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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

'Céu sobre chuva', de Guarnieri, 40 anos depois

Marianna Fernandes - Do Portal

21/03/2013

 Divulgação: Guga Melgar

Num domingo chuvoso, o elenco de Céu sobre chuva ou Botequim fez, no palco do Centro Cultural dos Correios, o último ensaio antes da estreia, nesta quinta-feira, 21. Quarenta anos após a montagem original da peça escrita por Gianfrancesco Guarnieri (1936-2006), os atores tomaram seus lugares no botequim em que dez pessoas ficam presas durante um intenso temporal que assola a cidade. Dentro do bar, os personagens tentam manter um clima festivo para não dar espaço ao medo, diante da escassez de notícias do lado de fora, que chegam esparsas e desencontradas.

Céu sobre chuva ou Botequim, assim como toda a obra de Guarnieri, denuncia problemas sociopolíticos. Por metáforas, o autor permeava sua obra com denúncias. Em 1973, o temporal simbolizava a repressão vivida na ditadura, e os personagens confinados no bar seriam uma alegoria dos subversivos em busca de proteção.

Idealizadora do projeto, a atriz e produtora Márcia do Valle explica que, além de relembrar a obra de Guarnieri, a volta do espetáculo é também uma homenagem à sociedade da década de 70:

– Para mim não deixa de ser uma comemoração e homenagem a esses homens e mulheres que abriram os caminhos e falaram de democracia através do teatro.

Um dos marcos da carreira do autor, Eles não usam black tie, primeira peça nacional a abordar uma greve de operários, encenada em 1958, foi também a inspiração de Márcia.

– A primeira peça que li quando estudava teatro foi Eles não usam black tie, e tive o impacto que todos tiveram. Quando resolvi comprar os direitos de uma peça, sabia que seria um texto de Guarnieri, de quem sou muito fã – conta Márcia, que escolheu para apresentar às novas gerações um texto menos conhecido entre as mais de 20 peças escritas pelo autor.

Para marcar a importância histórica da montagem original, Márcia convidou o diretor Antonio Pedro Borges, responsável pela primeira versão. Antonio Pedro acredita que a peça é atual, embora em outro contexto. Para o diretor, a tempestade hoje representa uma mídia manipuladora e a falta de liberdade do cidadão:Divulgação: Guga Melgar 

– Hoje não temos mais a repressão política, mas em compensação estamos vigiados, em nome do politicamente correto: churrasquinho de rua não pode, mas hambúrguer de fast food sim. E a mídia desinforma o público em nome de interesses próprios. Aquilo que é publicado pelos grandes meios de comunicação, em geral, não corresponde à opinião pública.

Os personagens construídos em 1973 – a dona do bar, seu marido, três amigos bêbados, um casal de estudantes, uma freguesa, um trabalhador e um homem de terno com uma criança no colo – também se adaptaram à atualidade, explica o diretor:

– Não existe mais o estudante revolucionário, mas há hackers, por exemplo. Eles são reprimidos fortemente, como o rapaz americano que se matou porque ia ser processado pelo Estado (o ativista Aaron Swartz, aluno de Harvard e um dos criadores site de compartilhamento de informações Reddit, que cometeu suicídio aos 27 anos, após ser acusado de roubar e compartilhar arquivos dos servidores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT).

A metáfora, característica dos textos da época, funcionou para driblar a censura. Surpreendentemente, o espetáculo, um musical, não teve problemas com a censura e, depois da temporada no Teatro Princesa Isabel, em Copacabana, chegou a viajar o país. A explicação é que censores e mesmo o público não captaram a mensagem subliminar.

Na semana em que mais um temporal devastou várias cidades do estado, com dezenas de vítimas, Marcia afirma que a tempestade do espetáculo, hoje, pode ser compreendida de diversas formas:

– Hoje, para mim, representa os teatros cariocas fechados pela prefeitura, a corrupção, as tragédias anunciadas, enchentes, a matança de jovens, a milícia, as guerras, a opressão das classes menos favorecidas, as obras maquiadas.

Céu sobre chuva ou Botequim. Quinta a domingo, às 19h. Teatro do Centro Cultural Correios, Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro (2253-1580). R$ 20 e R$10 (meia entrada). Bilheteria: (2219-5165), de 4ª a domingo, das 15h às 19h. Temporada: 22 de março a 5 de maio de 2013.