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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Drummond, escritor do cotidiano, poeta do real

Tiago Coelho - Do Portal

01/11/2012

 Divulgação

Na poesia de Carlos Drummond de Andrade cabe todo tipo de complexidade e contradição, como destacaram especialistas em literatura que estiveram nesta quarta-feira, 31, no Dia D promovido pelo Instituto Moreira Salles para comemorar os 110 anos de nascimento do poeta. Os escritores Ferreira Gullar e Eucanaã Ferraz e o professor de literatura da USP Ivan Marques analisaram diferentes aspectos da poesia de Drummond, como o conteúdo político, as intenções modernistas e a ligação do poeta com a morte. A conclusão sobre o trabalho do escritor é uma só: Drummond era um poeta sem par.

O mineiro de Itabira, além de poeta, era também cronista. Em mais de 60 anos de produção, tudo aquilo que marcou a vida de Drummond não passou em branco em sua poesia. A saída de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, as transformações políticas por que o mundo passou, as estéticas artísticas intensas, as inquietações sobre a vida e a morte, tudo tinha valor para ele.

O poeta e as posições políticas: entre o coletivismo e o pessimismo

Segundo Gullar, capturar a realidade em prosa e verso é o que caracteriza a obra de Drummond, que registrou experiências vividas em sua obra.

– A poesia é resultado de como você vê o mundo. Quando Drummond saiu de Minas para o Rio, seu olhar sobre o mundo mudou, pois sua realidade se modificou. Isso tudo porque era um escritor do cotidiano, um poeta do real.

Para Gullar, a A rosa do povo, de 1945, representou uma grande mudança na obra do poeta. Naquele ano, os horrores do nazismo e o fim da Segunda Guerra Mundial interferiram no olhar do poeta, que passou a produzir uma poesia mais engajada, chegando a escrever para o jornal do Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes. Desta fase, Gullar lembra as divergências do escritor com os stalinistas do partido:

– No período da guerra, Drummond descobre o socialismo. Surge um poeta engajado. O jornal do Partido Comunista na época era muito sectário, de linha stalinista, e passaram a corrigir os artigos dele. Drummond acaba rompendo com o jornal. Mas no expediente da publicação eles mantiveram o nome do poeta por muito tempo – contou Gullar, bem-humorado.

O Drummond coletivista, preocupado com as questões do mundo, dá lugar a um outro poeta, mais pessimista, quando rompe com as ideias socialistas e entra num momento bipolar, dividido entre o capitalismo e o socialismo. A partir daí, um poeta desacreditado entra em ação.

– Com o passar do tempo, depois de reflexões e rupturas, sai o Drummond coletivo e entra um mais pessimista, que acha que o mundo não vale a pena.

Gullar, que também é poeta, completa afirmando que é na contradição que a obra do colega enriquece.

– Drummond tem uma complexidade muito grande. Sua linguagem é de uma limpidez e uma maturidade surpreendentes. Como ele, há poucos no mundo e na poesia brasileira não tem igual. É o grande poeta brasileiro por sua densidade e contradições. Pois poesia é aquilo que não se sabe.

Antes de aderir ao socialismo, Drummond aceitou o convite do amigo Gustavo Capanema para chefiar o gabinete do Ministério da Educação do primeiro governo de Getúlio Vargas.

– Nesta altura da minha vida, não tenho o direito de pedir coerência de ninguém – disparou Gullar, antes comunista convicto, hoje um crítico do modelo, arrancando risadas da plateia. – As coisas são complicadas. Quando olhamos o passado, temos um olhar muito mais crítico.

O mineiro e a angústia da morte

Não foi apenas com a política que Drummond se viu em conflito com as questões da vida e da morte. As angústias do poeta, compartilhadas em versos e cartas escritas a amigos como o paulista Mário de Andrade, serviram de base para a análise do escritor e professor da UFRJ Eucanaã Ferraz. Em alguns fragmentos da obra do mineiro, Ferraz identifica uma tristeza profunda.

– É um poeta que está sempre em conflito com o mundo. Há sempre um desconforto, mesmo quando ele está feliz. Quando lhe surge a felicidade, vem sempre uma espécie de culpa, e ele busca uma fuga para isso.

Em certa carta a Mário de Andrade, Drummond torna explícito o flerte com o suicídio. Andrade era um confidente que sempre auxiliava o escritor mineiro em seus momentos de angústia, como revelou Eucanaã Ferraz, citando um episódio entre o mineiro e o paulista sobre alguns poemas que Drummond pensou em queimar em um momento de tristeza.

– Drummond uma vez pensou em tocar fogo em alguns de seus poemas. Mário de Andrade ordenou que, em vez disso, lhe enviasse cópias deles. Disse a Drummond que aqueles poemas não o pertenciam mais, e que não tinha condições de tomar decisões sobre eles. E assim fez Drummond.

Mas, se a morte está presente na poesia do autor, há sempre uma valorização da vida que comprova o que há de especial nas dualidades drummonianas.

– Nos poemas de Drummond, mesmo nos que falam de morte, há sempre uma afirmação da vida. A compreensão da morte é, de alguma forma, uma afirmação da vida. Estas dualidades partem deste complexo.

Drummond: um modernista arcaico

Um mineiro do interior migra para uma das maiores cidades da América Latina. Para Ivan Marques, professor de literatura da USP, esse dado define a temática e a estética de Drummond. O pesquisador destacou que, ao mesmo tempo em que resguardava as bases do modernismo, rompendo com a rima e a métrica, Drummond também recorria a essas estruturas. Da vida simples em Itabira ao mundo conturbado da metrópole carioca, era um modernista que tinha os clássicos como parte de sua formação.

– Drummond é nosso poeta moderno remanescente do arcaico. Ele é uma conversão e um desvio da estética da primeira fase do modernismo. Aderiu ao nacionalismo da geração de 1922, mas com desconfiança. Por outro lado, No meio do caminho, uma peça chave da poesia drummoniana, é uma obra modernista.

 

 

No meio do caminho havia um cinema

Seja na poesia ou nas crônicas que publicava em jornais ou revistas, o cinema era um tema constante na obra de Drummond. Sua admiração, em particular, pela atriz Greta Garbo gerou uma citação em uma poesia e uma crônica especialmente escrita para ela. Para homenagear o autor o Instituto Moreira Salles promoveu ontem, 31, dia do aniversário de 110 anos do poeta e que tinham Greta Garbo como protagonista. Grande Hotel (1932); A dama das camélias (1937) e Ninotchka (1939), foram alguns dos filmes com a musa de Drummond. No livro Farwell, o poeta mineiro homenageou a atriz com o poema Os 27 filmes de Greta Garbo. Em uma crônica na revista Minas Gerais, em 1930, os escritor publicou um texto sob o pseudônimo de Antônio Crispim. Em O fenômeno Greta Garbo o escritor sentencia: “Greta Garbo é um assunto sempre novo. Todo mundo gosta de Greta Garbo.