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Rio de Janeiro, 13 de julho de 2024


Cidade

Em tempos de modernidade, cartas mantêm seus seguidores

Maria Christina M. Corrêa - Do Portal

29/04/2013

 Arte: Maria Christina Corrêa

“Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com a carta na mão...”. Desde que Cícero Nunes e Aldo Cabral imortalizaram, em 1946, a clássica profissão do carteiro com sua bolsa gritando no portão das casas, muita coisa mudou neste cenário. Hoje, além de não gritarem mais o nosso nome, não há mais portões, e os carteiros, que costumavam fazer suas entregas a pé, agora estão equipados de carrinhos, motos e bicicletas, uma vez que dentro da tradicional bolsa o que se tornou predominante são as encomendas e compras feitas online: apenas nos últimos dois anos, o volume de mercadorias cresceu 389%, de acordo com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que quase triplicou sua equipe (um acréscimo de 170%) para dar conta do serviço.

Os Correios são responsáveis pela entrega de 40% de tudo que é vendido pela internet no Brasil: a cada dia, 36 milhões de objetos são entregues em todos os municípios do país. Para isso, 59 mil carteiros, juntos, percorrem diariamente cerca de 397 mil quilômetros, o equivalente a quase 10 voltas ao redor da Terra. Entregas de encomendas do e-commerce, telegramas e cartas via internet, que eram 8,2 bilhões em 2009, subiram para 9,03 bilhões em 2012, 830 milhões a mais em apenas quatro anos.

Mas, ao contrário do que se pode pensar, a tecnologia não calou os apaixonados pelas tradicionais cartas. O volume de correspondências manuscritas enviadas se manteve estável, e estima-se que na última década houve uma redução de apenas 8%, em nível mundial. No Brasil, os Correios só passaram a classificar a natureza das correspondências em 2010, quando foram remetidas 2.201.987.095 cartas simples – de pessoas físicas e jurídicas, não incluídos boletos de cobrança, faturas, mala direta. E em 2012 o volume foi ainda maior: 2.204.070.778 – ou seja, 2 milhões a mais.

A dentista Gabriela Dallagnol, de 26 anos, é uma das pessoas que não pararam de escrever cartas na era digital. A catarinense  tinha 9 anos e morava em Concórdia (SC) quando começou a escrever cartas para seu avô, que vivia em Florianópolis, a 493 quilômetros de distância. Quando ela se mudou para a capital, a necessidade de cartas acabou, mas a menina foi atrás de novos correspondentes, curiosamente nas redes sociais.

 Arquivo pessoal Gabriela criou uma caixa postal e atualmente se corresponde com cerca de 30 pessoas do mundo inteiro, incluindo Brasil, Inglaterra, Bélgica, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Dinamarca e Itália. Cada vez que vai ao correio, de 15 em 15 dias, envia cerca de 15 cartas – ou seja, mantém uma média de uma por dia, 365 por ano.

– O mundo das cartas me proporcionou amizades e ótimas histórias. Já troquei cartas com muita gente, e nesse tempo muitas pessoas vão parando por falta de tempo, problemas de saúde, problemas financeiros etc. Eu mesma já parei por um tempo por causa da faculdade, mas senti muita falta e retornei com a escrita, e não parei mais.

A catarinense, que se considerava tímida, encontrou nas cartas uma maneira de fazer amigos, considerados tão importantes quanto os que moram perto. Já teve a oportunidade de conhecer três correspondentes:

– Todos os encontros foram muito legais, com muitas fotos. Uma das minhas correspondentes até veio na minha formatura.

A paixão é tanta que em 2012 criou o blog Mundo das Cartas, com a ajuda de uma amiga correspondente. O blog dá dicas de sites para comprar envelopes personalizados, e uma área chamada Clube Mundo das Cartas.

– Procuro interagir com os leitores fazendo sorteios e abrindo espaço para relatos e histórias. Diversifico os assuntos, mas todos com o tema relacionado a cartas. Agora está rolando um concurso de cartas decoradas.

Desde então, Gabriela já perdeu as contas de quantas cartas já trocou e guarda parte das cartas que recebe em um móvel feito sob medida na casa dos seus pais. Cheia de histórias para contar e com muitos correspondentes inusitados, Gabriela brinca que suas histórias – e a de seus colegas – dariam um livro:

– Comigo nunca rolou nenhum romance, nem procuro isso nas cartas, apenas amizades. Mas já tive correspondente que queria me “conquistar” (palavras dele), e um que era casado com uma mulher que conheceu através das cartas. Arquivo pessoal

Segundo ela, para os homens, fazer parte deste meio é mais difícil devido à dificuldade de encontrar correspondentes, uma vez que muitas mulheres não trocam cartas com homens, seja por ter um namorado ou marido que não permite ou por se sentirem mais à vontade para conversar com outras mulheres. Por isso, as mulheres são maioria nesse meio.

Embora acredite que não haja perigos em se corresponder com desconhecidos, Gabriela prefere usar uma caixa postal e por isso tem pouco contato com carteiros. Mas fez uma amizade nos Correios:

– Quando fui criar a caixa postal, fui atendida por um funcionário dos Correios que coincidentemente havia sido meu paciente na clínica. No mesmo dia, recebi um e-mail no blog, e era desse funcionário, me perguntando se eu era a moça que tinha ido ao Correio naquele dia. Ele havia encontrado o blog e achado legal, e achou coincidência uma Gabriela, de Florianópolis, que escreve cartas. Mundo pequeno, pois eu nunca tinha falado a ele sobre o blog, que devia ter uns três, quatro meses. Achei bem engraçado tudo isso! Nos falamos sempre que eu vou ver a caixa postal.

