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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Mostra sobre Tom Jobim é uma "oportunidade sensacional"

Caio Cidrini - Do Portal

07/01/2013

 Ligia Lopes

“Meu querido Jardim Botânico”. Assim Tom Jobim (1927-1994) declarava-se, com doçura quase melódica, ao parque transformado em quintal de casa. Morador do bairro desde 1986 até o fim da vida, Jobim ficava a menos de um quilômetro do maior banco de dados sobre Mata Atlântica do mundo. Renovava, ali, a simplicidade de apreciar as plantas, os pássaros, os cantos da bicharada. Uma simplicidade que, segundo o historiador e jornalista especializado em MPB Paulo Cesar de Araújo, inspira a exposição Tom Jobim – Música e natureza, programada até 30 de junho no instituto que leva o nome do maestro e, claro, ocupa uma área de 190m² no parque. A convite do Portal, Paulo César ciceroneou o passeio pelo processo criativo de um dos maiores embaixadores da nossa música, “uma oportunidade sensacional”, sintetiza o especialista:

– Diferentemente de exposições high-tech e interativas, a mostra revela a simplicidade de Tom por meio de objetos. A riqueza de documentos originais e inéditos permite conhecer seu processo criativo. Com eles, podemos confirmar, relembrar e descobrir fatores que envolvem a vida do músico – ressalta PC, que leciona, na PUC-Rio, um curso sobre Música Popular Brasileira.

O acervo, montado por Paulo Jobim, filho do maestro e curador da mostra, ao lado da mulher, Elianne, reúne cartas de Tom para Vinícius de Moraes e para a mãe, Nilza Jobim, um telegrama de Frank Sinatra, fotografias e 28 composições de canções manuscritas. As rasuras e observações do compositor, que não poupava o lápis na hora de criar, construindo setas, pequenos avisos e comentários no papel, estão marcadas nas obras. Algumas delas, como a da clássica Águas de março (1972), trazem até queimaduras de cigarro e manchas de bebida:

– Quase perdemos Águas de março para o cigarro – brinca o historiador.

Além dos documentos inéditos presentes, PC destaca a ambientação da mostra, que remetem os visitantes a locais importantes na vida de Tom Jobim. Como as referências arquitetônicas ao sítio da família em Poço Fundo, município mineiro a 455 km do Rio, onde ele compôs Passarim (1987) e Corcovado (1960).

– O teto e a ausência dos ventiladores nos levam a um clima rural. Remetem ao sítio e à ligação com a natureza de Tom Jobim. Eles ajudam na inserção na trajetória do maestro – observa PC.

A reconstrução do canto da sala do apartamento da Rua Nascimento Silva 107, em Ipanema, com a simulação da vista para o Cristo, conduz a um emblema, eternizado pela Bossa Nova, de uma dos períodos mais vigorosos da nossa produção musical. Não menos emblemáticos são o violão Di Giorgio e o piano de armário Weimar, utilizado para compor Garota de Ipanema (1962).

Os campões de audiência, segundo funcionários da mostra, revelam-se, contudo, os objetos pessoais expostos em uma estante cenográfica que reproduz a casa de Tom no Jardim Botânico. Estão expostos quatro óculos, livros – três volumes de Guimarães Rosa e o songbook de Gershwin – uma capanga, coleção de lupas e os preferidos dos fãs depois dos instrumentos: os chapéus Panamá.

– É coisa de fã. Poder ver tão de perto algo que pertenceu a um ídolo, como Tom Jobim, é praticamente um fetiche – comenta Paulo César.

Discografia recepciona os visitantes

 Ligia Lopes Apesar da simplicidade observada por PC, a exposição é generosa com os fãs. Logo na entrada, alguns cancioneiros, quatro impressos e dois em tablets, recebem os visitantes. Há também fotografias na parede, mas o tapete vermelho é estendido pelos principais discos de Tom Jobim. Somam 20, desde Orfeu da Conceição (Odeon, 1956) até Antônio Brasileiro (Columbia, 1994). Mas, segundo PC, há espaço para mais dois:

– Faltaram o Urubu (Warner, 1975) e o disco de bolso O Tom de Tom Jobim e o tal de João Bosco (Zen Editora, 1972). São discos em uma fase pós-bossa nova que trazem Águas de março e Lígia (1974), por exemplo. Mas os álbuns que mais repercutiram estão aqui – reconhece o pesquisador.

Tom Jobim emprestou o talento a 14 álbuns solo, 25 em parceria – como compositor, arranjador ou cantor –, um disco de bolso e cinco ao vivo. PC ressalva, porém, que é impossível contabilizar a produção de Jobim, pois nem sempre se dava crédito aos arranjadores e colaboradores.

O primeiro álbum da carreira solo de Tom Jobim, lembra o pesquisador, foi The Composer of Desafinado, Plays (Verve, 1963). O nome em inglês e a gravadora são explicáveis: Jobim morava nos Estados Unidos desde 1962, pois em cinco anos a Bossa Nova tornou seus participantes mundialmente conhecidos. Composto só por obras instrumentais, PC o considera o melhor disco do maestro:

– É a melhor obra solo de Tom Jobim. Ele não devia ter começado a cantar, não era bom nisto. Devia ter mantido o foco na composição instrumental e deixado João Gilberto cantar – opina – Foi Chico Buarque que consolidou a figura do cantor-compositor, em 1966 – completa.

