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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Novas diretrizes em tempos de escolha de papa

Danilo Rodrigues Alves* - Do Portal

25/02/2013

Arte: Nicolau Galvão

Fato inédito nos últimos 600 anos de história, a renúncia do papa Bento XVI, que deixou o cargo nesta quinta-feira, 28, abriu outro precedente, que vem sendo apontado por especialistas como decisivo para a instituição: a renovação da Igreja. Embora boa parte dos analistas considere remota a chance de mudanças logo após o processo sucessório, sobretudo em relação a questões polêmicas, o padre Jesus Hortal, professor associado da PUC-Rio e ex-reitor da universidade, acredita que haja espaço para reformas, especialmente nas áreas administrativa e econômica.

– A decisão de Bento XVI teve a ver com seu intuito de realizar uma reforma na Cúria romana, principalmente na parte econômica, nomeando um novo diretor para o Banco do Vaticano, que vinha sendo acusado pela União Europeia de lavagem de dinheiro, um problema grave de cunho moral – avalia. 

Para padre Hortal, o perfil do postulante será mais importante na escolha do sucessor de Bento XVI do que a sua origem – especula-se a possibilidade de o novo papa ser latino-americano, principalmente pela grande concentração de católicos (76%) e pelo crescimento de outras vertentes cristãs na região:

– Creio que a origem ou nacionalidade do papa não deva ser a maior preocupação da Igreja, e sim a postura, o perfil, que tem que ser alinhado às diretrizes que a Igreja deseja.

Na mesma linha de pensamento, o padre jesuíta Luís Corrêa Lima, também professor de teologia da PUC, igualmente destaca o papel deste líder no futuro da Igreja:

– Existe a possibilidade, sim, de um papa não europeu ser eleito, há cardeais que demonstram uma simpatia por isso. Mas, na verdade, o que irá contar no final é o perfil do novo papa, que deverá ser o mais condizente possível com o que a Igreja necessita para o presente e para o futuro. 

Entre os mais cotados estão os cardeais das Filipinas, Luís Antonio GokimTagle, que tem na idade, 56 anos, seu maior trunfo; de Gana, Peter Turkson, que provocou polêmica ao defender pena de morte para homossexuais; de Honduras, Óscar Rodriguez Maradiaga, além do canadense Marc Ouellet. “Correndo por fora”, como afirma padre Hortal, o cardeal brasileiro Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, é citado entre os dez principais candidatos.

Para padre Luis Correa, esse momento de ebulição no Vaticano é "muito interessante":

– A renúncia do papa pôs a Igreja diante do espelho. Nesse momento, em que se tem o fim de um pontificado e o início de outro, há um período de muita efervescência, onde sai muita coisa na imprensa, nas redes sociais; gente de dentro, gente de fora da Igreja; e sai de tudo, desde asneiras até coisas sensatas. Mas é aí que os problemas todos emergem. Apesar de ser um momento de certa insegurança, às vezes até um pouco desagradável, é um momento muito rico para a vida da Igreja. 

Fundador da ONG Amai-Vos, o empresário Tony Piccolo, que acompanha as questões da Igreja como católico leigo, é cético em relação a uma renovação neste momento, por acreditar ainda prevalecer uma linha conservadora entre os membros do colegiado.

– Mas, em se tratando de igreja e de homens de fé, sempre podemos ter surpresas – afirma o economista, que gostaria que o próximo papa fosse de um continente em desenvolvimento:

– Fundamentalmente, um progressista: um papa aberto ao mundo, ligado às grandes questões humanas e espirituais contemporâneas, como fome, pobreza, desigualdades sociais, guerras. Enfim, um homem de fé, uma liderança ética, solidária, corajosa e amorosa, como Jesus Cristo.

Pela primeira vez, um papa emérito

Anunciada no dia 11 de fevereiro, a renúncia de Bento XVI, mesmo prevista na lei da Igreja e com precedentes (a última foi a do papa Gregório XII, em 1415), surpreendeu e deixou atônitos diversos setores do Vaticano e da sociedade.

– Até os anos 1960, os bispos e o papa não podiam renunciar. Depois do Concílio do Vaticano II, houve uma mudança. Aos 75 anos, os bispos podem ser afastados, apresentando uma carta de renúncia. Então, de certa forma, já nos acostumamos à figura do bispo emérito, e agora teremos a figura do papa emérito, ou bispo de Roma emérito. É algo muito novo, mas que a Igreja vai assimilar, já está assimilando. Bento XVI inaugurou uma tradição: que o papa pode e deve renunciar quando não mais sentir forças para continuar, física, mental ou espiritualmente. Isso demonstra uma grande determinação do papa, que já dissera, em 2010, que se sentiria no direito e na obrigação de renunciar se não tivesse mais condições de governar a Igreja – lembra o padre Luís Corrêa.

JMJ: encontro marcado com o novo papa

A primeira aparição do novo papa à frente de um grande evento internacional será a Jornada Mundial da Juventude, que se realizará de 23 a 28 de julho, no Rio. A organização do evento prevê um aumento de público com a sucessão. A previsão inicial é de 2 milhões de participantes nos principais eventos da jornada, acompanhando o resultado da edição anterior, em Madri, em 2011.

Segundo a assessoria do comitê organizador da JMJ Rio 2013, é possível que o número de peregrinos (cadastrados através do site oficial) também aumente, mas isso só poderá ser observado após o término das inscrições, estendidas até o último dia de evento. Entre os participantes, é grande a expectativa para a celebração de uma missa presidida pelo novo pontífice e pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta.

O maior público é esperado para a abertura da JMJ, no dia 23 de julho, na Praia de Copacabana. No segundo dia haverá eventos concentrados em Pedra de Guaratiba.

De acordo com a assessoria da jornada, não houve alterações na programação oficial até agora. Os Atos Centrais, em Copacabana e Guaratiba, estão mantidos, assim como a programação do Festival da Juventude (atos culturais), catequeses e Feira Vocacional. O próximo papa deverá seguir a agenda de Bento XVI, mas poderá incluir compromissos extras, encontros fechados, os chamados atos especiais.

Para a organização do evento, a notícia da renúncia “foi uma surpresa, mas o trabalho continua”.

* Colaborou Mariana Totino.