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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


Crítica de Cinema

'Paulo Moura: alma brasileira' resgata trajetória de músico

Miguel Pereira* - Do Portal

06/05/2013

Reprodução

Exibido na abertura do Festival É Tudo Verdade, em São Paulo e em algumas sessões no Rio de Janeiro, o documentário Paulo Moura – Alma brasileira, de Eduardo Escorel é mais do que um tributo musical ao famoso compositor, instrumentista e maestro, falecido em julho de 2010. É um exercício sobre o fazer documentários. Na realidade, o cineasta recolheu algumas execuções da trajetória e da profícua vida do artista. Mas, o fato inicial do projeto foi o que fazer com algo que não se completou devido à morte do maestro. Até a sua última apresentação com os amigos, no hospital, um dia antes da morte, embora filmada por Escorel, não pode ser aproveitada no documentário. O que restou do pouco material produzido para o filme é a matéria prima da narrativa, além das garimpagens em arquivos, acervos particulares e algumas entrevistas. Começa com uma primorosa sequência em que a câmera detalha o espaço criativo do músico, detendo-se, aleatoriamente nos símbolos de uma vida afetiva e criadora. Porém, a cena chave é a preparação da entrevista com Paulo Moura que traduz, pela montagem, um conjunto de elementos do fazer cinematográfico e uma fala esplendorosa e criativa do personagem. O músico estava plenamente integrado ao ambiente e foi capaz de dizer, talvez, a sua frase polêmica a respeito da bossa nova e da música de Chico Buarque de Holanda.

O método utilizado por Eduardo Escorel neste documentário é muito pessoal e nos proporciona a dimensão complexa de uma vida em que os detalhes têm a mesma importância dos conceitos emitidos. Como exemplo desse procedimento, temos uma fotografia de Paulo Moura com uma mulher loura, mostrada por sua esposa, Halina Grymberg – cuja imagem completa nunca é vista durante todo o filme, só a sua voz – e que diz não a conhecer, mas concorda que o maestro parece estar feliz. São certas intimidades que o filme revela sem tecer juízos adicionais. Seu percurso se fia em que as imagens falam por si e sua relação é estabelecida numa cumplicidade entre o cineasta e seus espectadores.

Estão lá as informações que definem o perfil de um grande artista. Da formatura na Escola Nacional de Música, ao acompanhamento precioso dos estudos com o maestro Hans-Joachim Koellreutter, o mais importante formador de várias gerações de músicos, incluindo Tom Jobim, passando pelas diversas transformações e formações que sua música sofreu, aparece diante dos nossos olhos e ouvidos um intérprete da alma brasileira, como diz o subtítulo do filme. Há ainda sentimento familiar e gosto das coisas simples que sempre guiaram a vida desse brasileiro de São José do Rio Preto. Trata-se, pois, de um documentário que consegue trazer para o presente um talento que se apagou legando à cultura brasileira um obra para ser apreciada e revista ao longo do tempo histórico.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.