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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


Economia

Circulação de jornais é recorde em plena era da internet

Gabriel Camargo, João Pedroso de Campos e Renan Rodrigues - Do Portal

04/03/2013

 Maria Christina Corrêa

Num mundo em que cerca de 2 bilhões de pessoas (segundo o Internet World Stats), 20 milhões deles brasileiros (pelo Datafolha), usam as plataformas digitais diariamente em busca de informação, a extinção dos meios tradicionais de informação há tempos era dada como certa. Mas o bom e velho jornal de papel, após forte queda no início da década, superou as expectativas, vem recuperando seu espaço com um crescimento constante desde 2009 e administra bem o relacionamento com a web. Em 2012, a circulação média de jornais pagos auditados pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) chegou a 4,52 milhões de jornais no país (gráfico abaixo), uma marca histórica. E, de acordo com estimativa da Associação Nacional de Jornais (ANJ), a circulação nacional bate 8,802 milhões de exemplares, incluindo gratuitos e não auditados pelo IVC.

Em média, no Brasil, os jornais pagos tiveram um crescimento de 1,8% em relação a 2011 (gráfico abaixo). Naquele ano, o líder em média de circulação no país foi o Super Notícia, de Minas, com 293,5 mil exemplares por dia. Embora ainda não tenha recuperado a marca histórica de 2002, quando chegou aos 346,3 mil exemplares/dia, a Folha de S.Paulo assumiu a liderança com 297,6 mil em 2012. Mas é preciso considerar o aumento no número de publicações em circulação no Brasil, que dez anos atrás era de 2.684 e hoje quase dobrou, para 4.214.

 Maria Christina Corrêa Nos Estados Unidos a situação é a inversa, com os jornais perdendo espaço para as mídias digitais. Mais da metade (54%) dos adultos americanos usam aparelhos digitais para ficarem por dentro das notícias e 23% usam dois aparelhos para ficarem informados. E a indústria dos jornais impressos teve uma queda de 43% desde 2000. Para o diretor-executivo da ANJ, Ricardo Pedreira, essa é uma situação comum nas nações de primeiro mundo, enquanto nos países emergentes o cenário é de expansão:

– O Brasil tem uma situação específica no mercado global de jornais. Enquanto nos Estados Unidos e na Europa a circulação vem caindo, em países como Rússia, China e Índia esse é um mercado a ser conquistado. O aumento do poder aquisitivo, uma melhor distribuição de renda, a economia crescendo e novos consumidores surgindo, com um número maior de pessoas se alfabetizando, por exemplo, acabam refletindo nos leitores de jornais. Basicamente é isso que tem beneficiado o crescimento dos jornais impressos nos últimos anos.

Pedreira ainda destaca a importância das novas plataformas, mas reitera a possível expansão do mercado consumidor dos impressos:

– O jornal digital é cada vez mais importante, sobretudo no Brasil, e pode até ser que no futuro tenha a mesma relevância, mas acho que de alguma forma vai existir algum consumidor do jornal impresso, ainda vai ter público. Ainda tem campo para crescer, existem grandes contingentes da população que podem vir a ler jornal.

 Maria Christina Corrêa De qualquer forma, as mídias digitais estão cada vez mais presentes no dia a dia do consumidor e refletem a corrida das grandes empresas jornalísticas à adaptação de um modelo digital para suas publicações: dos 100 jornais auditados pelo IVC, 24 já têm versão digital. O jornalista Pedro Dória, editor-executivo de Plataformas Digitais de O Globo, acredita na sintonia entre as duas mídias:

– O jornal impresso e o digital já são complementares, mas não só eles. Os celulares, a televisão, o rádio, as revistas também. Cada um oferece um modelo de informação adequado ao momento do leitor.

Coordenador e professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Leonel Aguiar também descarta a possibilidade da extinção do jornal impresso e avalia que a plataforma digital potencializa o jornalismo já consolidado no país por “sólidas empresas jornalísticas”.

