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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


País

Coragem e humor na defesa da liberdade de expressão

Gustavo Coelho - Do Portal

25/06/2008

“Se eu fosse você, tirava logo essa barba daí”. As palavras ecoaram pelo ouvido de Cláudius Ceccon. Tenso, deixou o escritório do advogado e rumou direto para a barbearia mais próxima. O percurso era curto, mas se tornou apavorante. O coração disparado cada vez que se deparava com alguém na rua. Era preciso tirar logo aquela barba, um dos símbolos do esquerdismo dos anos 60. O relato do jornalista e cartunista Cláudius Ceccon ancorou uma das palestras do seminário “A Imprensa em 68”, organizado pelos jornalistas e professores do Departamento de Comunicação Chico Otávio e Carla Siqueira.

Profissionais da imprensa e estudantes discutiram na PUC-Rio, dias 19 e 26 de maio, o papel de jornais na resistência democrática durante a ditadura militar. Era uma época de forte censura, na qual jornalistas tentavam manter viva a liberdade de expressão.

No primeiro dia de debates, a importância da imprensa alternativa comandou o debate. Embora restrito pelas circunstâncias, este tipo de publicação revelou-se fundamental para a resistência democrática. Chefe de reportagem do jornal “O Sol”, Ana Arruda Callado lembrou com orgulho do trabalho em 1968:

- O jornal não foi um sucesso de venda, mas ganhou a admiração de todos os jornalistas decentes daquele período. Nossa proposta era modificar tudo. Derrubar manchetes explícitas, o modelo do lide (abertura padrão de reportagem), o estilo de paginação e o projeto gráfico, ou seja, tudo que é prisão num jornal. As reportagens eram atrevidas, um espanto para a época.

Durante sua passagem pelo jornal “O Sol”, Ana Arruda comandou o único veículo diário de imprensa alternativa da época e ainda quebrou um tabu: segundo ela, foi a primeira mulher a trabalhar na chefia de reportagem de um jornal carioca. Superar o preconceito foi mais fácil do escapar da censura e da repressão que marcaram o fim da década de 60:

- É claro que senti medo. Várias vezes. A gente tinha medo de morrer. Fiquei 42 dias presa em 1973, e achei que nunca mais veria a luz do sol. Enquanto eu andava na rua, as minhas pernas tremiam. Achava que poderia ser agarrada a qualquer momento. Foram momentos de muito pavor, mas sobrevivi para contar a história.

Assim como Ana Arruda, o cartunista Cláudius Ceccon também sofreu com a linha dura. No caso dele, a solução para enfrentar a repressão foi o humor. Cláudius colaborou com a revista “Pif-Paf”, pioneira no gênero, e foi um dos criadores de “O Pasquim”. Seus desenhos representavam uma maneira criativa de desafiar e até constranger os repressores:

- Não há nada mais alternativo do que a charge. O verdadeiro humor é sempre feito contra a autoridade, o estabelecido. Revela a natureza que está por trás da aparente seriedade das coisas. A repressão militar no Brasil é uma história trágica. Ainda assim, houve espaço para a criação de algumas válvulas de escape, como “O Pasquim”.

Estudiosa da imprensa e dos movimentos sociais no Brasil, a historiadora da UFRJ Maria Paula Araújo ressaltou o papel fundamental de veículos como “O Sol” e “O Pasquim”:

- Essa imprensa alternativa significou uma possibilidade de ação política numa esfera de semi-ilegalidade. Reuniu todos que queriam se posicionar politicamente contra a ditadura.

Opiniões sobre a imprensa em 68

Os últimos anos da década de 60 foram um momento de ebulição em todo o planeta. Na Ásia, explodiu a Guerra do Vietnã, com destaque na imprensa internacional. Apenas dois jornalistas brasileiros cobriram o conflito. Um deles foi Luis Edgar de Andrade, que viajou por conta própria para o Vietnã e trabalhou anos como free-lancer para jornais brasileiros. Quatro décadas depois, Luis Edgar lembrou as dificuldades daquele período:

- Hoje fazer cobertura no exterior é fácil, porque existe a internet. Na minha época, o mais avançado era o telex. As matérias precisavam passar pela censura vietnamita antes de eu mandar para o Brasil. E as fotos que eram enviadas pelo correio demoravam uma semana para chegar. Isso se não extraviavam no meio do caminho.

Jornalista do “Correio da Manhã” nos anos da ditadura, Pery Cotta vê diferenças capitais entre a imprensa do período da repressão e a atual.

- Naquela época, havia gente de todas as correntes dentro de uma redação, mas o jornal lutava contra a ditadura. Hoje, a imprensa está mais afastada da sociedade. Sobre a geração atual, não acredito que seja alienada como dizem. Isso é mentira. Os jovens se interessam pelos assuntos, lêem bastante e procuram estar atualizados.

Como editor do “Jornal do Brasil”, José Silveira precisava conter a revolta dos repórteres. Ele reforçou que era difícil ser jornalista naquele período:

- No tempo da ditadura, o profissional de imprensa era obrigado a trabalhar em silêncio. O A1-5 fechou ainda mais a profissão, que já estava limitada. Era difícil manter os textos imparciais.