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Rio de Janeiro, 25 de julho de 2024


Cultura

Vinicius de Oliveira, onze anos de história

Joana Medina e Tatiana Carvalho - Do Portal

03/09/2008

 Thiago Carvalho

Onze era a idade de Vinícius de Oliveira quando ingressou no mundo do cinema. A estréia no filme de Walter Salles, “Central do Brasil”, foi um acaso que mudou sua vida para sempre. No aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ele trabalhava de engraxate e Salles esperava uma ponte aérea para São Paulo.“Eu o vi na fila, estava na intenção de pedir para engraxar o sapato dele. Quando cheguei mais perto vi que ele estava de tênis. De tênis, evidentemente, eu não ia engraxar nada. Ia embora, mas resolvi pedir pra ele me pagar um lanche”, conta Vinícius. Depois do lanche veio o convite do teste para o personagem Josué.

Onze também é a quantidade de anos que isso aconteceu. Hoje com 22 anos Vinícius está no seu segundo período de Comunicação da PUC-Rio e sonha em ser diretor de cinema. Divide seu tempo entre a universidade e a sétima arte, mas essa divisão não é exatamente meio a meio. “Nesse momento eu dou prioridade a carreira profissional. Enquanto der eu vou fazer a faculdade, enquanto puder eu vou fazendo. É que esse é o momento. Ou vai ou não vai”, revela.

Mas nem sempre foi assim. Quando era pequeno ele queria mesmo era ser jogador de futebol, como seu personagem, Dario, no filme também de Walter Salles, “Linha de Passe”. Mesmo com a agenda lotada de compromissos, sempre existe um tempo destinado para jogar aquela pelada com os amigos e até participar dos campeonatos organizados pela universidade. Depois do seu time, “Filhos de Alejo”, ter sido eliminado da CopaCom (Campeonato de futebol dos alunos de Comunicação) agora ele arranja tempo para disputar a Copa da Vila.

Nos 11 anos que separam o aeroporto como meio de sobrevivência do aeroporto como passagem obrigatória de uma agenda lotada, Vinicius encontrou seu caminho. Algo impossível sem a insistência de Salles em dar uma oportunidade ao talento descoberto por acaso. (Mesmo depois de ter esquecido o teste, o menino vagava pelo saguão no dia combinado, até que a equipe do cineasta o encontrou.)

"Central do Brasil" vai ficar marcado na minha vida toda. Repito as falas quando assisto às reprises na TV. Com o convite para "Linha de Passe", volto ao cinema interpretando um personagem com o qual me identifico – confessa.

O primeiro trabalho influencia até a lista de filmes favoritos, da qual “Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg, “Diário de Motocicleta”, “Abril Despedaçado” e, claro, “Central do Brasil”, todos de Walter Salles, estão entre os primeiros. O menino que ficou conhecido como o pequeno Josué hoje tem uma visão amadurecida sobre o que é ser ator. A primeira vez que se viu na telona ficou maravilhado, mas hoje analisa de maneira mais critica sua atuação.

Vinícius - que já fez um curso de interpretação no Retiro dos Artistas - acredita que as emoções estão dentro de cada um e atuar é saber expor isso, não sendo necessário uma escola. “Ator não tem que estar buscando técnicas de interpretação. No cinema e na televisão é uma coisa mais orgânica, que vem de dentro, muito do olhar. Não sei se algumas técnicas funcionam. Existem métodos para você conseguir atingir seu emocional que são bacanas, mas curso mesmo de interpretação não acredito muito”, opina.

Ele prefere fazer cinema muito mais que novela e acredita que o reconhecimento do cinema brasileiro lá fora esta crescendo muito. Vinícius parece também ser pé quente quando o assunto é indicação a prêmios internacionais. “Central do Brasil” concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro e agora “Linha de Passe” concorreu a Palma de Ouro em Cannes. Com isso o garoto nascido em Bonsucesso, subúrbio do Rio, aproveita para viajar e conhecer muitos lugares. “Depois de aplausos, choros e prêmios, eu digo: agora é a vez de aproveitar”, conta.

Quanto ao reconhecimento nacional, Vinícius opina: “A gente está na terceira marcha. Precisamos que as pessoas vão mais ao cinema. E também de filmes brasileiros bons”, diz. Segundo ele, existe uma safra boa de filmes, mas nem todos chegam ao cinema e os que chegam nem sempre são tão bons assim. Mas com filmes como “Central do Brasil”, “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” entre outros, Vinicius acredita que esse panorama tem mudado. “Acho que agora a gente está num momento bacana”, acrescenta.

Para criar Dario, o flamenguista apaixonado que treinou na escolinha de Zico por quatro anos e por um mês nos juniores do Palmeiras e do Santo André, Vinicius fez da bola uma companhia constante. E conviveu por uma semana com sua "nova família", que mantém contato até hoje. Experimentou parte da alma e da luta daqueles brasileiros, como a gritaria de um vizinho que afirmava ter tido a lixeira roubada.

- Minha maior preocupação foi como jogar futebol de uma maneira que não parecesse falsa. Procurei treinar bastante para que isto não ocorresse – disse.

O filme é a quarta co-direção de Walter Salles e Daniela Thomas. Retrata a família de Cleuza (Sandra Corveloni), seus quatro filhos e seus dilemas, como a busca pelo pai e o uso da religião como refúgio. Cleuza luta para manter os filhos na linha em uma cidade violenta.

Quando a película conquistou o prêmio de Melhor Atriz (Sandra Corveloni) e concorreu à Palma de Ouro no 61º Festival de Cannes, acentou-se a expectativa em torno do filme que estréia este fim de semana no Brasil. Vinicius encara o reconhecimento com sabedoria e entusiamo. Faz planos audaciosos:

- Quero estagiar por trás das câmeras no fim do ano. Vou fazer um filme com Sérgio Machado, que é “A morte e a morte de Quincas Berro D'água”, pela Vídeofilmes - revela.