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Rio de Janeiro, 24 de julho de 2024


Mundo

Ásia desperta brisa de mudança na geopolítica global

João Pedroso de Campos - Do Portal

18/12/2012

 Arte: Maria Christina Corrêa

Se a temporada de balanços e projeções do cenário político brasileiro prevê tons mais gerenciais, lógica semelhante pode ser observada no âmbito internacional. A reeleição de Barack Obama para mais quatro anos à frente da principal potência é considerada por analistas como "providencial" a uma agenda externa mais neutra, comedida e adequada ao crescimento de outros países no jogo geopolítico e econômico global. Com 18% do fluxo internacional de investimentos neste ano, Brasil, Rússia, Índia, África do Sul, e principalmente a China, os Brics, são vistos como forças descentralizadoras do G6, as seis maiores economias do mundo. Em 40 anos, acredita-se que representem, em dólares, mais do que Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França e Itália. Pesquisadores ponderam, entretanto, que só a análise do Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas de um país) revela-se insuficiente para projetar "grandes mudanças no paradigma mundial". Até porque pairam incertezas sobre os rumos de uma China às voltas com a desaceleração econômica – que limitou o crescimento a 7,4% no último trimestre, dois décimos a menos do que no anterior – e com a troca no Comitê Permanente, que comandará o país nos próximos cinco anos.

O diretor do curso de Jornalismo da PUC-Rio e especialista em Relações Internacionais, Arthur Ituassu, se diz pessimista quanto ao futuro da política global. Ele lembra o termo "G-Zero" – criado pelo cientista político americano Ian Bremmer para expressar a falta de ordem mundial – ao projetar um cenário conturbado economicamente e resguardado por armas nucleares como resultado da soma das crises nos Estados Unidos e na Europa, das incertezas na China e da corrida armamentista em toda a Ásia. Em meio às turbulências, vem da Índia, segundo Ituassu, o modelo de democracia ideal:

– Estados Unidos e Europa têm problemas sérios. A China não é garantidora da estabilidade na Ásia, onde há ressentimentos fortes entre China, Coreia, Japão e Índia, além da maior corrida armamentista no mundo. China e Índia competem pela liderança na região e os dois têm poderio nuclear. A Índia, especialmente, conta com tecnologias balísticas de ponta, que programam onde os misseis vão cair, e uma democracia vibrante com vários parlamentos regionais espalhados pelo país. Eu sou otimista quanto à Índia como modelo para a Ásia, mas isso esbarra na China.

Ituassu explica que o fim da Guerra Fria, em 1989, tirou das potências – inclusive os Estados Unidos aos quais se atribui a centralidade depois da queda do Muro de Berlim – o controle sobre os conflitos ao redor do mundo e o desenvolvimento da política internacional. Para o analista, a despolarização favoreceu, ao longo desses mais de 20 anos, a formação de blocos econômicos como o Brics, que contabiliza, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), US$ 4,5 trilhões em reservas e tem contribuído para atenuar a fatura imposta pela crise à economia mundial.

Os cinco países concentraram, em 2011, mais de 18% do fluxo de investimentos no globo (21% de aumento em relação a 2010), aponta o World Investiment Report 2012 (WIR 2012). Apesar deste peso crescente, Ituassu ressalva que a análise isolada dos substanciais números do Produto Interno Bruto (PIB) de cada um dos Brics, feita em larga escala nos últimos anos, não garante às economias emergentes acesso ao protagonismo no tabuleiro da geopolítica dos próximo anos.

– A ordem do pós-Guerra Fria é uma ordem mais frágil, tende a problemas mais pontuais e numerosos. Dentro deste contexto, deve-se pensar no surgimento das novas potências, como os Brics. Mas ainda está muito cedo para afirmar a ascensão destes países. Em termos militares e tecnológicos, por exemplo, não há comparação com os Estados Unidos. O PIB é grande, mas há uma população enorme com problemas de miséria, concentração de renda, exclusão, conflitos religiosos não resolvidos, como no Sinkiang, Tibet, Taiwan, na China – argumenta.   

Há quem diga que não faz sentido agrupar as cinco economias emergentes do mundo num grupo como o Brics. O diretor de mercados do banco americano Morgan Stanley, o economista indiano Ruchir Sharma, afirmou, há pouco mais de duas semanas, que "são os países com as maiores economias em suas regiões mas, para além disso, não têm nada em comum". Assim como Sharma, o professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio Pedro Cunca Bocayuva (foto) reconhece que existe pouco em comum entre os cinco países, mas identifica alguns pontos economica e estruturalmente semelhantes entre os componentes do Brics: 

 Lucas Terra – Os mercados que caracterizam os Brics têm um papel ativo do Estado e uma importância grande do mercado interno. Os cinco países também mostram problemas com infraestrutura, consumo de automóveis e especulação imobiliária, por exemplo. Para além da infraestrutura e da economia, existem contradições na afirmação de que os Brics têm os mesmos interesses. Em comum, eles buscam mais espaço nas instituições internacionais. 

