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Rio de Janeiro, 20 de junho de 2024


Cultura

Meu amigo, meu irmão

Rodrigo Gomes - Da sala de aula

13/08/2008

No início de 1958, Erasmo Esteves e Roberto Carlos estavam na flor da idade. Ambos tinham 17 anos. A carreira de Roberto, o “Elvis Presley brasileiro”, começava a decolar. Erasmo adorava assistir, toda terça-feira, às 12h45m, aos shows de Roberto Carlos no Clube do Rock, um quadro do programa Meio-dia, da TV Tupi. Os dois se conheciam de vista desde o fim de 1957, quando Roberto passou a freqüentar o Bar Divino, na esquina das Ruas do Matoso e Haddock Lobo, na Tijuca. Mas não chegaram a se falar. O destino quis que a amizade da dupla nascesse no pomposo ano de 1958.

Logo no início do ano, Erasmo Esteves (que só adotou o “Carlos” como nome artístico no início dos anos 1960) foi estudar datilografia no Colégio Ultra, na Tijuca, por insistência da mãe, dona Maria Diva Esteves. Nos corredores, esbarrou algumas vezes com Roberto Carlos, que cursava o supletivo. Até então, os dois não haviam sido apresentados formalmente. O cumprimento começava e terminava num breve e educado “oi”. Mas já era alguma coisa, principalmente para Erasmo.

Em abril de 1958, o cantor norte-americano Bill Halley veio fazer duas apresentações no Brasil: uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. Carlos Imperial, produtor do Clube do Rock, ficou com a missão de organizar a abertura do show carioca, que seria no Maracanãzinho, inaugurado quatro anos antes. Era a chance que os cantores e dançarinos do programa, entre eles Roberto Carlos, esperavam há tanto tempo. Imaginando que empresários norte-americanos iriam ao show, Roberto se preparou com antecedência. E decidiu inovar. Sabendo que teria a oportunidade de cantar apenas uma música, optou por uma canção nova do repertório de Elvis Presley. Em vez de Tutti-frutti ou Jailhouse rock, a aposta era Hound dog. Mas o nosso Elvis não tinha a letra da música. Foi quando os amigos Arlênio Lívio e Édson Trindade decidiram levá-lo à casa de Erasmo, um rapaz da Tijuca que sabia tudo de Elvis Presley.

- Erasmo logo abriu um caderno e pegou a letra da música, mostrando que de fato colecionava tudo sobre o rei do rock. Ele tinha um violão de cravelha de madeira, presente de sua avó, que até então nunca tinha dedilhado. Roberto pegou o violão, afinou o instrumento e começou ali mesmo a ensaiar a música. Erasmo ficou maravilhado, conta o jornalista e escrito Paulo César de Araújo, autor do livro Roberto Carlos em detalhes.

Já no fim do encontro, com a letra de Hound dog finalmente em mãos, Roberto convidou Erasmo a “dar uma passada” na TV Tupi. O convite foi imediatamente aceito. “Ele mandou aparecer, aí eu comecei a aparecer, né? E fui conhecendo a rapaziada toda”, conta Erasmo em seu site oficial.

Para Paulo César de Araújo, o encontro com Roberto naquela tarde foi decisivo para a carreira de Erasmo, que, na época, não sabia cantar nem tocar violão.

- Erasmo era apenas mais um garoto sem pai, sem estudo, sem profissão, enfim, sem maiores perspectivas na vida. Foi Roberto quem o colocou naquele mundo que ele acompanhava à distância. O próprio Erasmo disse certa vez: “Roberto foi o elo entre a minha vida de incertezas e a minha vida concreta”, lembra o jornalista.

Erasmo começou no Clube do Rock fazendo bicos. Comprava sanduíches para os integrantes da produção e, mais tarde, virou contra-regra. Pouco depois conseguiu o que queria: apresentar-se como cantor de rock, através do grupo Snakes. Erasmo formou a banda com os remanescentes dos Sputniks, que pararam de tocar depois de uma briga entre dois integrantes: Roberto Carlos e Tim Maia.

As afinidades entre Roberto e Erasmo eram muitas. Os dois adoravam James Dean, Marlon Brando e Marilyn Monroe, torciam pelo mesmo time, o Vasco da Gama, gostavam das mesmas revistas em quadrinhos, dos mesmos carros e tiveram Bob Nelson como o primeiro ídolo da infância. Mas, ao contrário de outras duplas consagradas da música, como Tom Jobim & Vinícius de Moraes, e John Lennon & Paul McCartney, a parceria musical entre Roberto e Erasmo demorou a acontecer. A primeira composição da dupla foi feita em 1963: Parei na contramão.

- Isto aconteceu porque, diferentemente de Roberto Carlos, na época um cantor quase profissional, Erasmo era apenas um ouvinte de música. Perto dele, Roberto até poderia se considerar um veterano da música. Nesse sentido posso dizer que Erasmo correu atrás de Roberto Carlos, afirma Paulo César de Araújo.

Quando a bola rolou na Copa da Suécia, em junho, a amizade entre Roberto e Erasmo não parava de crescer. Os dois, assim como os demais brasileiros, acompanharam a transmissão dos jogos pelo rádio. “Só não vibraram mais porque nem Pelé nem Garrincha jogavam no time deles”, brinca o jornalista, que conta, ainda, como os dois reagiram ao surgimento da bossa nova, no início de agosto.

- Se aquela gravação de Chega de saudade, de João Gilberto, soa moderna até hoje, imagine para um garoto que morava em Lins de Vasconcelos, no final dos anos 50. Erasmo também teve a sensibilidade musical aguçada para perceber a grandeza da arte de João Gilberto, diz.

Segundo Paulo César, as dezenas de sucessos da dupla, como As curvas da estrada de Santos, Detalhes e Café da manhã, mostram que Roberto e Erasmo formam a mais duradoura e bem-sucedida parceria da música brasileira. “Nenhuma outra dupla durou tanto tempo e produziu tantos sucessos populares”, afirma.