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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Economia

Economia compartilhada cria novas rotinas e oportunidades

Marina Chiarelli - Do Portal

10/05/2013

 Arte: Nicolau Galvão

O uso da internet e de aplicativos em smartphones tem contribuído para mudar a maneira de fazer negócios entre consumidores do mundo inteiro. Favorecida pelas novas tecnologias, a prática de trocar objetos e compartilhar serviços entre pessoas próximas ou desconhecidas via web é impulsionada também pela suposta contribuição à sustentabilidade, pois não raramente representa uma utilização mais inteligente dos recursos. A economia compartilhada – sharing economy, na expressão original, em inglês – movimentou no Brasil, ano passado, R$ 22,5 bilhões.

Embora o potente mercado desdobre-se em novas rotinas e oportunidades, o professor da ESPM Gil Giardelli, avalia que o Brasil, para tirar melhor proveito desta onda, já intensa nos Estados Unidos, por exemplo, precisa passar por uma mudança cultural. Para o web ativista, como ele se denomina, é necessário enxergar a internet não só como meio de relacionamento, mas como ambiente de negócios: 

– O Brasil é um país maduro em relação à tecnologia, no qual o interesse pelo uso da rede tem aumentado. Soma, aproximadamente, 52,5 milhões de pessoas ativas na internet.  Já possuímos diversas inovações tecnológicas de aplicativos para smartphone projetados por brasileiros. Mas ainda falta valorização para os produtos made in Brazil.

O classificado informal de imóveis Airbnb tornou-se um símbolo da economia de compartilhamento.  Desde o lançamento, em 2008, com sede em São Francisco (EUA), mais de 4 milhões de pessoas usaram o serviço – 2,5 milhões apenas em 2012. No início, reunia opções de aluguéis de quartos de moradores em outros países, hoje oferece até castelos, com clientes em oito mil cidades.

Nos Estados Unidos, cujo volume de usuários da internet ultrapassa a casa dos 245 milhões, é epicentro da economia compartilhada. Lá o comércio eletrônico contabilizou US$ 56 bilhões só no terceiro trimestre do ano passado. De olho nesses números, empreendores brasileiros tentam seguir os passos por aqui.

Aos poucos, o modelo de compartilhamento ganha força no mercado nacional. Assim indicam, por exemplo, a expansão dos negócios online. Neste ano, com o aumento das vendas de dispositivos móveis (tablets e smartphones), o e-commerce brasileiro deve crescer 25% e faturar de R$ 28 bilhões, estima a consultoria E-Commerce News. 

Hospedagem está entre os serviços mais procurados do gênero

De olho nessa projeção e inspirado no sucesso do Airbnb, Leandro Pinheiro idealizou o serviço de hospedagem colaborativa Fica Lá em Casa. Ela pondera que, embora aspectos culturais ainda dificultem o crescimento mais acelerado deste tipo de negócio no Brasil, o uso crescente das redes sociais tem ajudado a impulsioná-lo:

– Um dos pilares do consumo colaborativo é a confiança, e o brasileiro ainda é um povo muito desconfiado. Mas, aos poucos, a gente consegue quebrar esse costume. A tecnologia tem ajudado bastante nesse aspecto, pois hoje é possível fazer o nosso trabalho por meio das mídias sociais.

A hospedagem colaborativa reúne, como apelo comercial, o custo supostamente mais barato e a oportunidade de vivenciar uma cidade como um morador, conhecendo mais de perto a cultura e o dia a dia dos habitantes. Leandro avalia que esta troca de experiências também contribui para o crescimento do serviço:

– A intenção desse tipo de hospedagem é oferecer ao usuário algo diferente do habitual e apresentar uma forma mais econômica de viajar – reforça.

Gabriel Vasconcellos, diretor de Recursos Humanos da Empresa Júnior da PUC-Rio, lembra que a economia de compartilhamento pode crescer no vácuo dos grandes eventos, como a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude. Ele vê grandes oportunidades para negócios do gênero nos próximos anos:

– Esse tipo de serviço está conquistando espaço no Brasil. Nos próximos anos o Rio vai sediar grandes eventos e a cidade não tem condições de receber a demanda esperada. A cidade não tem hotéis e pousadas suficientes para um grande público. Então, a tendência de abrir a casa para receber visitantes tem aumentado.

Sistema compartilhado favorece aluguel de livros

Embora a Empresa Júnior não tenha especificamente projeto do ramo compartilhado, Vasconcellos conta que vários parceiros desenvolvem modelos assim. É o caso da GoBooks, um serviço de aluguel de livros por seis meses, já em vigor na PUC. Outro parceiro é o EasyAula, uma plataforma de facilitação de aulas e de promoção do conhecimento em que cada um estipula o preço e o assunto da aula oferecida.