Também professor do IRI da PUC-Rio, Bruno Borges vê como fundamental o fortalecimento da imagem dos Brics sob o ponto de vista da descentralização do debate internacional, cujos holofotes concentram-se sobre as políticas americanas desde o fim da Guerra Fria. “Muda-se a balança de poder no mundo”:

– O aumento de importância é fundamental, porque gera um aumento das possibilidades dos países em desenvolvimento que eles não tinham. Os países desenvolvidos têm de ouvir e levar em consideração os países que não tinham tanta voz e importância antes, principalmente quando se fala na década de 1990, quando os Estados Unidos tinham um poder quase unipolar. Pode-se esperar um mundo não necessariamente mais pacífico, mas um mundo em que haverá mais divergência, cooperação, arranjos políticos, conversa e diplomacia – prevê o professor.

Mais introspectivos, Estados Unidos miram a Ásia

Parte do quadro projetado por Borges começa a ser esboçado com a virtual mudança no eixo e no perfil das relações internacionais americanas. Eleito para mais quatro anos na Casa Branca, Barack Obama deve adotar uma agenda menos agressiva e mais próxima da Ásia. Com o fim dos conflitos iniciados em nome da chamada “guerra ao terror”, especialistas avaliam que a política externa dos Estados Unidos tende, cada vez mais, a uma introspecção que resulte na poupança de recursos para o saneamento da economia do país, combalida desde a crise deflagrada em 2008. Apesar do tom comedido, principalmente durante a campanha presidencial de Obama, os Estados Unidos têm acompanhado com atenção os desdobramentos e movimentações bélicas na Ásia.

Assim como se observava durante a Guerra Fria, quando americanos e soviéticos disputavam áreas de influência pelo mundo, Ituassu percebe uma aproximação dos Estados Unidos à Índia, principal oponente da China pela hegemonia asiática e mantenedora de uma "democracia vibrante". O especialista destaca, pelas configurações do jogo político-econômico asiático, que o tabuleiro da região deve ser o principal foco desta versão, digamos, low profile das relações internacionais americanas:

– Isso já está em curso (o direcionamento americano à Ásia). Os Estados Unidos estão privilegiando a Índia, como forma de controlar o avanço chinês no continente. É um jogo político. Mas ainda há o problema das Coreias, que tendem à unificação. Pode ser que aconteça daqui a 10, 15, 20 anos, o regime norte-coreano não vai sobreviver sozinho. Será um país com a quarta maior economia do mundo, um dos maiores exércitos do mundo, detentor de tecnologias nuclear e balística, entre China e Japão. Apesar de não crescer mais, o Japão não é um país pobre e a alta tecnlogoia pode favorecer a montagem de um artefato nuclear. A Ásia é um problema seríssimo – avalia.

Cunca Bocayuva também reconhece a renovação do discurso diplomático americano para os próximos anos. Ele observa que a conduta internacional dos Estados Unidos "procura dar racionalidade à agenda" e pode ser ilustrada, por exemplo, pela intervenção mínima nas operações da OTAN que, no ano passado, ajudaram a derrubar o ditador líbio Muammar Kadhafi. Segundo o professor, o erro dos Estados Unidos foi submeter todas suas políticas ao conceito de segurança ao longo dos últimos anos. Para ele, a segurança tem de ser submetida aos conceitos de democracia, desenvolvimento e relações internacionais. Bocayuva também pondera que a relação entre Obama e o governo conservador de Benjamin Netanyahu insinua-se "menos mecânica" com o interesse na Ásia:

– A cautela que os Estados Unidos tiveram na Líbia e na Síria é um indicador de avanço na agenda, porque todas as vezes em que os americanos se alinharam mecanicamente a posições israelenses ou ocidentalistas e generalizaram os seus inimigos como terroristas, perderam espaço. Até agora, tem sido contraproducente a agenda mais agressiva. A ideia é a diminuição de inimigos e a proposição de objetivos possíveis, pois os americanos não têm conseguido cumprir promessas como o fechamento de Guantánamo.

