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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Crescimento interno desafia um Obama mais agressivo

João Pedroso de Campos - Do Portal

08/11/2012

 Arte: Carlos Serra

O desfecho da corrida à Casa Branca não foi inédito, mas o seu desenrolar apresentou ao atual morador da mansão presidencial dos Estados Unidos, Barack Obama, um concorrente competitivo. O democrata Obama e o republicano Mitt Romney disputaram uma campanha inflamada pelo discurso de saneamento econômico em que a postura confiante “América Avança”, adotada pelo candidato democrata à reeleição, venceu a posição de franco-atirador do republicano que, apesar de sugerir algum liberalismo, refletiu a dificuldade do partido em dialogar com latinos, negros, homossexuais e mulheres: a nova demografia norte-americana cujo voto, pró-Obama, foi decisivo em estados como Ohio e Pensilvânia e ajudou o democrata a conseguir 332 delegados no colégio eleitoral. Nos últimos quatro anos na Casa Branca, Barack Obama enfrentou a crise econômica, que arranhou seu discurso crítico à economia de George W. Bush, e conviveu com o déficit. Especialistas projetam os desafios da economia e da política externa para os próximos quatro anos, período no qual o presidente conviverá com um Congresso dividido, que já o fez propor uma união aos republicanos.

Segundo o cientista político e professor da PUC-Rio Ricardo Ismael (foto), o perfil de Romney não foi capaz de vencer o do candidato à reeleição porque, diferentemente da Europa – onde a crise foi mais agressiva e as taxas de desemprego chegaram a 25% na Espanha e na Grécia –, nos Estados Unidos não foram adotadas medidas tão austeras quanto as que degradaram a relação entre a população e os governantes daqueles países. Ismael aponta este como um dos fatores decisivos aos resultados eleitorais obtidos por Obama e por ex-líderes europeus, como o esquerdista espanhol José Luiz Zapatero e o conservador francês Nicolas Sarkozy, que não se mantiveram no poder depois da crise: “Austeridade e desemprego são uma combinação trágica para qualquer governo”, observa professor. Ele compara:

– Há uma diferença entre as crises em EUA e Europa, onde ela foi mais aguda. A taxa de desemprego passa de 25% em países como a Espanha e a Grécia. Na França chega a 10%. Na Europa houve a política de austeridade, corte de gastos, demissões em massa, que exigem um sacrifício grande da população. Nos Estados Unidos o desemprego está em 8%. Nos quatro anos do Obama houve expansão dos gastos, o déficit público aumentou.

 Mauro Pimentel Ismael avalia que uma melhora nos índices econômicos – principalmente nas taxas de desemprego – da Zona do Euro e o combate ao déficit americano concorrem para a superação da crise em que a economia dos Estados Unidos, a maior do mundo, mergulhou desde o estouro da bolha imobiliária em 2008, que tirou US$ 3 trilhões de circulação no país. Para o professor, o capital político de Barack Obama, naturalmente menor do que há quatro anos, foi reduzido pelo desgaste do presidente em projetos como o ObamaCare, reforma no sistema de saúde do país, e principalmente afetado pela aposta econômica de Mitt Romney: ao longo da campanha, o republicano exaltou seu perfil de empresário bem-sucedido, que daria cabo às principais aflições do eleitorado nestas eleições: emprego e impostos.

– A vitória apertada indica que o capital político de Obama diminuiu, mas dá um impulso novo a ele para os quatro próximos anos. E mostra uma confiança do eleitorado no presidente para resolver a questão do desemprego, que não passa, vale ressaltar, apenas pela vontade de Obama: há uma crise internacional, principalmente na Europa, que é um componente importante além do problema interno dos EUA. É evidente que os caminhos para a geração de empregos não são fáceis, triviais – pondera Ismael.

O professor do Departamento de História da PUC-Rio Maurício Parada ressalta que um dos principais desafios do presidente reeleito é conter o pacote de austeridade fiscal que, previsto para entrar em vigor em janeiro, cortará US$ 600 bilhões da economia americana. Para evitá-lo e caminhar no sentido de uma reforma fiscal que diminua taxas e tributos, estimular o consumo da população e fazer a roda da economia girar, Obama terá de revigorar suas habilidades políticas num Congresso dividido: maioria democrata no Senado – 53 das 100 cadeiras – e maioria republicana na Câmara dos Representantes (deputados federais) – 227 das 435 cadeiras. Neste jogo, há outros atores significativos, lembra Parada, assim “não se deve olhar apenas para a eleição de presidente”:

