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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


País

Evandro: "Repressores não eram páreo nos 100m rasos"

Gustavo Coelho e Olivia Haiad - Do Portal

27/06/2008

 Evandro Teixeira

Romantismo, boêmia, politização. Na década de 60, ser jornalista consistia, muitas vezes, às três características. Depois do golpe de 64, a resistência ao regime político incorporou-se à rotina de boa parte destes profissionais. Uma rotina revisitada no segundo dia do ciclo de palestras “A Imprensa em 68”, 26 de maio, na PUC-Rio. Organizado pelos jornalistas e professores do departamento de Comunicação Carla Siqueira e Chico Otávio, o seminário reuniu, sob o tema “A Imprensa e o Poder em 68”, a historiadora Alzira Abreu, do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, e Milton Coelho da Graça, jornalista ativo durante a ditadura.

Coelho foi autor do primeiro jornal de oposição clandestino, “Resistência”. Preso duas vezes, conheceu o horror da tortura. Seu relato emocionou os estudantes que lotavam a sala 102K. Ele passou oito meses na prisão por causa de uma reportagem sobre a corrupção na eleição de 62.

- Se houvesse outra ditadura, faria tudo de novo - ressaltou.

Alzira Abreu relembrou que uma das habilidades profissionais remetia à conjugação do conteúdo editorial às demandas corporativas influenciadas por posições políticas. "A “Tribuna da Imprensa”, fundada em 1949 pelo político Carlos Lacerda, foi exemplo disso", disse ela.

A historiadora destacou a principal conclusão de suas pesquisas na área: “Não existe jornalismo sem governo no Brasil. Jornalistas e políticos encontram-se sempre associados ”.

Com a redemocratização e as novas tecnologias, a relação com o poder e a rotina dos jornalistas mudaram, observou Alzira. Ela observou que grandes referências, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Otto Lara Resende, enriqueciam a cobertura jornalística. Acrescentou que os editoriais eram espaços privilegiados. As mudanças, no entanto, não significaram necessariamente perda na qualidade do conteúdo:

- A profissionalização e a exigência de tempo integral nas redações trouxeram grandes benefícios ao jornalismo. Hoje o jornalista não só dá a voz ao expert, como também é o expert – avaliou a historiadora.

Em tom de brincadeira, Coelho fez uma provocação à nova safra. Disse que, atualmente, os jornalistas “vão para o jornal trabalhar do mesmo modo que se vai pra uma corretora da bolsa”.
Ao fim do debate, para reforçar a importância dos estudantes e jornalistas na resistência à ditadura, ele lembrou o lema da música “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, imortalizada na voz de muitos jovens na ditadura:

- Os jovens que foram às ruas, a Passeata dos Cem Mil, os jornalistas que denunciavam escândalos do governo, tudo isso contribuiu para o fim da ditadura. É como aquela frase: ‘Quem sabe faz a hora, não espera acontecer’.

Manual de sobrevivência

Para ser jornalista nos Anos de Chumbo, era preciso ter preparo físico. Quem garante é o fotógrafo Evandro Teixeira, que viveu intensamente as agitações do período. Autor de "68 Destinos", ele abriu a segunda mesa de debates, com o tema “O lugar dos jornalistas”. Com o habitual bom humor, disse que os repressores não eram páreo nos cem metros rasos:

- Sempre queriam me pegar, mas eu corria muito e não me alcançavam. A gente fotografava na pauleira. Eu precisava fazer as coisas sem deixar que percebessem que estava ali pelo jornal, senão era expulso dos lugares. A batalha dos estudantes contra a cavalaria da polícia era coisa de cinema. Uma loucura. No fim de tudo, minha glória maior foi ter enterrado todos esses generais. Cobri o funeral de todos.

Militante de esquerda desde a juventude, Milton Temer passou do jornalismo para os palanques da política. Mas nunca esqueceu as lições da profissão em que se formou:

- Jornalista precisa querer descobrir o que está escondido, senão vira um mero divulgador. Na época, a nossa classe lutou pela redemocratização do país ao lado da intelectualidade e do movimento estudantil. Mas éramos nós, os jornalistas, quem fazíamos o papel da organização. Aquele período também um marco do movimento estudantil, que jamais voltou a ter tanta força.

Jornalista do “Correio da Manhã”, Fuad Atala testemunhou o declínio do jornal à medida que a censura e a repressão se tornavam mais freqüentes. Para Atala, entretanto, o legado do Correio não será esquecido:

- Até 68, a imprensa pôde trabalhar com certa desenvoltura. Mas, da morte do Edson Luís até o A1-5, as coisas começaram a se complicar. O "Correio da Manhã" nunca deixou de publicar nada e sofria as conseqüências. Depois de 68, o jornal foi se descaracterizando. Fechou em 1974, mas foi uma grande escola por ter sido independente. Derrubou governos e ministros. Tinha muita força.

Paulo Rubens definiu como o ano de 68 como “salvador”. Tudo porque, em meio às agitações das manifestações estudantis, encontrou sua vocação no jornalismo:

- Eu era um líder estudantil e fui expulso da faculdade por causa da militância. Foi como cair num buraco negro. Mas consegui um emprego na revista "Manchete" que mudou a minha vida. Um momento de salvação pessoal, por pior que fosse triste o ambiente político.

Assim como Rubens, Álvaro Caldas também mantinha uma “vida dupla”, dividindo seu tempo entre ser repórter e militante. Caldas admitiu que, por pior que fosse o ambiente político, o período foi prodigioso ao revelar vários talentos do jornalismo:

- A imprensa estudantil, que era muito organizada, se tornou um pólo de formação de repórteres. Para quem estava em jornal, foram anos muito intensos, de grande agitação. Fazíamos jornalismo com muita paixão.