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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Novos oásis de crescimento desafiam Brics

João Pedroso de Campos* - Do Portal

02/04/2013

 Arte: Nicolau Galvão

Desde que o presidente do banco de investimentos Goldman Sachs, Jim O'Neill, reuniu Brasil, Rússia, Índia, China – e depois a África do Sul – no grupo econômica e politicamente mais promissor do mundo, o Brics tornou-se a menina-dos-olhos de grande parte dos negócios internacionais. De 2001, quando o termo foi cunhado, para cá, estes cinco países emergentes, que já correspondiam a 25% do território do planeta, concentraram 42% da população mundial, acumularam um Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas produzidas) de US$ 14,66 trilhões e passaram a responder por 33% da produção industrial do mundo, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Contudo, depois de uma década de crescimento contínuo, O'Neill e os investidores viram-se num novo cenário. O aumento do custo do trabalho na China e as dificuldades estruturais em Brasil, Índia e África do Sul abriram espaço para que um outro grupo, formado por México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia, o Mist, seduzisse o mercado e, embora sem o poder político das potências emergentes superpopulosas, acumulasse um PIB de US$ 4 trilhões em 2012.

Embora analistas considerem prematuro dimensionar o peso dessa sombra nos Brics e no tabuleiro mundial, os recentes movimentos exigem reflexões sobre as mudanças geopolíticas e econômicas insinuadas, digamos, pelos queridinhos. Para o economista Luiz Carlos Prado, professor da UFRJ, a "grande envergadura política do Brics" deve faltar ao Mist, pois México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia, observa ele, revelam-se “mais heterogêneos que os Brics”. donos de afinidades como grandes extensões territoriais e densas populações.

– A exceção é a África do Sul, que foi um caso muito político. Brasil, Rússia, China e Índia são países populosos e extensos. Você consegue, de alguma maneira, articulá-los em torno disso. O Mist não faz tanto sentido como um grupo articulado politicamente. As afinidades são as oportunidades para investimento – compara.

Apesar de alguns indicadores, a exemplo da temida inflação, já apontarem uma recuperação parcial das economias de Brasil e China, a coordenadora geral do BRICS Policy Center Adriana Abdenur acredita que a incerteza sobre a desaceleração que frustrou investidores no passado ainda turva a perspectiva de o grupo recuperar logo o prestígio e o volume do capital estrangeiro. O aumento do Custo-China, a falta de investimentos em infraestrutura no Brasil e as dificuldades da Rússia em relação ao mercado europeu têm se somado, segundo a especialista, à escassez de investimentos provenientes de Estados Unidos, Europa e Japão. O reflexo foi a queda, no ano passado, de US$ 18 bilhões (6%) nos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) nos Brics, estima a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Por outro lado, ainda no ano passado, os Brics concentraram de 20% de todos os IED no mundo. 

– Alguns fatores são específicos de cada Bric, mas é claro que a conjuntura também afeta. Esses países não são autônomos economicamente, eles se encontram num contexto de interdependência assimétrica. Portanto, ainda que não tenham sido afetados pela crise econômica global na mesma proporção que os Estados Unidos e a Europa, também sofrem com o enfraquecimento da demanda dos países do Norte, assim como a escassez dos investimentos americanos, europeus e japoneses – avalia a pesquisadora.

Mesmo com o aumento no custo de suas indústrias decorrente de reformas trabalhistas, a China mantém-se como carro-chefe do Brics e locomitiva da economia mundial. Apesar da redução no ritmo, ostentou, no ano passado, crescimento de 7,8%, seguida por Índia (+ 5%), Rússia (+ 3,4%), África do Sul (+ 2,5%) e Brasil (+ 0,9%). Para os analistas, as taxas distintas espelham particularidades estruturais e conjunturais. 

"O Brics é uma metáfora que vale a pena", sintetiza pesquisador

 Arquivo Portal PUC-Rio O também pesquisador do BRICS Policy Center Pedro Cunca Bocayúva (foto) afirma que os diferentes estágios de urbanização estão entre os principais causadores da discrepância entre os níveis de crescimento. Para o especialista, demografias que passam atualmente pelo êxodo rural – como as da China, cuja população urbana só ultrapassou a rural em 2012, e da Índia, onde 70% dos habitantes viviam na zona rural em 2010 – são as raízes dos expressivos avanços de 7,8% e 5%, respectivamente. “O Brasil cresceu 10% ao ano enquanto se urbanizava”, lembra o professor. Ainda conforme Bocayúva, estas e outras distinções estruturais não excluem, todavia, exemplos e lições extraídas dos Brics para outros países intermediários, entre eles os componentes do Mist.