– A questão que se coloca em relação ao estímulo ao consumo é uma reforma fiscal. É um elemento importante para resolver os problemas de consumo, ou pelo menos contribuir para isso. Uma reforma como esta depende de uma série de fatores: a configuração do Congresso é um deles. Tem de se ver qual é o limite e o que é possível fazer neste limite. Uma expansão de crédito agora não é possível, portanto imagino que uma reforma fiscal seja mais viável – prevê o especialista – Há muita coisa em jogo. O ideal é que se olhe não apenas para a eleição do presidente, mas para toda a conjuntura que se formará depois destas eleições. Inclusive as configurações externas, como a mudança política na China. Uma maior competitividade dos EUA no mercado externo também é fundamental, mas isso também depende de um fator externo: a China.

O professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio e especialista em relações internacionais Arthur Ituassu destaca que, ao declarar o fim das guerras do Afeganistão e do Iraque, Barack Obama corta gastos onerosos ao orçamento dos Estados Unidos e constrói uma imagem de pacificador. Ituassu aponta que os democratas têm feito um balanço positivo entre reforma fiscal e manutenção do ritmo da economia: “impostos muito agressivos podem favorecer recessão”. Mas ressalva como principal desafio o controle do déficit orçamentário, “que se arrasta desde os anos 1970, não será solucionado no curto prazo”. O déficit superou, pelo quarto ano seguido, US$ 1 trilhão, segundo o Departamento do Tesouro norte-americano. (Veja artigo de Ituassu sobre o cenário americano).

– Existe um balanceamento entre reforma fiscal e manutenção do ritmo da economia que os democratas vêm fazendo. Este balanço é necessário porque, se os impostos forem muito agressivos, haverá perigo de recessão, perda de empregos, crescimento baixo, além do cenário social tumultuado. Entretanto, é necessário fazer cortes – reconhece – O fim das guerras é uma forma de cortar gastos, e é o que Obama vem fazendo. Ele chegou ao governo com duas guerras em andamento e está saindo delas. O ponto principal não é somente ser mais pacífico, é que a guerra envolve muitos gastos. Contudo, também não dá para deixar de gastar, ou a economia viverá o fantasma da recessão – pondera.

Mais "introspectivos" no xadrez internacional, EUA priorizam Europa e Oriente Médio

Com o fim dos conflitos iniciados em nome da chamada “guerra ao terror”, Ituassu avalia que a política externa dos Estados Unidos tende, cada vez mais, à introspecção. O resultado decorrente desta posição seria a poupança de recursos que se destinariam ao saneamento da economia do país e de problemas internos. Se ficar confirmada a tendência, Ituassu acredita que seria incerta a entrada dos EUA no combate com o Irã, por exemplo, caso Israel inicie ataques ao país de Ahmadinejad. O especialista lembra que a nova conduta internacional dos Estados Unidos pode ser ilustrada, por exemplo, pela intervenção na Líbia, que ajudou a derrubar, no ano passado, o ditador Muammar Kadhafi:

– A intervenção foi via Otan e teve a participação de britânicos e alemães, não foi uma intervenção americana. A última coisa que o governo democrata quer é complicações externas. A tendência é que as coisas no Irã permaneçam tensas, mas que fiquem como estão: com sanções e negociação. Há uma tentativa, por parte dos Estados Unidos, de controle de Israel também. Se Israel atacasse o Irã, não tenho certeza de que os Estados Unidos entrariam no conflito. O governo Netanyahu é conservador e talvez preferisse um republicano. Um novo conflito seria fatal à economia americana.

Para Maurício Parada (foto), “Europa e Oriente Médio estão na linha de frente das relações internacionais dos EUA”. Ele avalia que, além das negociações com os iranianos, os últimos acontecimentos na fronteira entre Turquia e Síria, como os bombardeios turcos a alvos sírios no início de outubro, são um foco de tensão com que os Estados Unidos se preocupam. O especialista também acredita que a relação entre Obama e o governo conservador de Benjamin Netanyahu continuará mais distante do que o primeiro-ministro israelense gostaria: Arquivo Portal PUC-Rio

– A vitória do Obama não é exatamente um estímulo ao governo de Israel. Isso pode desacelerar as radicalizações internas no país, que preferiria um republicano na Casa Branca. A Síria não será um problema de fácil solução a curto prazo e a fronteira com a Turquia está sob tensão depois de ataques de ambos os lados. As políticas ao Irã e à Síria continuarão duras, com sansões, porém de negociação, muito diferente das propostas de Mitt Romney. Cabe ressaltar, contudo, que propor uma postura é diferente de governar. Na Europa, grande aliada militar dos EUA, a manutenção do euro e de uma ordem europeia estável que marcou a sociedade europeia nos últimos anos são aguardadas por Obama.