Outra obra simbólica, ainda de acordo com o especialista, é o primeiro disco da parceria entre Sinatra e Jobim, Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (Reprise, 1967). O álbum foi indicado para melhor do ano no Grammy Award, mas perdeu para o Sgt Sepper's lonely hearts club band, dos Beatles. Além da qualidade das composições, a relação entre os dois personagens também somam positivamente à obra. A voz poderosa e afinada de Frank Sinatra é completada pelo talento de instrumentista e compositor de Tom Jobim.

Porém, o segundo disco da parceria não foi digno da qualidade dos dois. Gravado em 1969, também pela Reprise, Sinatra & Company - Frank Sinatra e Antonio Carlos Jobim deixa a desejar. O álbum só foi lançado em 1971 e continha um contraste percepetível devido à produções e arranos diferentes entre as faixas do lado A e as faixas do lado B:

– O lado B foi preenchido com músicas americanas para o lançamento truncado do disco. Infelizmente acabou saindo incompleto– recorda.

Enquanto admira as partituras, objetos e fotos que participaram do processo criativo de Jobim, o visitante ouve trechos de Chega de saudade (1958) e Samba do avião (1962). Ouve também o próprio maestro comentando sobre a natureza, a música e a vida. Com vídeos de shows e entrevistas, duas projeções facilitam o mergulho no rico acervo. Somada à riqueza documental, cancioneiros e vídeos reforçam o tour detalhado pela vida e, sobretudo, pela obra de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. "Por isso, considero esta uma das mostras mais completas sobre Jobim", avalia Paulo César.

Personagens da música precisam de defensores da memória

Desde os anos 1990, quando ainda percorria os pilotis como estudante de Cominucação, Paulo Cesar de Araújo dedica-se mais sistematicamente ao estudo da MPB e à produção de biografias. Como a de Waldick Soriano, no livro Eu Não sou cachorro, não – Música popular cafona e a ditadura militar (Editora Planeta, 2002). Ele também escreveu a biografia não autorizada Roberto Carlos em detalhes (2006). Os livros resultam de 15 anos de pesquisa e 253 entrevistas. Para ele, iniciativas do gênero são importantes para manter acesa a memória da nossa música:

– A memória é um processo seletivo, nem tudo é lembrado com o passar do tempo. Estudiosos, escritores e eventos como essa mostra são defensores da memória. Para preservar Tom Jobim, é necessário conhecê-lo.

Primeiro parceiro musical e amigo de infância de Tom Jobim, Newton Mendonça foi um pianista, compositor, gaitista e violinista brasileiro que sofreu com o “processo de esquecimento”, inclusive na mostra sobre o maestro. Tocou com Jobim em bares e casas noturnas da Zona Sul carioca, durante os anos 1950. Para Paulo Cesar, ele é o segundo colaborador mais importante de Jobim, atrás só de Vinícius de Moraes. Compôs com o Tom Desafinado (1959), Samba de uma nota só (1960), Meditação (1960), Caminhos cruzados (1959), entre outras canções que fizeram parte do repertório de João Gilberto no início da carreira e tornaram-se canções seminais na formação da Bossa Nova.

Mendonça morreu aos 33 anos de enfarte fulminante em 1960, sem poder colher os frutos da parceria com Jobim ou assistir ao estouro do movimento que ajudou a criar. Na mostra do Jardim Botânico, as informações do antigo parceiro estão restritas a apostilas entregues aos guias de visita para se prepararem.

– É injustiça – pondera PC – Newton Mendonça teve o azar de não ver a midiatização do movimento que ajudou a fundar. Se não está na mídia e é deixado de lado em relação às obras em parceria, acaba sendo esquecido – lamenta. 

Tom Jobim foi o primeiro entrevistado de Paulo Cesar de Araújo

Quando decidiu transformar em projeto de vida o estudo da música popular brasileira, Paulo César cursava Jornalismo na PUC-Rio e História na UFF, no fim da década de 80. Em 1990 resolveu iniciar a pesquisa e as entrevistas logo com quem? "Tom Jobim. Se conseguisse, seria o sinal de que estava no caminho certo", lembra, com indisfarçável orgulho. Do orelhão do prédio Leme, na PUC, ligou para a casa de Jobim. Atendeu a empregada e, abençoado pela sorte de principiante, PC não tardou em falar com o desejado interlocutor. Simpático e simples, Jobim marcou um papo, claro, no Jardim Botânico. Doze anos depois, CC reconhece na mostra, os óculos usado pelo maestro naquela entrevista.

Em 1993, nova investida. O pesquisador ligou, mais uma vez de um orelhão, para a casa de Tom Jobim. Munido de outras dezenas de perguntas, foi convidado pelo músico para ir até a casa da Rua Sara Vilela, também no Jardim Botânico, na qual morou até a morte:

– Tom Jobim é um marco na minha vida. Ele foi a largada de uma série de 253 entrevistas com a nata e os renegados da música brasileira, ao longo de 15 anos.

Canções seminais, segundo PC

Samba de uma nota só (1960) 

Desafinado (1959) 

Meditação (1960) 

Caminhos cruzados (1959)

Se todos fossem iguais a você (1957) 

A felicidade (1959)

Mostra Tom Jobim - Música e natureza

A mostra fica aberta de terça a domingo, das 10h às 17h. A entrada é franca e é possível agendar visitas pelo telefone (21) 2512-0303.