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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Economia

Microgeração de energia deve ser realidade em uma década

Renan Rodrigues - Do Portal

13/02/2013

 Arte: Maria Christina Corrêa

O baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, responsáveis por mais de 75% da energia consumida no país, esquentou a discussão sobre a matriz energética brasileira a partir de especulações sobre o risco de apagão. O nível dos reservatórios no Sudeste e Centro-Oeste, por exemplo, está em 38,6% da sua capacidade, contra 76,23% do mesmo período do ano passado, segundo estimativa do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Regulamentada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em abril de 2012, a geração de energia por meio de pequenas fontes, como a solar e a eólica, é uma nova forma de suprir a demanda crescente. Mas, apesar do cenário favorável, esse tipo de energia ainda apresenta desafios para crescer no país.

Regulamentação permite acesso à rede elétrica, mas procura ainda é baixa

Com a regulamentação, a microgeração de energia – a capacidade de gerar entre 100kW e 1 MW – já pode ser realizada no Brasil. Fontes renováveis de energia como hidráulica, solar, eólica e biomassa podem fornecer diretamente ao sistema de uma distribuidora. A energia gerada se transforma em crédito com a operadora, e pode ser consumida em até 36 meses.

Um medidor faz o controle entre a energia que é gasta e a gerada. Em caso de crédito, além dos 36 meses para consumo, é possível indicar outra residência com o mesmo titular para uso dessa energia.

O superintendente técnico da Light, Gustavo César de Alencar, afirma que não é possível calcular o potencial de crescimento dessa tecnologia. A procura, por enquanto, é baixa:

– Por ter regulamentação recente, ainda não há histórico que possa indicar a velocidade e universo de clientes que optarão pela instalação das centrais de microgeração. Até o momento a Light está negociando com um cliente e foi procurada por outro que buscava informações. O custo para o cliente de residência é a diferença de custo do medidor convencional para o medidor bidirecional, o que equivale a menos de R$ 100.

Já o professor de engenharia elétrica da PUC-Rio, Reinaldo Castro Souza acredita que a fraca demanda decorre de dois pontos: a falta de conhecimento da tecnologia e o preço. O gargalo para o desenvolvimento desse segmento está nos equipamentos, que ainda são importados e, consequentemente, de alto custo.

–Ainda não há bastante conhecimento sobre essas fontes, e os painéis solares são caros. Participo do projeto de construção do Museu da Light, que mostrará a geração de energia através dessas fontes limpas, e estamos há um ano com dificuldade para importar as placas – cita.  Divulgação

O engenheiro da Enersud Luiz Cesar Pereira, empresa fabricante de equipamentos para geração de energia limpa, em especial a eólica e a solar, concorda que essas dificuldades são consequência da ausência de mercado no país:

– O primeiro gargalo é a inexistência do mercado. Nosso país é muito grande, com uma população bastante razoável, mas o mercado brasileiro ainda é muito limitado. As demandas são dispersas.

Além disso, continua o engenheiro da Enersud, nem todos os locais apresentam bom aproveitamento dessa energia:

– As placas fotovoltaicas precisam ser voltadas para o Norte, pois a insolação vem do Equador. Se o painel ficar voltado para o lado Sul, o rendimento será baixo.

Além da exigência de conhecimento técnico, o investimento nesse tipo de geração de energia ainda é alto. O retorno só se torna viável a partir de seis anos após a instalação, alerta o engenheiro da Enersud. O professor de Engenharia Elétrica da PUC-Rio é ainda mais cauteloso, estimando entre seis e 10 anos o tempo para recuperar o investimento.

– Essa pode ser uma dificuldade para os investimentos de grande porte. Para um acionista de uma distribuidora, o prazo de retorno ideal é de no máximo cinco anos – pondera Reinaldo Souza.

Fonte híbrida complementa geração

A energia solar e a eólica são fontes consideradas complementares; enquanto o painel fotovoltaico depende do sol para a geração, a maior incidência de ventos se encontra à noite. Luiz Cesar Pereira defende que a solução se encontra na combinação de ambas as fontes, em um sistema híbrido:

– São fontes descontínuas. Uma estratégia possível é estocar a energia, mas as baterias também são limitadas. Essa dificuldade é superada levando a energia diretamente à rede elétrica. E, em um sistema híbrido, um gera energia enquanto o outro está em baixa.

Para projetos residenciais, no entanto, é melhor apostar em um só sistema, porque o modelo conjugado não compensa. Situação que, segundo o professor Reinaldo Souza, mudará:

– Hoje, nós, pequenos usuários, pagamos um preço fixo pela energia, mas um dia pagaremos um preço diferenciado. É onde entra o novo medidor. Já foi aprovado pela Aneel um projeto que prevê que o valor da energia fora do período das 18h às 21h seja seis vezes menor.

O novo medidor adotará uma “tarifa inteligente”. Grandes indústrias já têm geradores, pois pagam essa energia com melhor preço. Quando o modelo chegar ao consumidor comum, esse movimento pela microgeração crescerá, afirma Reinaldo Souza:

– Quando o preço for diferenciado, as pessoas vão começar a pensar em usar geradores para não pagar a energia nesse horário muito caro. Teremos, nesse momento, uma virada nesse cenário.

Construções públicas aderem à microgeração

Construções com a geração própria de energia, seja por motivo ambiental ou mesmo financeiro, estão ganhando mais espaço no Rio, inclusive em prédios públicos. Um exemplo é Biblioteca Pública do Rio de Janeiro. As obras, orçadas em R$ 43 milhões, estão sendo executadas dentro de normas de construção sustentável. que a credenciam a se tornar a primeira da América Latina a ganhar o selo Ouro, a mais alta certificação concedida pelo sistema Leardership in Energy and Environmental Design (LEED), do Green Building Council Brasil (GBC).

O ponto alto da reforma é a instalação de uma usina de geração fotovoltaica. Em execução, a usina solar fornecerá cerca de 50 MWh por ano, resultando em uma economia de 15% nos gastos energéticos de toda a biblioteca.

Maracanã

As obras do estádio Mario Filho para a Copa do Mundo também incluem soluções para a economia de recursos naturais, como água e energia elétrica. O estádio receberá a certificação ambiental, conforme recomendação da Fifa. A meta é reduzir o consumo de água no estádio em 30% através da aplicação de medidas como torneiras com fechamento automático, válvulas de descargas "dual flush" e caixas embutidas.

O estádio terá um sistema de captação de água de chuva, o que reduzirá o uso de água potável em 50% para irrigação do gramado. A chuva captada pela nova cobertura será utilizada também para o funcionamento dos banheiros. Na parte de eletricidade, a intenção é reduzir em 8% o consumo de energia elétrica, usando lâmpadas de alta eficiência, mas a grande novidade é a instalação de painéis fotovoltaicos na cobertura do estádio. A tecnologia permitirá que sejam gerados cerca de 400 KWp em energia limpa, o que representa o consumo de 200 residências. No caso do Maracanã, outros empreendimentos do complexo, como Maracanãzinho e Uerj, serão beneficiados. Após a instalação da usina no estádio, todo o complexo deve ser integrado no sistema de geração solar. Leia mais em Energia solar é a aposta de grandes e pequenas empresas.