Borges consolida o consenso entre especialistas da PUC-Rio sobre ações mais cuidadosas dos Estados Unidos no sistema internacional. Ele avalia que o cenário interno “polarizado e travado” limita a agenda agressiva que norteou as relações internacionais americanas desde o 11 de Setembro. O professor também aponta uma herança do governo W. Bush mantida sem muito alarde por Obama: o alinhamento à Índia nas questões asiáticas.

– Esse pivô na Ásia tira a ênfase do Oriente Médio. É vantajoso ter a Índia como contraponto à China na região, mas a principal importância é que a Índia é um dos maiores países do mundo, e tem a maior democracia. Isso faz uma grande diferença para os Estados Unidos na Ásia. A Índia é importante por si só, e enfrenta uma vizinhança não muito amigável: Rússia, Paquistão, China, Afeganistão, isso também atrai os americanos. A Índia é o parceiro de confiança dos Estados Unidos na Ásia desde o George W. Bush e deve continuar sendo um dos pilares da politica externa americana.

China divide-se entre as demandas de "locomotiva do mundo" e o desequilíbrio interno  

A China anunciou, há pouco mais de um mês, a nova formação do Comitê Permanente que irá liderar o Partido Comunista e o país pelos próximos cinco anos. O vice-presidente Xi Jinping passará a ser o presidente e Li Keqiang, vice-premier, o primeiro-ministro. Eles substituirão, respectivamente, Hu Jintao e Wen Jiabao no início do próximo ano. Xi Jinping também substituirá Hu Jintao na liderança da Comissão Militar Central. A dupla assumirá uma China mais rica e poderosa do que seus antecessores encontraram, há dez anos, mas terá de lidar com desafios socio-econômicos que põem em xeque algumas práticas da economia que mais cresce no mundo. O discurso é de renovação. Li Keqiang afirmou, pouco depois de ser nomeado pelo partido, que as reformas econômicas "não podem atrasar" e "é o momento crucial para mudar o modelo econômico", sem, contudo, mencionar mudanças no plano social.

Arthur Ituassu (foto) cultiva uma visão pragmática em relação à troca no alto comando chinês: "mudam-se os nomes mas não se muda a práxis". Ele argumenta que, como o regime comunista ditatorial chinês independe da opinão pública, por não precisar de votos, as alterações alardeadas pelos reformistas nunca são sequer discutidas pelo Partido Comunista, que opta pelas resoluções a longo prazo. Para Ituassu, mesmo que as negociações internas do partido sejam complicadas e envolvidas por muitos interesses e disputas, quem participa destas negociações tem realidades muito específicas se comparadas ao contexto do país, onde 13% dos 1,3 bilhão de habitantes vivem com US$ 1,25 por dia, segundo a ONU, enquanto a Forbes aponta 2,7 milhões de chineses com patrimônio acima de US$ 1 milhão.

– Não muda nada. A China não tem tanto potencial de mudança quanto os Estados Unidos, por exemplo, porque não tem as boas universidades e o desenvolvimento tecnológico americanos. Não se pode olhar mais apenas o PIB da China, isso não significa nada mais, é um número bruto. Não dá pra achar que o mundo vai mudar porque até 2020 o PIB chinês será maior que o dos Estados Unidos. Está acontecendo um processo de concentração de renda há algum tempo na China. Isso é um absurdo para um regime que se coloca como comunista – ressalta. Carlos Serra

Bocayuva também considera que as mudanças no poder central chinês dificilmente se estenderão às práticas dos comunistas. Ele observa, pelo contrário, uma China ainda mais expansionista e ambiciosa, principalmente no sul e sudeste asiáticos, onde a força da economia chinesa cria relações de dependência que condicionam e estimulam a produção da mão de obra barata e farta da população:

– À China, interessa ser uma potência econômica defensora dos seus interesses regionais. Quanto mais tempo puderem manter o sistema de governo, as parcerias e as funções na divisão do trabalho, melhor. Principalmente no sul e no sudeste asiáticos, observa-se a China criando uma área econômica de interdependências. A geoeconomia deslocou seu centro para estas regiões. O dinamismo da economia global passa por elas, e a China é o epicentro desta mudança. As cadeias produtivas estão conectadas à Ásia.

Para entrar no mercado internacional com mais competitividade e bom preço, o governo da China promove a desvalorização da moeda corrente no país, o yuan. O lucro vem em dólar e a folha de pagamento é feita na moeda desvalorizada. Ituassu aponta que a estratégia, uma das principais causas da concentração de renda que se intensifica na sociedade chinesa e distancia suas classes, é garantida pela compra ostensiva de títulos da dívida pública americana pelo país asiático:

– A dívida vem desde 1971 sem solução por parte dos Estados Unidos. Enquanto os americanos não conseguem resolver, a dívida desperta interesse dos chineses, que compram muitos dos titulos da dívida para manter o dólar forte e garantir o fôlego do maior mercado consumidor do mundo, que ajuda muito no crescimento econômico, grande plataforma do partido comunista.