– Os crescimentos chinês e indiano são amparados pelo processo de urbanização. O Brasil não tem taxas de crescimento tão altas por uma razão óbvia: já é um país urbano mediado por formalização da economia, consumo interno e qualidade dos serviços, bens públicos e da ação do Estado. Apesar das diferenças e dos estágios de crescimento, o mundo descobriu com os Brics que vale a pena fazer arquiteturas institucionais de cooperação. Todos viram o poder de articulações dos países intermediários. O Brics é uma metáfora que vale a pena. 

A afirmação de que "valem a pena arquiteturas institucionais" justifica-se, por exemplo, pelo Contingency Reserves Arrangement (CRA), fundo aprovado, semana passada, na 5ª Cúpula do Brics, na África do Sul, uma espécie de proteção às economias contra a crise. Também pode ser entendido como fruto do instinto de preservação útil a um mercado que, embora intensifique o flerte com México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia, ainda conta com China, Índia, Brasil, Rússia e África do Sul para espantar os ventos da retração.

Se por um lado os dois asiáticos do grupo sustentam os indicadores de crescimento mais proeminentes, as posições não se repetem quando se divide o PIB de ambos pelas respectivas populações. Neste caso, Brasil (US$ 11,6 mil), Rússia (US$ 16,7 mil) e até a caçula África do Sul (US$ 11 mil) apresentam PIB’s per capita maiores que os de China (US$ 8,4 mil) e Índia (US$ 3,7 mil). Por isso, Cunca Bocayúva alerta: “quantidade não significa necessariamente qualidade” quando se trata de crescimento. Um recado que fala alto às pretensões brasileiras de chegar na elite econômica e política mundial, e lá se manter. Investimentos em infraestrutura e qualificação profissional, destaca o  professor, variáveis importantes por trás das cifras do FMI e dos Bancos Centrais.

– O crescimento não é vantajoso em si. Há vantagem numa estrutura de desenvolvimento. Crescer não significa transformar o social ou distribuir. A Índia é exemplo: o crescimento não foi necessariamente produtor de quantidade de empregos. Estágios de crescimento não significam qualidade de crescimento. É isso que aprendemos com o Brasil, que cresce pouco, mas tem emprego, consumo e elementos distributivos – compara.

“Ressaca do crescimento” no Brasil lança México aos holofotes

Considerados por especialistas como menos burocráticos e mais espremidos geopoliticamente que os Brics, México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia são vistos por investidores como melhores ambientes para se investir. Na “avaliação de ambiente de negócios” do FMI e do Banco Mundial, em que recebe a melhor nota quem mais se aproxima de 1, a nota média do Mist é 65, enquanto a do tradicional grupo de emergentes é 100.

Outras características do Mist são altas taxas de crescimento, disciplinas fiscal e monetária, promoção do ambiente de negócios por meio de segurança jurídica e abertura ao mercado internacional. Todavia, os “novos emergentes” têm pouco em comum, enfrentam problemas políticos – como os referentes às fronteiras e ao narcotráfico – e econômicos – como as dependências mexicana e indonésia no setor de matérias-primas, um dos mais afetados pela crise mundial.

Decano do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio, o economista Luiz Roberto Cunha (foto) vê como trunfos dos integrantes do Mist as "boas estruturas político-econômicas", semelhantes às dos Brics, e a saturação da capacidade de crescimento de economias mais avançadas, como a americana e a europeia, o que "abre espaço para outros atores no mercado mundial". Para Cunha, o México, apesar do cordão umbilical com a economia dos Estados Unidos e o Tratado Norte Americano de Livre Comércio (Nafta), cresce como alternativa ao Brasil para os investidores na América Latina:

– O México possui uma estrutura econômica muito sólida. Há uma dependência grande à economia americana, mas os mexicanos têm tido uma capacidade de crescimento mesmo com os americanos em crise. Na Indonésia, as transformações partem do seu grande mercado interno, que, num país com taxa de crescimento alta, atrai investimentos internacionais. A Coreia é um país muito mais desenvolvido que todos os Brics. Tem tecnologias, é exportadora de produtos de alta qualidade. E a Turquia tem uma economia forte, embora sofra, assim como o Brasil, efeitos negativos de políticas monetárias e inflação forte.  Arquivo Portal PUC-Rio

O México deve consolidar até dezembro as reformas fiscal, energética e de telecomunicações. A intenção do governo de Enrique Peña Nieto é completar o ciclo de investimentos em infraestrutura e privatizações que se iniciou nos anos 1990 e rende bons frutos à economia mexicana, cujo crescimento neste ano deve manter os 4% de 2012. O país ainda deve ser o maior beneficiário da valorização do yuan frente ao dólar e do aumento do preço da mão de obra chinesa, pois absorverá grande parte da produção americana vinda das fábricas da China em busca de custos baixos. Nesse cenário, as comparações com o Brasil são inevitáveis quando se fala em influência na América Latina e nos negócios com os Estados Unidos. Adriana Abdenur considera a dependência do México em relação aos americanos um ponto favorável ao Brasil, que reúne mais parceiros econômicos: 

