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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Mostras reforçam apelo das fotos para a memória do país

Carlos Serra - Do Portal

11/04/2013

 Arte sobre imagens / CCBB e MAR

Hipnotizada pelo vendedor de vassouras de Marc Ferraz, uma senhora perdia-se no tempo. Enquanto dezenas de olhares corriam pelo varal de 350 fotos reunidas no segundo andar do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), ela mergulhava nos traços simples do ambulante retratado no finzinho do século XIX. A feição estática era mais do que um contraste com a procissão de visitantes ao redor, e com o nosso tempo acelerado. Traduzia o encanto de passear por cenas e personagens – célebres, anônimos, emblemáticos – que sintetizam 170 anos de Brasil. Um desafio que, perto dali, no recém-inagurado Museu de Arte do Rio (MAR), na Zona Portuária, assume contornos ainda mais cariocas: a mostra Rio de Imagens: Uma paisagem em construção, traz grandes artistas que, ao longo de quatro séculos, descreveram e escreveram a história da cidade.( Veja a galeria de imagens das exposições)

Tanto na exposição do CCBB – Um olhar sobre o Brasil: a fotografia na construção da imagem da nação, até o próximo dia 21 – quanto na do MAR – até 28 de julho –, o Rio é contado com a importância que lhe cabe na construção nacional. De Burle Marx a Tarsila do Amaral, no MAR, até Marc Ferrez e Evandro Teixeira, no CCBB, a pluralidade de imagens converge para um reencontro com a história. Além do mais, são um aula de fotografia. 

A riqueza histórica (e, claro, estética) ilumina também a importância das imagens como instrumentos de preservação da memória. Especialistas como o professor de fotojornalismo da PUC-Rio Paulo Rubens e o professor de história da fotografia Joaquim Marçal avaliam que a tecnologia digital é insuficiente para garantir que as fotos sejam preservadas. Eles alertam para a necessidade de aprimorar tais cuidados.

– Ainda buscamos as melhores formas de preservar arquivos digitais, para que, daqui a 50, 100 anos, tenhamos a oportunidade de lembrar passagens importantes da nossa história, como as reunidas nessas exposições – observa Marçal.    

 Divulgação No caçula dos museus cariocas, mapas, documentos históricos, pinturas e fotografias remontam o Rio desde antes de virar a capital do Império até o cenário atual. Cerca de 400 peças de 60 artistas, entre esculturas – como uma réplica da cabeça do Cristo Redentor – e objetos de design, compõem a exposição.  Ao passar pelas salas e corredores do terceiro andar do MAR, os visitantes veem obras que formam o imaginário difundido pelo mundo: o Cristo, a vista da Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar, as favelas.

Xícaras, baralhos e pequenos quadros recriam a atmosfera do Rio Antigo, amplificada pelo corredor interativo com base em fotos de Marc Ferrez, no início do século 20. Uma das mais representativas remonta à antiga Avenida Central, atual Rio Branco.

 Divulgação – O resultado foi muito interessante porque possibilitou ao visitante ter a sensação de caminhar naquele cenário urbano. Experimentar a sensação de transitar pelos quarteirões da Avenida Central – ressalta Carlos Martins, um dos curadores da exposição  

Ele lembra que a cidade sempre inspirou desenhos, pinturas e, posteriormente, fotografias:

– O Rio sempre foi um local privilegiado. Ao ficar protegido do litoral aberto pela Baía de Guanabara, teve a paisagem usada primeiramente para documentos de defesa. Depois, como registro do Brasil, tornou-se um dos símbolos oficiais de divulgação do país a partir do século 19.

CCBB mostra o Rio como cenário importante para a história do país

Embora a mostra do CCBB retrate o Brasil, num mosaico de contastes urbanos e rurais, o Rio também ocupa, naturalmente, um certo protagonismo. As imagens dedilham o cotidiano brasileiro na política, sociedade, cultura e paisagem. Se no MAR o que prevalece é a construção imagética do Rio e sua forma, no CCBB as cenas orquestram a história do país feita de pessoas: corte imperial, escravos, trabalhadores comuns, mineiros, jovens em luta contra ditadura e até os surfistas de trens imortalizados pela lente de Rogério Reis, por exemplo.

Com três fotos na exposição – entre elas, Sexta-feira sangrenta, o flagrante de um estudante em queda perseguido por militares  –, o premiado Evandro Teixeira reforça a importância do gênero para se cultivar um olhar atuante e contextualizador, essencial à cidadania:

 Evandro Teixeira – O importante é o olhar sobre os fatos e o cotidiano. O papel do fotojornalista é esse: passar, através da imagem, todo um contexto.

Passagens e flagrantes simbólicos da história nacional, como os clicados por Evandro Teixeira, Rogério Reis, Marc Ferrez, Sebastião Salgado, entre outros bambas, levaram quatro anos até serem ali reunidos. Para Boris Kossoy, que divide a curadoria com Lilia Schwarcz, "foi um trabalho insano pesquisar todos esses documentos".

As 350 fotografias passeiam pelo Brasil entre 1883 e 2003. Unem-se a relatos detalhados sobre o contexto em foram tiradas. Assim, favorecem uma experiência imersiva, ao mesmo tempo em que se diferem das legendas técnicas comuns às mostras do gênero.

Especialistas apontam caminhos para preservar a memória em imagens

As duas exposições trazem fotografias do tempo em que a atividade era para poucos. Hoje, o advento da tecnologia digital imprimiu novas práticas e oportunidades. Para o professor Paulo Rubens, com a revolução digital e a facilidade de acesso por todos, a fotografia "perde um pouco do seu charme". Há, porém, um ganho no papel político do cidadão comum:

 Arquivo pessoal – Hoje todo mundo tem aparelho fotográfico. Isso é ótimo. É ótimo, por exemplo, para que os ditadores sejam menos brutais, pois não existe escapatória. Se você está fazendo alguma coisa errada tem alguém com uma câmera na mão.

Não importa se a paisagem é a badalada Copacabana, as igrejas do Centro ou um município da Baixada Fluminense. Os cliques – profissionais ou amadores, jornalísticos ou publicitários – avançam na velocidade com que se propagam celulares e câmeras digitais. No entanto, de acordo com o professor Joaquim Marçal, a questão "não é fotografar, e sim como filtrar o que é fotografado":

– Existe uma questão chave: filtrar e ter poder de síntese. O importante é tentar preservar e escolher  Carlos Serra 10, 20 ou 50 imagens. Está se desenvolvendo uma nova linguagem, mas o problema é que a maior parte não será guardada. A consciência da preservação digital é muito baixa, logo, a maior parte dessa produção provavelmente será perdida.

Paulo Rubens acredita que o futuro da preservação da memória fotográfica está na concretude dos livros fotográficos: "O livro é uma maneira de manutenção. O que garante que um HD funcionará daqui a vinte anos?". Maçal concorda que o livro impresso é um caminho para preservação das imagens, porém indica outros:

É preciso guardar de forma adequada a produção digital. Primeiro, ter um back-up e armazenar os arquivos de forma que, mesmo com o avanço da tecnologia, possam ser lidos no futuro. Esse cuidado precisa começar pelo governo, com politicas mais claras e eficazes para preservação de seus dados digitais.

Paulo Rubens, Joaquim Maçal e Boris Kossoy alertam para a necessidade de aperfeiçoar as formas de preservar a memória retratada em imagens, o que exige mais do que os recursos de digitalização. "Como a historia de hoje será relatada daqui a 50 anos? Não sei em que medida os arquivos digitais de hoje irão durar. Sei é que temos fotografias de 150 anos atrás que ainda estão aqui", questiona Kossoy.