Abril, ele implantou uma política de salários que favoreceu a valorização do jornalista para exercer a profissão em um emprego só, sem ter que fazer outras funções para sobreviver.  

Lula acrescenta que Civita contribuiu para a abertura política e a aproximação do jornalismo brasileiro à democracia:

– Apesar de críticas à Veja, Civita deixa o exemplo de um modo de se fazer revista. Ele abriu muito o jornalismo à democracia no Brasil. Tem um cartaz aqui na minha frente [na redação da Veja Rio] assinado pelo Roberto Civita: “A Abril está empenhada em contribuir para a difusão de informação, cultura e entretenimento, para o progresso da educação, a melhoria da qualidade de vida, o desenvolvimento da livre iniciativa e o fortalecimento das instituições democráticas no país”. Isso foi escrito em 1980, mas ainda hoje, com todas as mudanças, reflete o que deve ser o bom jornalismo.

Trajetória

Nascido em 9 de agosto de 1936, o empresário de origem italiana Roberto Civita era responsável pelo Grupo Abril, um dos maiores conglomerados de mídia e educação da América Latina, fundado por seu pai, Victor Civita (1907-1990), em 1950. O escritório no centro de São Paulo, que teve como primeira publicação O Pato Donald, hoje reúne 9,5 mil funcionários, publica 52 revistas para 4,7 milhões de assinantes, incluindo Veja – a segunda maior revista de informação semanal do mundo e 80 sites com 59 milhões de internautas.

Com 2 anos e meio de idade, Civita deixou a Itália e foi morar em Nova York, onde a família ficou por quase 10 anos antes de vir para o Brasil. Já em São Paulo, formou-se na escola americana Graded. Estudou física nuclear em Rice, no Texas, mas saiu antes de concluir a faculdade que cursava como bolsista. Formou-se em jornalismo na Universidade da Pensilvânia e em economia pela Wharton School, da mesma universidade. Mais tarde, fez pós-graduação em sociologia, pela Universidade Columbia.

Quando terminou a formação acadêmica, foi selecionado pela revista americana Time, na qual estagiou por um ano e meio, passando por todos os departamentos. Em 1958, Roberto Civita voltou ao Brasil com a proposta de criação da revistas Veja, inspirada na Times; Exame, seguindo o modelo da Forbes, e da Playboy. Em 1990, com a morte de seu pai, Roberto assumiu a presidência do grupo Abril, dando início a um período de diversificação dos negócios da companhia, com o objetivo de atuar nas áreas de mídia, educação, distribuição, gráfica e logística.

Sob seu comando, a Abril investiu em televisão e internet. Lançou a TVA e a MTV, considerado o primeiro canal de TV segmentado no Brasil. Na internet, a iniciativa deu-se em 1996, a partir do Brasil Online, BOL, mais tarde incorporado à UOL. Em 1999, foi lançado o Ajato, um provedor de internet em banda larga. Na área educação, esão integradas as editoras Ática e Scipione.

O grupo é composto, atualmente, pela Abril S.A, responsável pelas áreas de mídia, e pela Abril Educação, da qual também faz parte a Fundação Victor Civita, criada em 1985 com o objetivo de fortalecer a educação de base no Brasil. Roberto Civita foi editor-chefe da Veja desde o lançamento da revista, em 1968.

* Colaboraram Renan Rodrigues e Rodrigo Serpellone