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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


Cultura

Ana Maria Machado traduz a eternidade do velho Braga

Danilo Rodrigues Alves - Do Portal

18/01/2013

 Aílton Silva

Em meio à miríade de homenagens alusivas a Rubem Braga, que completaria cem anos, Ana Maria Machado sintetiza: "ele ganhou status de eterno no mais efêmero dos gêneros, a crônica". Para a escritora, o reconhecimento é precedido, no entanto, da gratidão com o amigo que conheceu ainda garota e revelou-se determinante para o mergulho no oficio. Mais que isso, proporcionou-lhe momentos memoráveis, regados a ótimas histórias e trocas literárias. Alguns deles, como os encontros na folclórica cobertura da Barão da Torre, em Ipanema, foram lembrados por Ana Maria, sexta-feira passada, na palestra Assim canta o sabiá (era chamado "o sabiá da crônica, embora preferisse ser "um urubu, ave maior e mais triste"), no Instituto Moreira Salles, Zona Sul carioca.

Os cerca de 80 espectadores, incluindo Roberto Braga, único filho de Rubem, juntaram-se à integrante da Academia Brasileira de Letras no passeio por diálogos e passagens vividos ao lado do cânone da crônica moderna no Brasil, que conhecera ainda na infância e influenciara de forma decisiva a carreira e o estilo literário. Como na noite em que, depois de muito tempo sem se encontrarem e Ana Maria ter lançado seu primeiro romance, intitulado Alice e Ulisses, Rubem balbuciou: - "Eu li seu livro. Eruditíssimo..." Ana, nesse momento, disse que fez uma força sobre-humana para segurar o choro, quando ele completou: - "Porém belíssimo". O que a fez sentir um enorme alívio e felicidade, pois a aprovação de Rubem era fundamental.

– Esse momento foi um dos mais apavorantes de toda minha vida.  – lembrou a vencedora do prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantil.

Sentada em uma cadeira de madeira, à meia-luz, pernas elegantemente cruzadas, livros e rabiscos dispostos na pequena mesa ao lado, Ana Maria Machado encantava e encantava-se com a volta ao passado. O olhar fixo num ponto distante do auditório indicava a viagem aos encontros esporádicos que tinha com Rubem ao sair da escola, ainda na adolescência; quando ele a ajudava selecionar seus quadros para exposições, já na juventude; e tantos mais ao longo de décadas, deliciosamente desiguais. Ana integrava o seleto grupo cuja convivência, durante um bom período, era acompanhada do privilégio de frequentar a cobertura na Barão da Torre, comprada em 1963, onde um jardim suspenso, projetado por Burle Max e cuidadosamente cultivado por Braga, tornava ainda melhor as reuniões entre bambas das letras. Naquele oásis verde, o "lavrador de Ipanema", como brincava o poeta e amigo Paulo Mendes Campos, Braga reencontrava-se com as origens de Cachoeiro do Itapemirim, a 240 quilômetros de Vitória.    

As histórias serviam como pano de fundo para outras lembranças não menos representativas. Eram entremeadas por trechos de crônicas de Rubem Braga, lidas com emoção e reverencial admiração. Tons de uma obra “recheada de um lirismo temperado com ironia”, construída pelo mestre em tranformar o prosaico em diamantes literários, para o qual a felicidade era "uma suave falta de assunto", como escreveu na crônica A boa manhã. O prodígio levou Manuel Bandeira a cunhar talvez a melhor síntese dessa soberana habilidade: "Braga escrevia ainda melhor quando não sabia sobre o que escrever".   

Ana recitou,a certa altura, a crônica mar, uma das maiores obras-primas de Braga. Quando terminou, houveram aplausos extasiados de um público absolutamente deleitado com o que tinham acabado de ouvir: - Esses aplausos são todos do Rubem, é brincadeira o que esse homem conseguia fazer - declarou a escritora.

Parte do mérito das 15 mil crônicas escritas para jornais, revistas, rádio e TV repousa no olhar arguto sobre o mundo das ruas e na opção pela simplicidade. Para Ana Maria, reforçavam tais atributos um equilíbrio difícil – “era um escritor muito sensível, porém sem ser sentimental” – e o domínio absoluto da linguagem: “deslizava por ela com se fosse um rio fluindo em direção ao mar”. Mas, na opinião de Ana Maria, e muitos outros, o principal legado do Velho Braga remete ao traço de “observador atento da vida e de suas coisas cotidianas”:

– Braga mostrou que, por mais que qualquer tema possa parecer insignificante, pode e deve virar assunto. Sua escrita era direta, objetiva, porém sem abrir mão da sensibilidade,. Por isso, ganhou a eternidade. 

Sobre a trajetória de Rubem Braga:

Repórter, redator, editorialista e cronista, Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913, e morreu no Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1990. Considerado por muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, iniciou-se no jornalismo ainda jovem, aos quinze anos no Correio do Sul, de Cachoeiro de Itapemirim, fazendo reportagens e assinando crônicas diárias no Jornal Diário da Tarde. Trabalhou em jornais e revistas do Rio, de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. Foi correspondente de O Globo em Paris, em 1947, e do Correio da Manhã em 1950. Em 1961, tornou-se Embaixador do Brasil no Marrocos. Mas Braga nunca se afastou do jornalismo. Fez reportagens sobre assuntos culturais, econômicos e políticos na argentina, nos Estados Unidos, em Cuba e em outros países. Quando faleceu, era funcionário da TV Globo.