– Do mesmo jeito que a TV não acabou com o cinema e o rádio, a plataforma digital não vai acabar com os jornais impressos. Somente o avanço tecnológico, por si só, não substitui uma tecnologia mais antiga. É preciso ter fatores culturais envolvidos nisso para que haja mudanças. Eu acho que a plataforma digital veio a potencializar o jornalismo enquanto forma narrativa.

Cobrança de versão digital

Conectadas no valor das mídias digitais, as empresas têm investido em serviços na internet e nos cada vez mais comuns aplicativos para tablets e smartphones, como o O Globo, que lançou há um ano o vespertino Globo A Mais, exclusivo para assinantes da versão tablet. A cobrança para a leitura nos computadores ou dispositivos móveis tem sido tema de debates. O modelo conhecido como paywall poroso – iniciado pelo The New York Times em março de 2011 – é o mais comum, onde o leitor precisa pagar após determinada quantidade de textos lidos. Quando a publicação americana começou a cobrar pelo conteúdo, seu alcance na internet era de 40 milhões de usuários únicos por mês. O início das cobranças, todavia, derrubou o tráfego do site e a receita publicitária digital do jornal encolheu 8%. Embora ainda esteja abaixo do registrado antes do paywall, o número vem crescendo, já são 390 mil novos assinantes um ano após a implantação do modelo, o que mostra adaptação dos leitores.

A Folha de S.Paulo também adotou esse método recentemente: o leitor pode acessar até 40 textos por mês, 20 de maneira livre e mais 20 depois de fazer um cadastro. A partir disso, o acesso é cobrado. No primeiro mês, a assinatura é de R$ 1,90 e, no segundo, depois de acessadas as 40 matérias, o serviço custa R$ 29,90. A principal justificativa para a cobrança é a baixa receita vinda da publicidade na web, insuficiente para cobrir os custos.

Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, defende a cobrança na web visando à manutenção da produção jornalística:

– Fazer jornalismo de qualidade custa caro. Se a audiência do impresso migrar para o digital, será preciso remunerar esse jornalismo de alguma maneira.

O jornalista Eugênio Bucci, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e professor da USP, apoia a cobrança.

– É fundamental que o público pague parte da conta do financiamento do jornalismo. A imprensa é mais independente quando não depende apenas da publicidade – pondera.

Papel do impresso é aprofundar temas e interpretar fatos

Outros pontos de discussão sobre o jornalismo online são a velocidade com que as notícias se propagam pela rede e, em decorrência dela, a superficialidade dos conteúdos, em contraponto à apuração mais aprofundada, típica do impresso. Para Leonel Aguiar, estas mídias devem assumir papéis mais específicos.

– A plataforma impressa será voltada ao jornalismo investigativo e à interpretação dos fatos, deixando o factual para a internet – analisa Aguiar.

Pesquisas no Brasil e no mundo indicam que a internet vem conquistando a confiança do leitor e se tornou a principal fonte de notícias, mas os jornais impressos ainda predominam como o veículo de maior credibilidade.

Outro grande obstáculo do modelo de pagamento por leitura é a aceitação do público. Mas os dados da Folha são animadores: apesar da queda do número de páginas visitadas após a implantação do paywall, em junho de 2012, e certa irregularidade no restante do ano, o site recebeu 278 milhões de visualizações em janeiro de 2013, um recorde na história do jornal na web.

Leonel Aguiar observa, assim como o diretor-executivo da ANJ, que a cobrança tem provocado a migração de leitores dos impressos às publicações digitais nos Estados Unidos e na Europa, onde a crise econômica mundial afetou o mercado da informação e há grande inclusão digital.

– De uma maneira geral, nos Estados Unidos e na Europa, o jornalismo impresso teve uma queda na venda dos seus exemplares e na conquista do seu público. Já em países de economias emergentes, como Brasil, África do Sul e Indonésia, há uma nova classe média que passou a consumir informação na plataforma impressa, em jornais como o Extra e tabloides como o Meia Hora.