Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Crítica de Cinema

'A caça' combina horror e graça em produção caprichada

Miguel Pereira* - Do Portal

31/03/2013

 Divulgação

No filme A caça, do dinamarquês Thomas Vinterberg, aparecem duas cenas de caçadas bastante intrigantes. Se de um lado mostram uma tradição interiorana da cultura nórdica, de outro têm um apelo simbólico e ritualístico. A construção dessas sequências se corporifica num espaço cênico que vai além da história narrada. Abre-se para a dimensão de um cinema do gênero fantástico, misturado ao horror. E o que se vê na tela é exatamente uma espécie de história de horror vivida por um personagem caçado e violentado por seus próprios amigos.

Surpreende o espectador a presença de uma criança no meio de toda essa trama macabra. Mas, não é a primeira vez que crianças aparecem, no cinema, como manipuladoras dos sentimentos e das ações dos adultos. Lembro aqui o belo filme de Jack Clayton, Os inocentes, de 1961, baseado no famoso romance A volta do parafuso, de Henry James, onde três crianças infernizam a vida de uma governanta. Pode-se ainda pensar no O exorcista, de William Friedkin, de 1973, em que uma adolescente se apresenta como motor da uma horrorosa possessão. Ou ainda em O iluminado, de Stanley Kubrick, em que uma criança com poderes e visões extraordinárias ilude o próprio sentido das cenas, aportando novos e intrigantes sentidos ao filme. Não é improvável que A caça, consciente ou inconscientemente, tenha em sua narrativa essas ou outras referências. Sem dúvida, o cinema dinamarquês tem uma tradição clássica desse tipo de abordagem mais simbólica. Basta lembrar Carl Dreyer, que, no conjunto da sua obra, o simbolismo da vida assume um caráter quase religioso. Portanto, Thomas Vinterberg está em ótima companhia e seu filme se associa a uma reflexão bastante instigante.

Vinterberg ficou mais conhecido por Festa de família, de 1998, uma espécie de obra-manifesto do chamado “dogma dinamarquês” que ele assinou, em 1995, com seu conterrâneo Lars Von Trier e outros adeptos dos mesmos princípios da produção cinematográfica. A caça nada tem a ver com o “Dogma 95”. É uma produção cuidadíssima e com uma precisa descrição antropológica do ambiente social onde a história se passa. Tempo e espaço são cuidadosamente concebidos como integrados a uma mesma finalidade, o detalhamento de uma narrativa ambígua e cheia de sutilezas e possibilidades interpretativas. Se o mal está presente, o bem também está. O calvário de um não é o céu dos outros. Não há redenção no sentido da transcendência, pois a criança causadora do mal também alcança a graça de ser acolhida pelo sofredor. A passagem final pelas linhas entrelaçadas no colo amoroso do acusado é um belo momento em que o horror se transforma em perdão e graça. Há esperança, enfim.

Um filme aparentemente de fácil apreciação, A caça apresenta ao espectador um cinema moderno que entrelaça gêneros e busca uma observação mais apurada do comportamento humano. É para ver com atenção e espírito aberto para suas camadas de sentido que precisam ser percebidas e discutidas, como convém aos bons filmes.

*Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.