Ismael projeta que as situações políticas na Síria, onde a guerra civil já matou 30 mil pessoas desde o início dos conflitos entre as forças armadas sírias sujeitas ao presidente Bashar Al Assad e rebeldes, e na Líbia, que vive um momento de transição política, devem ganhar destaque na agenda do presidente Obama, assim como as tensões entre Israel e Irã:

– Os dois pontos mais importantes, pelo menos no curto prazo, são a crise na Europa, que é gravíssima, e a situação política no Oriente Médio. A Europa continua batendo recordes de desemprego mês a mês, a situação ainda não possibilita uma luz no fim do túnel e é difícil imaginar uma recuperação plena dos Estados Unidos sem a recuperação da Zona do Euro. No Oriente médio, imagino que a tensão entre Irã e Israel, a guerra civil na Síria e a mudança de governo na Líbia serão monitorados pelos Estados Unidos.

Atenção protocolar à América Latina, que tem peso reduzido na agenda internacional americana

Ricardo Ismael prevê ainda que a América Latina tenha um espaço reduzido na política externa dos Estados Unidos, em que pesem hostilidades à política externa norte-americana na região. Apesar das críticas, as relações comerciais entre a Venezuela do presidente reeleito Hugo Chávez, que declarou “preferir a reeleição de Obama à eleição de Romney”, e os EUA devem continuar normalmente, segundo o cientista político.

– A América Latina continua tendo um peso menor na política externa dos americanos. Eles continuarão mantendo uma atenção protocolar a esta região, mas sem colocar na agenda as questões latinas. Não é uma prioridade fazer uma incursão na região para tentar mudar as posições dos governos para cá ou para lá, os americanos se concentrarão em problemas mais sérios, como a política no Oriente Médio e a economia na Europa – aponta o especialista.

Maurício Parada reforça o uníssono dos especialistas: a região tem importância reduzida na pauta internacional dos Estados Unidos. Continuará sendo observada à distância pela Casa Branca:

– A América Latina, mesmo crescendo e tendo mais presença, não é uma questão importante dentro da discussão americana. Haveria uma mudança se Romney fosse eleito. Ele prometia uma posição mais conflitiva no cenário internacional.

“Relação com a China é de amor e ódio”, afirma especialista

Já a China, segunda economia do planeta e país que mais cresce no mundo, exige da Casa Branca grandes doses de atenção e habilidades econômicas e diplomáticas. O PIB chinês teve, no último trimestre, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a menor expansão desde a intensificação da crise econômica mundial, no início de 2009: ainda assim, expressivos – para qualquer outro país – 7,4%. Todavia, este crescimento é atribuído por grande parte da comunidade internacional a condições de trabalho impróprias, que diminuem o custo final dos produtos. Entre os críticos estão os americanos, cuja população, segundo Ricardo Ismael, tem comprado cada vez mais produtos chineses. O cientista político qualifica a relação entre os dois países como de “amor e ódio”, porque, apesar de criticado sobre aspectos relativos aos direitos humanos, o país oriental é o maior comprador de títulos da dívida pública dos Estados Unidos, que, para Ismael, são um trunfo dos americanos no financiamento do seu déficit que não deve mudar.

– Com a China, há uma relação de amor e ódio. Por um lado, os chineses tiram muitos empregos dos americanos, mas, por outro, tem um papel importante na compra dos títulos públicos da dívida americana. Uma parte considerável do superávit comercial na relação entre os dois países é aplicado nos títulos do tesouro. Isso é fundamental para que os EUA continuem financiando seu déficit. É difícil imaginar que, pelo menos no curto prazo, haja algum tipo de embate mais sério na relação, como Romney propôs na campanha. Os dois países têm de articular mais, a China só é o gigante que é porque os consumidores americanos compram muito produtos de lá. E os Estados Unidos só conseguem atravessar a crise e financiar seu déficit porque ainda há alguém interessado nos seus títulos de dívida – argumenta.

