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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Cinco câmeras quebradas e muros a derrubar

Mariana Totino - Do Portal

16/04/2013

 Foto: Cynthia Salles

Antes de serem quebradas, cinco câmeras (a última delas ainda em funcionamento) registraram, de 2005 a 2008, a resistência não violenta da vila palestina Bil’in, na Cisjordânia, contra a presença constante do exército israelense e as medidas do governo de Israel em cercar e construir um muro na região. O primeiro equipamento adquirido por Emad Burnat, morador da vila, teria a função de gravar os primeiros passos de seu filho Gibriil, com Soraya (uma palestina criada no Brasil que fala português fluentemente) e seus outros filhos. Mas logo filmar se mostrou um instrumento de registro e proteção quanto à repressão às manifestações populares. Mais tarde editados pelo ativista israelense e professor de cinema Guy Davidi, os registros foram transformados no documentário 5 broken cameras (Cinco câmeras quebradas), que concorreu ao Oscar 2013 na categoria de melhor documentário em longa-metragem.

Na última sexta-feira, a jornalista Baby Siqueira Abrão, correspondente internacional no Oriente Médio do site Brasil de Fato, esteve na PUC a convite do documentarista e professor Silvio Tendler para participar de debate sobre o documentário, após uma exibição do filme para alunos de comunicação.

Enquanto crianças no mundo inteiro iniciam a fala com palavras como “papai” e “mamãe”, Gibriil aprende desde cedo o significado da palavra “soldado”. Homens patrulhando as cercanias da vila e bombas de gás tóxico lançadas pelo exército israelense para dispersar palestinos próximos do muro são cenas recorrentes que se intercalam com o cotidiano da família Burnat. O filme mostra manifestações populares, passeatas não armadas realizadas semanalmente após a reza na mesquita e repreendidas pelo governo israelense. Apesar de um constante clima de tensão, a morte de um dos ativistas locais comove toda a população, que faz um cortejo até a mesquita.

Tendler defendeu que, diferentemente de programas de televisão, onde a guerra é vista somente sobre dois prismas – as vítimas e os tiranos (“Ou os palestinos estão chorando a morte de alguém ou estão jogando foguetes”) –, o cinema trabalha com visões diferentes:

 Foto: Cynthia Salles – Grandes filmes profissionais abordam diversos pontos de vista. Não defendo o cinema amador; defendo o cinema bom.

Baby Siqueira Abrão chamou atenção para a contradição no fato de o documentário, que mostra a ocupação e a repressão de Israel a um território palestino, ter sido considerado um filmes israelense no Oscar. Para ela, a internet garantiu à Palestina espaço no noticiário internacional comparável à criação da Organização para a Liberação da Palestina (OLP), de Yasser Arafat:

– O surgimento da possibilidade de os próprios moradores fazerem os seus filmes com câmeras caseiras e publicar na internet permitiu que as pessoas começassem a descobrir o que realmente estava acontecendo.

Cinema como instrumento de luta social
As imagens tremidas e com pouca resolução, para Silvio Tendler, não são um problema: o importante é que o registro que permite ver o que não é mostrado pela grande mídia, e Emad revela a própria realidade com os meios que dispõe. O que poderia ser um defeito torna-se uma qualidade, e reconhecida por Hollywood. Tendler citou exemplos de iniciativas parecidas no Brasil:

– Jovens da periferia estão começando a filmar os desmontes e remoções de suas casas e as põem em sites. Fala-se muito em Olimpíadas e em Copa, mas pouco se discute sobre os custos para a população. Se esperarmos a grande mídia, não saberemos nunca. Os índios no Acre também usam câmeras para denunciar a derrubada da floresta pelos madeireiros e colocam na internet, forçando o governo a tomar providências. Isso está acontecendo em vários movimentos sociais.

O documentarista também fez ressalvas ao documentário, apontando como “forçação de barra cinematográfica” cenas que tentam convencer o espectador da justeza da causa, como o gesto de um menino dar um ramo de oliveira a um soldado. Baby, que conhece a área, discordou: “Não houve cena armada, isso acontece de verdade”.

Tendler recomendou o filme Budrus (2009), da brasileira Júlia Bacha, em que moradores de uma comunidade palestina descobrem que um muro vai separar suas terras do cemitério local. Para ele, trata-se de um filme menos militante, que também defende o ponto de vista dos árabes. Ele lembrou ainda uma cena do filme Kedma (2002), do cineasta israelense Amos Gitai, em que um árabe expulso de sua terra diz que seus filhos resistirão: “Permaneceremos aqui, como uma muralha, apesar de vocês. Sentiremos fome, mas desafiaremos. Encheremos as prisões com o nosso orgulho. Seremos os pais de gerações de crianças rebeldes”. Silvio lembrou que incluiu este trecho em seu documentário Utopia e barbárie (2009), e contou que Gitai “só aceitou dar entrevista por ser glauberiano”.

Muros de concreto e de preconceito a serem derrubados
A grande área cercada da vila Bil’in é uma das regiões administradas pela autoridade palestina e controladas militarmente por Israel. Um dos cenários principais do filme tornou-se hoje uma área de lazer, graças à ação de ativistas internacionais, segundo Baby, que explicou que na maior parte da Cisjordânia, controlada por Israel, os palestinos são proibidos de construir qualquer coisa.

Os protestos na região também são contra as colônias exclusivamente judaicas construídas ilegalmente em terras palestinas confiscadas.

Cynthia Salles A jornalista defende que a luta não violenta é uma tradição na Palestina desde o século XIX e que, de acordo com o Direito Internacional, qualquer povo que esteja sendo violentamente reprimido pode resistir com todos os meios a disposição:

– Em Gaza, há brigadas que acreditam que as coisas só vão se resolver pelo enfrentamento militar. Mas o governo israelense só procurou conversar e assinar o cessar-fogo, que não respeitou, quando percebeu que os palestinos já tinham tecnologia para fazer foguetes. A violência é usada dos dois lados. Todos os partidos e facções palestinos, como Fatah e Hamas, têm um braço armado. Independentemente de opiniões pessoais, os palestinos jamais agiram fora da lei; estão se defendendo. Não acredito em paz naquela região porque ela está sendo levada por grandes potências e por governos. Acredito na paz entre populações, no momento em que debaterem suas diferenças.

Silvio e Baby têm raízes judaicas. Ela tinha bisavó palestina e bisavô libanês e, por parte de pai, seus bisavós eram judeus que fugiram da inquisição portuguesa. Enquanto ela, que defende o ideário anarquista seguido por ativistas que atuam na Palestina e é contra o “avanço sionista”, acredita que há um conflito fabricado por parte do governo Israel, Silvio defende que da parte dos israelenses há movimentos contra a militarização da sociedade. Quando ele mencionou a “Guerra da Independência” (conhecida como “desastre” ou “catástrofe” pelos palestinos) ela fez uma ressalva: o episódio marcou a criação de um Estado, e não, uma emancipação.

Uma realidade nem tão distante assim
Um adesivo com a bandeira brasileira colado em uma das câmeras é uma das referências ao Brasil feitas pelo filme. Soraya, mulher de Emad, foi criada no Brasil, e os filhos mais velhos do casal falam português fluentemente.

Tendler explicou que, depois da criação de Israel, muitos palestinos viveram uma diáspora. No Brasil, em locais como Foz do Iguaçu, há comunidades palestinas:

 – Eles vêm para as Américas trabalhar e voltam com a bandeira de onde moraram. Não é tão estranho assim ver bandeiras de outros países nas manifestações. Curtem muito o Brasil.