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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Economia

"Inflação deve se manter neste nível", projeta economista

Vítor Afonso - Do Portal

18/04/2013

 Arte: Nicolau Galvão

A escalada dos preços na órbita dos 6,59% nos últimos 12 meses desperta temores e reflexões mais complexas do que sugere a berlinda do tomate – cujo quilo acima de R$ 7 o transforma em novo símbolo de um fantasma ainda vivo na memória de boa parte dos brasileiros. O risco, apontado por alguns analistas, de decisões como a relativa à taxa básica de juros (Selic) – que tende a ser ligeiramente aumentada pelo Banco Central hoje à tarde – sofrer influências de uma corrida eleitoral antecipada esquenta as discussões em torno dos remédios para manter controlado o dragão à espreita. Nem a desaceleração do aumento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – 0,47% em março frente a 0,60% de fevereiro – é suficiente para arrefecer preocupações aguçadas pelo estouro da meta do governo, o que não acontecia desde novembro de 2011. "Não haverá explosão inflacionária", tranquiliza o economista Luiz Roberto Cunha, decano do Centro de Ciências Sociais (CCS) da PUC-Rio.

Em entrevista, por telefone, ao Portal, ele esclarece os motivos dos preços mais salgados, pondera o impacto na inadimplência – avanço de 3,6% no mês passado – e projeta um cenário relativamente estável: "Deve ficar nesse nível [a inflação], e deveremos crescer um pouco mais no próximo ano". E, nesses tempos em que se renova o debate sobre o peso do Estado, sobretudo na Europa em crise, Cunha relativiza o legado de austeridade da ex-primeira-ministra Margaret Tatcher, da qual o Reino Unido se despede, como saída para um melhor horizonte econômico.

Portal PUC-Rio Digital: O estouro da meta de inflação acende o sinal amarelo, sobretudo num país já chamuscado por esse dragão. Há risco de novo incêndio inflacionário?

Cunha:
Somos espécies de doentes que passamos muitos anos viciados em inflação. Por isso, há sempre preocupação. Mas não há risco de explosão inflacionária para o ano que vem. A inflação deve ficar nesse nível, um pouco menos ou um pouco mais. E o crescimento deve ser um pouco maior no próximo ano. Do ponto de vista econômico, é um quadro bom para o governo.  

Portal: A inadimplência cresceu em março. Descontada a sazonalidade, isso também pode ser um sintoma da inflação?

Cunha: Os bancos estão oferecendo mais crédito. Isso gera mais empréstimos, porque os consumidores tem uma demanda por bens. Uma inflação mais alta, sobretudo em relação a produtos básicos, como os alimentos, significa menos recursos para o consumidor pagar prestações. Com isso, tem ocorrido um aumento na inadimplência. Mas não é algo que preocupe muito até o momento.

Portal: O tomate, cujo quilo chegou a R$ 10, tornou-se o vilão do momento, o novo símbolo da inflação. Por que os alimentos têm puxado a alta dos preços?

Cunha: O tomate, como vários outros produtos in natura – legumes, frutas, verduras – são muito sensíveis às variações climáticas. Em geral, todo ano, esses produtos têm altas e depois quedas. Altas principalmente no verão, quando faz muito calor e chove muito; ou no inverno, quando faz muito frio. Nos últimos anos, o clima está cada vez mais acentuado. Neste ano o calor demorou mais, o verão se prolongou por mais tempo, choveu muito nas regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste, e o Nordeste vive uma das piores secas. Isso gerou altas fortes. É um fator climático, sobre o qual a política monetária e a taxa de juros não têm muito efeito.

Portal: Analistas acreditam que o Bacno Central tende a subir a taxa básica de juros na reunião de hoje. Embora o mecanismo seja frequentemente adotado para espantar a inflação, a presidente Dilma Rousseff descartou a necessidade de taxas mais altas. No cenário atual, o aumento dos juros é suficiente, ou é o melhor caminho, para conter a inflação? Que outros remédios devem ser prescritos?