– O vínculo entre a China e o México cresce bastante, mas isso também ocorre com o Brasil. Os dois países enfrentam o desafio da simetria na relação com a China, mas isso não representa necessariamente o enfraquecimento da posição brasileira dentro da América Latina. Até porque o México, muito mais que o Brasil, está vinculado à economia americana. O Brasil tem diversificado cada vez mais os seus parceiros econômicos, e o padrão de comércio do Brasil ainda difere bastante do comércio mexicano.

Luiz Carlos Prado também aponta as diferenças entre os perfis de Brasil e México como favoráveis ao país sul-americano: 

– São situações diferentes. O Brasil tem uma posição geoestratégica na América do Sul pela sua posição muito independente em termos de política internacional. Não vejo a menor possiblidade do México fazer um contraponto ao Brasil nesses termos, embora seja um país importante na chamada hiper-américa.

Em região tensa, Coreia do Sul aposta na qualificação e na tecnologia

A Península da Coreia é palco de uma Guerra Fria desde que o conflito na região chegou ao fim, em 1953. O norte, socialista e de certa forma obscuro, faz ameaças nucleares ao sul, capitalista e desenvolvido, que se defende com o apoio dos Estados Unidos. Foi nesse ambiente tenso que a Coreia do Sul desenvolveu um dos sistemas educacionais mais eficientes do mundo, se industrializou, cresceu em média a taxas de 4% ao ano na última década e chegou a um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,909, o 12º no mundo, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Entretanto, assim como a economia mexicana está ligada à americana, a coreana vincula-se ao mercado chinês e à política dos Estados Unidos. Bocayúva define a Coreia do Sul como "pura Guerra Fria com tecnologia e educação":

– A Coreia tem muita coisa a ensinar. Fez um brutal desenvolvimento de força de trabalho e algumas saídas científicas e tecnológicas. É um exemplo da ultra fronteira geopolítica, geoeconômica e geocultural asiática e das alianças americanas. Não há, contudo, a mesma autonomia estratégica de países centrais. A Coreia é adequada à hegemonia atual no sistema internacional. Ela segue as margens do ocidente. É um país de grande dinamismo, mas de precária autonomia.  

A pesquisadora do BRICS Policy Center acrescenta que a Coreia do Sul apresenta um "modelo promissor" e de laços comerciais diversos. Adriana Abdenur ressalta a expansão dos vínculos da Coreia na América Latina – o país asiático mantém Tratados de Livre Comércio com Chile, Peru e Colômbia – e a agressividade da vizinha do Norte, que recentemente reforçou o discurso beligerante e declarou "estar em guerra contra Seul".

– No Brasil, temos o costume de falar do papel da China na América Latina, mas a Coreia do Sul tem aumentado seus vínculos em outras regiões. Entretanto, um fator de preocupação da Coreia do Sul é a instabilidade política na Península Coreana, sobretudo com o comportamento recente da Coreia do Norte, que assume um comportamento mais agressivo, representando uma ameaça à Coreia do Sul à medida que seu modelo econômico parece bastante sólido e capaz de se adaptar às condições dinâmicas da conjuntura.

O que os Mists têm

México:

Prós: Maior desprendimento para se investir, com facilidades jurídicas e iminentes reformas em áreas estratégicas. Deve beneficiar-se com a desvalorização da moeda chinesa, o yuan, frente ao dólar e atrair indústrias americanas de volta ao país.

Contras: O país está completamente articulado com a economia americana. Se a economia dos Estados Unidos vai bem, o México vai bem, se vai mal, os mexicanos vão mal. Ainda há grande dependência de produtos primários.

Indonésia:

Prós: População predominantemente de jovens, baixo custo de produção, mão de obra barata e qualificada e evolução democrática.

Contras: Peso excepcional de produtos primários na economia, dinamismo inferior aos países do Brics e do Mist.

Coreia do Sul:

Prós: Mão de obra qualificada, tecnologia disponível e barata, baixos impostos, produtos com mais valor agreagado.

Contras: Mão de obra mais custosa, dependência excessiva da China.

Turquia:

Prós: Posição estratégica entre o Oriente e o Ocidente, sólidas instituições financeiras, posição mais independente entre os Mists.

Contras: Geopoliticamente comprimida, dificuldades com políticas monetárias em relação à Europa e inflação pesada – chegou a 10% em março de 2012.

* Colaborou Marina Chiarelli