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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Crítica de Cinema

Um conto moral contemporâneo de Ken Loach

Miguel Pereira*

18/03/2013

 Divulgação

Existe, no Brasil, o costume de dar ao santo o primeiro gole da cachaça. Esse gesto, popularíssimo entre os bebuns, adquire uma certa sofisticação no último filme de Ken Loach, A parte dos anjos. Diz-se que esta é a parte do precioso líquido escocês que evapora. Mas, no filme, é também a partilha de quatro garrafas retiradas, na calada da noite, de um barril de uísque, por quatro jovens em processo de regeneração social, a ser leiloado, por uma astronômica fortuna, no dia seguinte. É a saída encontrada para um contexto de decadência e crise. Na verdade, a metáfora que está presente no sentido mesmo do título do filme, isto é, a divisão de um bem entre os anjos decaídos, é também a possibilidade de saída da situação de opressão. A dinâmica da narrativa de Ken Loach é extremamente fiel à sua maneira de fazer cinema. Aqui, a estrutura é a de um conto moral contemporâneo. O cineasta inglês não abre mão de questionar os valores de uma Europa sem rumo e ao mesmo tempo busca alternativas sonhadoras, quase utópicas.

Os personagens de A parte dos anjos não se dividem entre os bons e os maus, num maniqueísmo radical. Formam um conjunto humano que alterna ações escusas com gestos de generosidade e compreensão. Todos estão pressionados por situações que oscilam em função de uma crise difusa que corrói o caráter de todos. Os que estão dentro sistema e os dele excluídos participam da mesma desordem e têm o seu grau de culpabilidade apontado e distribuído em quinhões. A parte dos anjos é a mais simpática. São eles que protagonizam a narrativa, com especial destaque para o jovem pai e líder do grupo. Mas, sem dúvida alguma, o cuidador comunitário é uma espécie de entidade transcendente, ou se preferirem, uma fada madrinha desse grupo errante em busca de saídas para as próprias existências. Não tem vara de condão, mas os leva com a sabedoria de um anjo mais velho e experiente. É um pai simbólico que se realiza no processo de mudar os destinos à beira do precipício. É como se fosse a voz de Deus que aparece no início do filme à Frank Capra, como muito bem observou a professora Angeluccia Habert, da PUC-Rio.

Às vezes engraçado, outras, rude e extremamente realista, A parte dos anjos entra na filmografia de Ken Loach como um conto que aponta para a perspectiva de uma saída para a crise em que vivemos. Sua moral não é apenas uma questão de esperteza ou oportunidade agarrada. Esta é casual e dentro de um contexto de fábula. O que ele diz mesmo é que precisamos nos entender como participantes de um espaço comum, além das fronteiras, que nos interpela e conclama para valores menos individualistas e mais atentos ao outro.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.