Confiança continua alta, mas queixas aumentaram

Segundo pesquisa da GFK, quarta maior empresa de pesquisa de mercado do mundo, a profissão de carteiro, o mensageiro de boas e más notícias, é a segunda mais confiável no país e a quarta mais confiável do mundo, realizada no Brasil, Estados Unidos e na Europa, divulgada em 2009. Os carteiros brasileiros têm 90% de confiabilidade, ficando na frente de médicos e professores, atrás apenas dos bombeiros.

“Arrebente e estafe quantos cavalos necessários, mas entregue a carta com toda a urgência”, recomendava José Bonifácio de Andrada e Silva, conselheiro de Dom Pedro II ao primeiro carteiro do país, em 1831. Marcelo Dagne, 46, seguiu a orientação à risca por 27 anos. Hoje em setor administrativo, ele ri ao se lembrar de um colega a quem treinou para a tarefa de entregar telegramas. Explicou todas as regras e reforçou que, devido à urgência, tinham que ser entregues no máximo em três horas. O novato foi para a rua, mas só notou que tinha um telegrama em sua bolsa horas depois.

– Quando viu que tinha um telegrama e que estava longe do endereço, ele ficou desesperado. Parou, pensou e pegou um táxi para entregar a tempo. Ainda bem que ele conseguiu! – relembra Marcelo.

No entanto, ultimamente, o “meu carteiro” ou o “carteiro lá de casa”, que costumava ser uma figura simpática e facilmente adotada pela família, passou a ser alvo de muitas críticas daqueles que tiveram problemas com suas correspondências. Aquela profissão cheia de glamour e reconhecida em filmes como “O carteiro e o poeta” e “O carteiro”, já não é mais a mesma.

De acordo com o Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec), foram registradas 3.676 queixas no período de janeiro de 2006 a janeiro de 2010. Sendo que de 2008 para 2009 o número de queixas aumentou de 505 para 875, que equivale a um aumento de 73,26%. Gilvete Lobão, 63, já teve inúmeros problemas com suas correspondências. Fala com sua filha todos os dias pela internet, e, mesmo já tendo perdido muito tempo com o correio e nem sempre tendo suas cartas entregues, não deixa de mandar cartões para sua neta nos EUA.

– Já perdi documentos importantíssimos. É a terceira vez que estou enviando essa mesma carta, tenho urgência que a pessoa receba isso. É receita de um remédio para uma criança doente em Manaus. Mas mesmo assim gosto de mandar cartas para minha neta, pois acho importante que ela saiba que isso ainda existe, principalmente morando em um lugar que o correio é muito competente.

Norma de Azevedo, 72, teve a agência que costumava frequentar perto de sua casa fechada e está sendo obrigada a se deslocar um pouco mais para enviar seus embrulhos. Norma não está satisfeita com os quilômetros a mais e muito menos com o serviço prestado ultimamente pelo correio. Norma enfrentou uma fila com mais de 30 pessoas, com tempo de espera de 10 a 15 minutos, para enviar presentes e lembranças para sua filha em Madri.

– Esse é o problema de agência grande: sempre tem fila, às vezes vale mais a pena pegar senha comum do que a prioritária, pois a fila especial demora muito mais.  Preferia uma agência pequena, que era mais perto e mais vazia, mas fecharam.

De fato, os Correios estão fechando agências pequenas, e concentrando os serviços em grandes unidades, sob a alegação de criar uma padronização. A da Gávea, que funcionava na Rua Marquês de São Vicente, fechou em março, e agora as agências mais próximas são no Leblon ou no Jardim Botânico. Reprodução internet

Mesmo com problemas práticos e com toda a comodidade proporcionada pela tecnologia, a magia de enviar uma carta preserva seus seguidores. Marina Estevão, 20, estudante de Jornalismo da PUC-Rio, gostava de um menino de Belo Horizonte, que conheceu em uma comunidade nas redes sociais. Apaixonada e romântica, mandava cartas declarando seu amor para o menino, que não retribuía a carta e respondia pela internet. Os dois chegaram a se conhecer, mas a relação ficou só na amizade.

– Achava romântico e pensei que chamaria a atenção dele. Procurava nos livros inspiração para escrever minhas cartas. Mas, mesmo não tendo sido correspondida na primeira vez, ainda mandaria cartas para alguém por quem eu estivesse apaixonada.

Curiosidades

12.644 Agências de Correios

118.537 mil empregados com idade entre 31 a 40 anos

91.129 mil funcionários homens (76,88% dos funcionários)

23.556 mil funcionários trabalham lá em média por 11 a 15 anos

17 mil pontos de atendimento

59 mil carteiros (50,40% dos funcionários)

25 mil atendentes

20 mil veículos

1 milhão de km rodados por dia

36 milhões de objetos entregues por dia

5.565 municípios

19.862 funcionários em São Paulo Metropolitana

13.022 funcionários no Rio de Janeiro