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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


Crítica de Cinema

Rito de iniciação e descoberta de si em 'Somos tão jovens'

Miguel Pereira* - Do Portal

17/05/2013

 Divulgação

Da chamada geração Rock Brasília, um dos talentos mais poderosos foi, sem dúvida, Renato Russo. Conquistou a sua geração e avançou sobre as outras, consolidando uma indiscutível liderança na música popular brasileira. A sua Legião Urbana é ainda hoje cultuada e objeto de teses acadêmicas e artigos que atualizam o sentido de suas músicas e letras. Nada mais lógico que o cinema se voltar para essa manifestação cultural e extrair também dividendos, o que parece estar ocorrendo com Somos tão jovens, de Antonio Carlos da Fontoura, com a ótima performance de bilheteria no seu lançamento. São oportunidades de produção que não se deixam escapar, pois o cinema musical sempre foi um gênero que deu certo, das chanchadas às aventuras envolvendo os nossos mais populares cantores, como Roberto Carlos. O filme de Fontoura se insere, portanto, nesse ambiente que retoma uma tradição de sucesso da nossa cinematografia. Nos últimos anos, uma profusão de filmes musicais alavancou boa parte da nossa produção cinematográfica, um fenômeno que tem em 2 filhos de Francisco, de Breno Silveira, uma espécie de bússola. Também muitos documentários foram realizados nesse gênero. Lembro que, há pouco menos de dois anos, Vladimir Carvalho lançou o seu Rock Brasília, que tem entre seus personagens o mesmo Renato Russo desta abordagem ficcional do Antonio Carlos de Fontoura.

Como diz o título, Somos tão jovens é uma espécie de rito iniciático da carreira de Renato Russo. Não é uma biografia literal e completa do compositor, apenas as dores e alegrias da descoberta do próprio talento. Esse cultivo de si está envolto num ambiente sócio-político-familiar caracterizado por rompimentos e opções juvenis bem à moda do período do regime militar. Se as famílias brasilienses do Plano Piloto eram compostas, em grande parte, por funcionários graduados, e, portanto, direta ou indiretamente ligadas às instituições do poder vigente, seus filhos cresciam num ambiente de preservação da própria identidade e intimidade. A busca dos mais próximos era natural, e os talentos se descobriam nesse processo. Renato Russo, com seu modo peculiar de comportamento foi se construindo num caldo cultural que o fez aparecer para os próximos e depois para toda a nação. É disto que fala o filme do Antonio Carlos da Fontoura. Não adianta buscar nele nada além e nada antes desse processo de maturação de uma vocação musical indiscutível. Os anos que antecedem a ida da família para Brasília e os posteriores ao Circo Voador não se encontram no filme. O que se vê é parcial. É um rito e um mito em construção. Mesmo algumas canções estão apenas iniciadas. Sua configuração final não é parte deste filme. Fontoura fica na passagem do adolescente para o jovem maduro que se encontra como artista e pessoa. É, portanto, um filme que aborda o sucesso e escapa a ter que contar a história de uma carreira que se encerra no meio do caminho com a morte prematura  do compositor. Fica nisso e o faz muito bem. Talvez seu olhar crítico pudesse ser mais aprofundado. No entanto, nos limites do seu relato, Fontoura consegue traçar o retrato das relações familiares e companheiras com uma verdade facilmente aceita, e com uma certa ironia que sempre caracterizou o cinema de Antonio Carlos da Fontoura.

No momento em que estamos na expectativa da Jornada Mundial da Juventude, um filme como Somos tão jovens lança sobre esse momento um olhar para ser pensado e refletido por todos.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e critico de cinema.