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Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 2018


Cidade

Favelas cariocas: em 50 anos, mais de um milhão de moradores

Julia Lindenberg - Da sala de aula

15/08/2008

O Rio de Janeiro descobria-se dividido em 1958. A inauguração do prédio do Museu de Arte Moderna no Aterro do Flamengo, construído sobre o desmonte do Morro do Castelo, já anunciava as intenções da cidade: deixar de ter a cara romântica de Paris para assumir os traços modernos das grandes cidades americanas. Paralelamente, as favelas, que já existiam há meio século, inchavam com os imigrantes que vinham fugidos da seca, em busca de emprego e lazer, e, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já abrigavam mais de 150 mil moradores.

Naquele ano, os cariocas da Zona Sul e do subúrbio estavam longe da modernidade do Centro do Rio, que andava a passos largos com as avenidas inauguradas no início do século e no pós-guerra. Quando iam ao Centro, diziam que iam à cidade. A capital federal estava sendo transferida para Brasília, construída sob as idéias modernas de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. O primeiro governo do estado da Guanabara seria iniciado em dois anos por Carlos Lacerda, que, de acordo com o historiador Antonio Edmilson Rodrigues, ficou marcado por dar início a uma reforma urbana significativa:

- Foi nesse estado da Guanabara que Lacerda empreendeu as obras mais importantes de infraestrutura urbana do Rio, aproveitando o apoio do governo americano através de empréstimos, já que Lacerda representava a oposição ao comunismo.

No início da década de 1960, as inaugurações das avenidas do Aterro do Flamengo e do Túnel Rebouças levariam enfim a modernidade do Centro à Zona Sul do Rio. Ao mesmo tempo, o governo Lacerda não ignorava um já latente problema social da cidade. As favelas cresciam paralelas à modernização e, naquela década, de acordo com o IBGE, já existiam mais de 100.

Para solucionar o problema, o governador decidiu remover algumas favelas, como foi o caso da comunidade Bom Jesus. A favela que ficava à beira da Avenida Brasil, na altura do Mercado São Sebastião, na Penha, Zona Norte do Rio, foi movida para a Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), o sociólogo Geraldo Tadeu Moreira, a idéia de remoção ocorreu muito tarde e criou novas favelas:

- Remover as favelas poderia até melhorar a situação dos moradores se isso tivesse sido feito anos antes e quando o Lacerda os remove, não se preocupa em manter os conjuntos habitacionais que, pela pobreza dos moradores, tornaram-se outras favelas.

O caminho dos governantes que sucederam o governo de Carlos Lacerda esbarrou em mais problemas. Em 1964, o Plano Doxiadis, que propunha metas de orientação para o crescimento da cidade até os anos 2000, foi elaborado com um custo de US$ 700 mil para o governo do estado. Nele, já constavam os projetos da Linha Vermelha, que só viria a facilitar a conexão entre a Baixada Fluminense e o Centro ao ser inaugurada no início da década de 1990, e da Linha Amarela, que fez o caminho inverso de Lúcio Costa ao conectar o Centro e a Zona Norte da cidade à Barra da Tijuca no fim da década de 1990. De acordo com o urbanista e professor da PUC-Rio, Pedro da Luz Moreira, o plano Doxiadis tinha um problema que passou despercebido:

- Por ser um plano rodoviarista, que privilegia o transporte unitário sobre pneus, provocou a falta de mobilidade de uma zona para a outra, fator determinante para a população mais pobre precisar estar mais perto do local de trabalho.

Ainda segundo o professor da PUC-Rio, talvez o principal erro do plano tenha sido ignorar o provável crescimento demográfico da cidade, que precisava de uma política habitacional constante.

O último censo do IBGE, realizado em 2007, no Rio de Janeiro constatou que o total de favelas já ultrapassou a barreira das 700, só no município, e que mais de um milhão de pessoas moram nessas comunidades. De acordo com uma outra pesquisa realizada em favelas pelo IBPS no início deste ano, após serem questionados sobre algum político que tenha feito melhorias nas comunidades pobres nos últimos 20 anos, mais de 50% dos moradores não souberam citar nenhum governante. Entre os que citaram, César Maia foi o mais lembrado. O sociólogo Geraldo Tadeu Moreira acredita que os números se devem ao projeto favela-bairro, que atingiu cerca de 35 comunidades:

- O projeto não fez grandes intervenções que mudassem fundamentalmente a cara da comunidade, mas foi quase a única tentativa já feita.

Os números mostram ainda outros dados da estagnação urbanística das favelas. Enquanto 4,3% da população que vivem no asfalto não têm uma coleta de lixo adequada, a média nas favelas é de mais de 20% e, enquanto no asfalto 8,9% da população não têm um sistema de esgoto adequado, mais de 36% de moradores sofrem com esse problema nas favelas. Em março desse ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou um conjunto de obras em favelas do Rio, projeto do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal. Mais de R$ 897 milhões serão investidos em equipamentos urbanos, áreas de lazer e infraestrutura nos Complexos da Maré, Cantagalo e Alemão, na Rocinha e no Morro da Providência. O sociólogo Geraldo Tadeu Moreira acha que o maior benefício do PAC são os empregos gerados durante as obras, mas se preocupa com a posição dos futuros governantes:

- Diante da necessidade dessas comunidades, o PAC é pouco, é perfumaria. O PAC não é a panacéia que vai resolver os problemas de uma vez por todas. É preciso pensar no pós PAC.

Ainda de acordo com o sociólogo, o crime organizado não pode ser culpado pelo abandono das favelas cariocas. Para ele, o fato de os governos nunca terem conseguido implantar um projeto contínuo de recuperação das comunidades pobres da cidade se deve à política clientelista.

“As ações são sempre episódicas. A solução exige o envolvimento de todas as parcelas da sociedade. O governo apenas é muito frágil. É uma situação política muito complexa que ninguém quer assumir”, explica.