Já Borges consegue enxergar alterações no horizonte chinês. Acredita que a configuração da economia mundial faça a locomotiva dos negócios mundiais dar mais ênfase ao mercado interno. Para ele, com a intensificação das diferenças sociais a "questão interna torna-se uma questão de sobrevivência para o partido que comanda o país desde 1949":

– A estrutura da economia global faz com que a China precise mudar o foco do mercado externo para o interno. A desigualdade aumentou muito e a própria sobrevivência do partido comunista se deve a algum tipo de arranjo das forças sociais. Ele deve produzir redistribuição de riquezas e colocar foco sobre o mercado chinês. Embora as mudanças não sejam aclamadas pelos comunistas, são muito importantes para eles.

Sob a crise renitente, Europa busca austeridade que solucione a dívida mas "ampare as pessoas"  

O estouro da bolha imobiliária americana, em 2008, ainda reverbera. Não só nos Estados Unidos, onde, ainda no início do ano, o presidente Barack Obama fez cortes da ordem de US$ 450 bilhões em segurança e anunciou o aumento dos impostos para combater o déficit. Na Europa, buscam-se saídas para combater a crise da Zona do Euro, especialmente drástica em países como Espanha, Itália, Irlanda, Portugal e Grécia, onde o desemprego entre os jovens chega até a 40%, e a moeda única é incerta no longo prazo. Na dianteira da recuperação europeia, a Alemanha, do governo conservador da primeira-ministra Angela Merkel, propõe políticas austeras para países em recessão. 

Para Ituassu, a austeridade resolve o problema da dívida, "mas não o das pessoas", e gera muita instabilidade politica. Uma das saídas, segundo ele, seria a adoção de um modelo como o defendido pelo economista americano Paul Krugman, cuja teoria incorpora a política na economia por meio de uma austeridade mais consciente e planejada, "que ampare também as pessoas". Na opinião do analista, este tipo de planejamento será fundamental à União Europeia, porque a crise não deve deixar o Velho Continente tão cedo. 

– Vai demorar muito a recuperação. O problema da Europa e da crise do euro remete também a dívidas públicas em paises periféricos, como Espanha, Italia, Grécia e Irlanda. Solução econômica é fácil, mas e as pessoas? E o ambiente político? A solução passa por isso: fazer um balanço de austeridade mais a longo prazo e ir amenizando a situação politico-social. O problema é que a população está acostumada à tradição europeia em gastos de bem-estar social. Isso alongará o processo, o que é complicado em regimes democráticos – admite.

Para Bocayuva, a Europa precisa definir padrões políticos e sociais que consigam sustentar os pesos de uma moeda como o Euro e de um espaço de discussão como a União Europeia:

– A crise deve se aprofundar ainda mais, porque a Europa não decidiu claramente qual a sua constituição política. E isso está ligado ao seu pacto social. Na medida em que ela não se interessa em manter o pacto social original, o euro, por si só, não segura a União Europeia. A Europa deveria mostrar ao mundo um melhor contrato social, que indique o que a diferencia dos Estados Unidos, da China, da América Latina. Se perder esse espaço comum de discussão institucionalizado, ela perde tudo.

Apesar dos esforços para conter o endividamento dos países debilitados, analistas mais pragmáticos enxergam que a Zona do Euro corre risco de entrar em colapso e ser extinta. Entretanto, os discursos de autoridades como o premiê italiano, Mário Monti – “é um túnel, mas há alguma luz no fim dele” – e o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mário Draghi – “faremos o que for possível para salvar o euro” – descartam tal possibilidade.

A União Europeia, lembra Ituassu, é um "garantidor da política internacional". Caso este modelo chegue à falência, o professor prevê acirramentos internos que trariam à Europa os traumas de uma sociedade marcada por duas guerras mundiais:

– Muitas unidades soberanas dentro de um espaço pequeno é uma situação complicada, mas pode-se criar um elo de união, como a União Europeia, com uma constituição que garanta o funcionamento do bloco. A Europa não é os Estados Unidos da Europa, porque os países europeus têm muito mais soberania que as unidades americanas, mas a ideia é se aproximar de uma configuração que garanta uma convivência minimamente pacífica entre as unidades na região. Sem a União Europeia, podemos ter problemas sérios na Europa, com a volta de acirramentos.