Cunha: Temos que lidar com muitos fatores em questão. É preciso olhar para todos os elementos que fazem os preços subir e, então, definir o que pode ser feito. O lado bom é que a inflação não vai sair do controle e o crescimento não será menor do que o do ano passado.

 Mauro Pimentel Portal: O nível baixo de desemprego registrado no Brasil nos últimos anos também contribui para essa alta nos preços?

Cunha: É um fator positivo do ponto de vista da sociedade, mas que obviamente também pressiona os preços. Tudo em economia tem um custo e um efeito. Quando você tem a renda crescendo, desemprego baixo, isso acaba pressionando os custos, pois existem mais pessoas com capacidade de compra. O setor de serviços, por exemplo, tem subido bem acima da inflação nos últimos anos. Quem usa os serviços tem pagado mais caro.

Portal: O aumento do salário mínimo, que deverá subir dos atuais R$ 678 para R$ 719 no próximo ano, pode compensar, de certa forma, o avanço inflacionário?

O salário mínimo é base dos custos do setor de serviços. O governo tem feito aumentos acima da inflação nessa área. Por outro lado, se você aumenta os salários e depois a inflação aumenta, você perde uma parte do ganho salarial.

Portal: Voltando à taxa básica de juros, sobre as quais recai boa parte das expectativas econômicas nesta semana, a redução sistemática adotada pelo Banco Central nos últimos meses também dificulta o freio inflacionário?

Cunha: O Banco Central reduziu os juros de forma intensa, o que, de um lado, é bom: faz com que os juros brasileiros fiquem mais próximos do padrão internacional. Por outro lado, pela política monetária, você não tem elementos de contenção de inflação. Se há uma política monetária flexível e expansionista e uma política fiscal flexível e expansionista, obviamente você não tem nenhum tipo de elemento que, quando os preços começam a subir, atuem sobre os preços.

Portal: O senhor pode explicar por que o aumento da taxa Selic tornou-se uma estratégia recorrente para manter domada a inflação?

Cunha: Porque o elemento mais direto, sob o ponto de vista de reduzir pressões de demanda, quando há mais gente querendo comprar do que vender, é, na teoria econômica, a taxa básica de juros. Esse é um elemento fundamental.

Portal: Como o câmbio pode ajudar no combate à inflação?

Cunha: Há dois anos o câmbio ajudava a conter a inflação, porque eestava mais valorizado. Por outro lado, agora que está mais desvalorizado, ajuda o desempenho da indústria. Mas, não ajuda a conter a inflação. É uma questão complexa.

Portal: Outra questão importante, relacionada à solidez institucional necessária aos investimentos, refere-se à autonomia do Banco Central diante dos ventos políticos. Até que ponto vai essa autonomia?

Cunha: Mesmo o Banco Central Americano, que tem autonomia, precisa prestar contas ao Congresso. Não existe economia desvinculada da política. Mas há uma percepção de que o Banco Central brasileiro demonstrava mais autonomia no governo Lula do que agora.

Portal: Desde que as metas de inflação foram criadas, o centro da meta foi superado em dez dos 14 anos. Isso chega a ser preocupante ou, até certo limite, faz parte do script desenvolvimentista?

Cunha: O mais importante é que a meta é muito baixa. Mas também temos um conjunto de fatores que atuam a cada ano. Por exemplo, em alguns desses anos que ficamos acima do centro da meta, tivemos desvalorização cambial, pressão de preços agrícolas. Mas não há uma unificação. Cada ano é diferente do outro, e cada um deve ser analisado dentro do que ocorreu em dado momento.

Portal: Por falar em expansionismo, centro do renovado debate sobre o peso do Estado, o Reino Unido se despede da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, cuja política de austeridade mudou os rumos da economia e da História. Seu legado serve de inspiração no cenário atual?

Cunha: Cada figura tem o seu papel em um determinado momento. Naquela época ela foi muito importante para o mundo e para a Europa. Tanto que a Inglaterra melhorou muito depois dela. Pelo menos na visão global. Algo fundamental foi o fato de Thatcher ter ajudado a Inglaterra a não entrar para o euro. Se tivesse entrado, teria sido uma catástrofe, como observamos agora.