– No meio universitário, o novo serviço colaborativo está mais presente. As procuras por aluguel de livros, compartilhemento de carona e de moradia vêm crescendo entre os estudantes. É um processo que pode levar tempo, mas, em médio prazo, será difundido. Esses jovens, ao sairem da faculdade, levarão as novas ideias para o mercado – afirma o diretor da Empresa Júnior.

Compartilhar um carro pode ser mais econômico do que manter um veículo próprio. Ao custo com impostos, combustível e manutenção, somam-se as horas crescentes ao volante (no Rio, a média diária no trânsito, da casa para o trabalho, chega a 46 minutos). Como o sistema de transporte público mostra-se ainda distante das demandas urbanas, abre-se, segundo especialistas, um sinal verde para alternativas associadas à sharing economy

Amparado também na sustentabilidade, que prega o uso inteligente dos veículos, o compartilhamento de automóvel, ora favorecido pelas mídias sociais, torna-se um negócio em aceleração. A ZazCar, por exemplo, gerencia este serviço, mediante cadastro na internet. De acordo com Felipe Portugal, fundador da empresa, 25% dos que passaram a compartilhar o carro no dia a dia deixaram de comprar ou venderam seus automóveis. Ele estima que cada carro compartilhado represente de 10 a 15 carros a menos nas ruas.

– O aluguel por hora facilita a integração das rotinas de diversas pessoas. A possibilidade de alugar um carro não é focada na mobilidade individual, e sim na mobilidade compartilhada – distingue Portugal.

Na carona do compartilhamento

A tradicional carona também ganha força à luz da economia compartilhada. O Carona.com.vc faz a mediação entre os donos de carro e os caroneiros. “A procura está enorme”, anima-se Gustavo Lima, um dos idealizadores do projeto. Cerca de 1.500 estudantes da PUC usam o serviço. Ex-alunos do curso de Engenharia, Gustavo e o colega Guilherme Porto, que agora têm uma empresa no Instituto Gênesis, contam que pensaram no negócio enquanto aguardavam na fila do estacionamento. Acreditam que seu crescimento pegará carona no volume de alunos da universidade: 

– Está faltando o boca a boca entre os estudantes para o compartilhamento de carona ficar ainda mais divulgado – diz Guilherme. Para ele, a diferença entre um sonho e um empreendimento de sucesso é a "atitude":

– Todo mundo tem ideias, mas uma ideia que não passa da fase dos sonhos não vale nada. O que vale é a execução. Poucas pessoas assumem os riscos e fazem as ideias acontecerem.

Topa um jantar compartilhado?

O embalado setor de compartilhamento estende-se a roupas, objetos e outros serviços. Um mercado que tem mudado não só negócios, mas comportamentos. Assim indica, por exemplo, o compartilhamento de jantares. A chefe de cozinha Manuela Zappa já trabalha há quatro anos com esse conceito, no Prosa na Cozinha. Ela harmonizou as aulas de gastronomia e o bufê com a organização de jantares – que não deixam de ser aulas. Incluem alunos e interessadores em geral nesta experiência já comum em países da Europa e nos Estados Unidos. O encontro é feito na casa da chefe ou de algum participante. Divulgação: Lucas Zappa

Manu Zappa (foto), como é conhecida, pretende aquecer os jantares compartilhados. Passarão a ser organizados numa cobertura no alto Leblon, para 20 comensais. Eles só sabem no dia o menu, que combina receitas de diferentes colaboradores.

A chefe aposta que o caráter inovador da experiência tempera a procura. Pois aulas de gastronomia, diz ela, "podem ser encontradas em qualquer esquina, mas um modelo assim é mais difícil de encontrar”. Manu percebe um ligeiro aumento do interesse, mas reconhece que "ainda falta muito" para o serviço crescer no Brasil:

– Na Argentina, é comum um chefe abrir a casa e receber pessoas para trocarem experiências gastronômicas. O brasileiro ainda é conservador em relação ao restaurante. Mas esta característica  tende a mudar, pois comer fora não sai tão barato. Então, as pessoas passam a procurar outras opções, algo mais intimista. O jantar compartilhado é um mercado que tem público, o que está faltando mesmo são mais interessados no movimento. A ideia de trocar experiências tem contribuído para o sucesso.

Para jantares do tipo e outros serviços da economia compartilhada deslancharem no Brasil, como já se observa em vários países, Giardelli prescreve uma dose de autenticidade:

– O espírito de empreendedorismo brasileiro tem potencial para der certo. O que não pode ser feito, em relação aos serviços dessa área, é a tentativa de copiar modelos estrangeiros. É preciso investir mais no consumo brasileiro. O modelo americano não é a base do sucesso. Pode até servir de inspiração, mas temos que fazer mais do que isso e acreditar nas novas ideias empreendedoras que estão surgindo no nosso país.