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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Crítica de Cinema

Kathryn Bigelow investiga a corrupção dos sentimentos

Miguel Pereira* - Do Portal

11/03/2013

 Divulgação

Primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Diretor por Guerra ao terror, na festa de 2010, Kathryn Bigelow se afirmou como uma cineasta empenhada na discussão de temas polêmicos e territórios em conflito. Se o Iraque era o espaço principal das ações dramáticas do filme que lhe rendeu um prêmio inédito na história do Oscar, são o Afeganistão e os lugares de tortura que compõem os cenários mais presentes de seu novo filme, A hora mais escura. Ao abordar esses temas, não delimita fronteiras entre o feminino e o masculino. Significa dizer que seu sentimento estético aboliu esses termos que se tornaram chavões fora de moda. A arte é apurada, sentida, percebida e analisada segundo critérios socialmente convencionados e culturalmente validados. Não causa, portanto, qualquer estranhamento que Kathryn Bigelow tenha buscado uma composição dramática onde as ações principais são protagonizadas por homens treinados para atuar como agentes da violência institucionalizada. E é em parte por isso que seu filme, embora concorrente a várias categorias dos prêmios da Academia Hollywoodiana, tenha sido simplesmente ignorado.

O episódio que ele narra, o assassinado de Bin Laden, poderia ser palco para a euforia xenofóbica americana, uma vez que era considerado o inimigo número um da nação. Isso acabou ficando com Argo, de Ben Affleck, com direito, inclusive, durante a festa do Oscar, ao anúncio de melhor filme feito da própria Casa Branca, pela primeira-dama Michelle Obama. A hora mais escura não é uma obra de adesão ufanista. Ao contrário, deixa no ar fortes questionamentos sobre os métodos utilizados nessa ação e sua verdadeira eficácia para aplacar o terror mundial.

A própria atuação da sua personagem central, que leva às últimas consequências suas suspeitas do lugar onde Bin Laden estaria escondido, é um indício claro de que o poder corrompe os sentimentos humanos. A vida fica assim restrita a uma obsessão, e não ao prazer e à joia de fruir o cotidiano como uma benção da existência humana. É o profissionalismo levado às últimas consequências, uma característica das sociedades contemporâneas. A ética é vista no filme como componente essencial para um mundo em que paz não se torne apenas uma figura de retórica. Este é um apelo que incomoda e nos faz pensar. Não são apenas as estruturas de poder que nos conduzem, mas as afirmações e atitudes pessoais que muitas vezes colocam em risco a convivência positiva que todos desejamos para a humanidade.

O título brasileiro, A hora mais escura, contém uma metáfora clara de um episódio que ainda está na penumbra tanto em suas causas como em suas consequências. A contribuição de Kathryn Bigelow deve ser lembrada, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, como algo que transcende os gêneros, por ser uma obra da arte cinematográfica com todos os seus elementos de qualificação.

* Professor da PUC-Rio e crítico de cinema.