Parada também avalia que, mesmo com mudanças no comando do Partido Comunista Chinês – o vice-presidente Xi Jinping será nomeado líder do Partido Comunista e Li Keqiang será o próximo primeiro-ministro –, a relação com os Estados Unidos não deve sofrer grandes alterações:

– Na China o jogo é de cartas marcadas, imagino que a posição dos EUA não mude, porque ambas as economias são muito ligadas. Mas é claro que as mudanças na China podem alterar, ainda que pouco, o cenário. O certo é que a China vai continuar com seu crescimento, mais demorado, mas ainda expressivo.

Ituassu também acredita que, em nome da manutenção da ordem internacional e de interesses econômicos, as relações entre as duas maiores locomotivas do mundo não devem sofrer alterações:

– China e EUA não têm interesse em mexer nas relações econômicas. As duas economias são muito ligadas. Isto tem ido e voltado nos discursos da politica americana, e os chineses têm interesse na manutenção da estabilidade econômica americana. Por isso, são os maiores compradores de títulos da dívida pública dos Estados Unidos. A intenção não é controlar os Estados Unidos, até porque isso é impossível apenas com a compra de títulos, mas manter a estabilidade da maior economia do mundo. Países como China e Brasil são hoje conservadores da ordem internacional. Eles estão crescendo na ordem como ela está, e neste momento não há interesse numa mudança.

EUA-Brasil: protecionismo, visitas e observação

O Brasil, a despeito da aproximação observada nos últimos quatro anos, ainda acompanha a América Latina como região periférica na pauta externa dos Estados Unidos. Assim afirma grande parte dos analistas. Ismael identifica, todavia, independência do discurso do Brasil na ONU, em relação ao norte-americano. Ele diz que a liderança brasileira na América do Sul é reconhecida pela Casa Branca:

– Ultimamente, qualquer presidente americano faz visitas ao Brasil. Obama fez uma no ano passado, o primeiro da gestão Dilma. Ele deve manter a boa relação com o Brasil, reconhecendo a liderança brasileira na região, onde há uma acomodação. Há a reeleição do Chávez e as principais lideranças nacionais se mantêm no poder. Esse xadrez político regional não tem grandes mudanças. Os Estados Unidos têm uma política mais pragmática de tolerar Chávez e as lideranças hostis e priorizar a relação com o Brasil, que começa a alçar voo próprio no cenário internacional. Isto é, não se alinha automaticamente às posições americanas, mas também não embarca nas hostilidades de Chávez e Morales.

Para Ituassu, os Estados Unidos não reconhecem outra potência no continente além deles. O professor da PUC-Rio lembra que esta visão foi uma marca da agressiva política externa norte-americana desde o ideal da Doutrina Monroe de “América para os americanos” que, no século XIX, se opunha ao colonialismo europeu nas Américas e se aproveitou disso para disseminar liderança e influência dos Estados Unidos na região. Ituassu observa que o Brasil, apontado como emergente liderança sul-americana, tenta, na maioria das vezes sem sucesso, superar as barreiras protecionistas americanas:

– O Brasil tem uma importância reduzida na agenda dos Estados Unidos. Nem a eleição de Obama nem a de qualquer outro presidente mudaria a relação com o Brasil. Há problemas de protecionismo, mas isso passa muito pelo Congresso americano. Não se deve olhar apenas a eleição do presidente. O Itamaraty faz lobby no Congresso americano há anos, sem resultados. Há setores muito enraizados ali, cujas medidas, por exemplo, prejudicam o suco de laranja brasileiro.

A posição atual do governo americano é, segundo Maurício Parada, uma tentativa de fortalecer órgãos multilaterais de discussão e de enfrentar o problema da competição externa estimulando a própria economia. Ele acredita que uma vitória republicana neste momento aumentaria o protecionismo americano e diminuiria as exportações do Brasil aos Estados Unidos – que , segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, cresceram 11,7% em 2012 e devem ultrapassar os US$ 265 bilhões negociados em 2011.

– A vitória de Obama, apesar da posição sempre dura dos Estados Unidos no comércio internacional, favorece a disposição ao diálogo e às negociações. Os governos de Dilma e Obama tiveram, no ano passado, uma boa relação. Acredito que o comércio é uma área de disputa e continuará sendo. O que muda é o protecionismo, que é ora maior, ora menor. Mas não me parece que os EUA entrarão numa rota mais protecionista com um democrata na Casa Branca. Romney teria uma mão mais pesada em termos de comércio internacional. As coisas devem continuar no mesmo ritmo – projeta.