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Rio de Janeiro, 25 de maio de 2022


Saúde

“Sistema brasileiro está esquizofrênico”, diz médico

Renan Rodrigues - Do Portal

14/05/2013

Casos como a da estagiária que injetou café com leite na veia de Palmerina Ribeiro, de 80 anos, levando-a à morte, em outubro do ano passado, em São João de Meriti, no Rio, renovam a discussão sobre erros em procedimentos médicos. Para o cirurgião geral Alfredo Guarischi, organizador do Safety, fórum de debate sobre o tema, tais falhas tornam-se mais frequentes por dois fatores, em especial: o ingresso maciço de novos profissionais no mercado, nem sempre com a capacitação adequada; e a distribuição irregular no país de profissionais da área.

Em palestra da PUC-Rio, a convite do jornalista e professor do Departemento de Comunicação Social Chico Otávio, Guarischi observou que aproximadamente 92% dos estudantes de medicina se formam, enquanto mais de 50% dos alunos de engenharia abandonam o curso e apenas 13% dos advogados passam na prova da OAB. Ele acredita que o índice de erros médicos seria menor se profissionais da área recebessem apoio psicológico. 

– Temos mais faculdades de medicina que Estados Unidos e China e só perdemos para a Índia – comparou o especialista – O curso de medicina pode custar de R$ 4 mil até R$ 7 mil. Os alunos vão ser estagiários em um hospital quase em regime de boia-fria.  O mesmo acontece com os enfermeiros. Existem mais de 800 escolas de enfermagem no país, mas 70% abandonam a profissão em dois anos. O sistema está esquizofrênico.

Alfredo Guarischi considera infundada a decisão do governo federal, anunciada recentemente, de médicos estrangeiros. A ideia de que faltam médicos no país, segundo ele, "não é real". A distribuição irregular desses profissionais deve-se, ainda de acordo com o especialista, a falhas estruturais.

– Além do mais, médicos de Cuba, Espanha e Portugal não deram certos lá e vão vir para trabalhar, por exemplo, no interior do Piauí? Eu vou admitir, então, que o interior do Piauí não merece o médico brasileiro, mas sim o que não conseguiu ter um emprego no seu país de origem? – questiona – É preciso, sim, dar condição ao médico de trabalhar no interior, porque médico sozinho não faz milagre. Medicina é um time.

Para estimular a melhor capacitação e a retenção de talentos, ele reforça a necessidade de aperfeiçoar o modelo de remuneração:

– Em vez de ralar nas residências, novos profissionais buscam logo opções que pagam salários em torno de R$ 7 mil a trabalhar na residência. Isso gera uma distorção e prejudica a qualificação – avalia.

O especialista, que estuda erros médicos há 12 anos, critica também a “cultura de punição”. Ele defende uma melhor distinção entre o “erro do bem”, quando algo deu errado, e o “erro do mal”, quando o médico viola uma regra e é negligente. A saída é a conciliação no sistema público de saúde:

– Precisamos de transparência. O médico também precisa pedir desculpas. As partes precisam se entender, mas tem sempre um esperto. Aquele advogado de plantão pronto para ganhar dinheiro. Esse é o modelo de negócio. Cerca de 300 ações por dia contra alguém do sistema público de saúde.

Acompanhamento psicológico ajudaria a evitar erros

Condições de trabalho estressantes e abalos decorrentes, por exemplo, da perda de pacientes também propiciam procedimentos falhos, acresecnta Guarischi. A carga emocioanl se reflete na taxa de suicídio entre médicos do sexo masculino, "uma vez e meia maior em relação a outras profissões", ressalta o cirurgião. Para ele, os médicos deveriam receber apoio psicológico, sobretido depois de passarem por casos considerados traumáticos. "Como é feito com profissionais da aviação, que ficam um mês fora após algum incidente", compara.

– Já tive problema em dizer que não me sentia bem em operar. Quase fui processado. Sou um ser humano e não um super-homem. Também sofro com a perda de um paciente. Faço análise há 17 anos e me arrependo de não ter começado antes – conta.