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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


Crítica de Cinema

Em 'Depois de maio', Assayas narra tempo revisitado

Miguel Pereira* - Do Portal

27/05/2013

 Divulgação

Os movimentos estudantis que agitaram o mundo em 1968, simbolizados pelos acontecimentos de Paris, vistos 45 anos depois, parecem histórias ingênuas, conduzidas por uma polarização ideológica fragmentada que foi vencida pelo sistema do bem estar que a Europa foi construindo nas décadas seguintes. Naquele momento, porém, as consequências foram extremamente drásticas. Grupos radicais se constituíram, realizando ações de guerrilha urbana em nome da uma revolução comunista. As Brigadas Vermelhas na Itália e o grupo alemão Baader-Meinhof saíram desse caldo cultural e político. A França controlou, em parte, os movimentos estudantis, mas as suas universidades fervilhavam e produziam uma espécie de central de ideias que alimentava as cabeças juvenis mundiais. Já as histórias singulares se perderam ou foram reelaboradas pelas diferentes formas de representação artística, incluído o filme Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci. O cineasta francês Oliver Assayas retoma algumas dessas histórias e as narra em Depois de maio, seu último filme.

O seu protagonista é um jovem secundarista com pretensões a se tornar um artista. Ao mesmo tempo em que vive o cotidiano da escola, participa ativamente do movimento político. Aos poucos as células políticas radicalizam e o jovem Gilles reparte sua ação com o despertar de uma sexualidade cada vez mais percebida e vivida com os primeiros amores juvenis. Por esse caminho o filme segue, abrindo novas vertentes com personagens que espelham de forma bastante expressiva aqueles anos de vivências e experimentações políticas e existenciais. O retrato que surge desse painel tem a virtude de uma composição ampla daquela geração com algumas pérolas de encenações fílmicas, como a da sessão de um cineclube operário na Itália. Nessa trajetória, o cineasta destaca as culturas hippie, oriental, visual, musical, enfim, as atitudes de afirmação das revoltas que motivaram a juventude daquele período. Esse conjunto caracteriza bem a diversidade dos rompimentos que geração de 68 foi impondo à vida social em processo de grandes transformações. Os valores tradicionais foram, pouco a pouco, se diluindo e criando um novo ambiente em que o bem-estar superou as condições ideológicas que motivaram aquele período que tinha por base a chamada Guerra Fria.

Olivier Assayas tem o mérito de criar uma espécie de caldeirão cultural desse tempo vivido. Por outro lado, seu filme formula também algumas linhas que nos ajudam a entender melhor o passado e mesmo o sentido dos dias atuais. De algum modo, maio de 68 ainda reverbera e nos instiga a entender a juventude e suas angústias e propostas. Embora a narrativa de Depois de maio tenha um ritmo irregular, se excedendo em alguns momentos e sendo apressada em outros, o filme de Assayas busca uma verdade que ainda está sob questionamento e pesquisa. O que, sem dúvida, é uma virtude do cineasta.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.