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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

A múltipla fatura de uma tempestade de US$ 20 bilhões

Caio Cidrini, Carlos Serra, João Pedroso de Campos, Renan Rodrigues e Vítor Afonso - Do Portal

30/10/2012

 Arte: Carlos Serra

O saldo é drástico. Quinze mortos na Costa Leste, meio milhão sem luz em Manhattan, centenas de áreas alagadas nos estados de Nova York e Nova Jersey, paralisação da Bolsa e do transporte público na principal metrópole americana, sem contar o apelo simbólico de uma Broadway poupada do blecaute mas deserta de gente, como se retratada pela lente do cinema-catástrofe, formam a fatura imposta pela tempestade Sandy, com ventos acima dos 100 km/h, que atingiu os Estados Unidos nesta segunda-feira, depois de deixar 59 mortos no Caribe, 44 deles no Haiti. Enquanto o presidente Barack Obama decreta estado de emergência em Nova York e, a exemplo do seu oponente na corrida à Casa Branca, Mitt Romney, suspende os compromissos de campanha, a população daquela área tão representativa para o país, e para o mundo, tenta despertar de um pesadelo cujo impacto na rotina insinua-se maior até do que o legado pelo 11 de Setembro. No Canadá, Sandy fez um morto e também causou uma série de prejuízos.

Em cálculo preliminar, analistas estimam que a recuperação de construções, vias e serviços atingidos, como o sistema de metrô, ônibus e trem, custe aos cofres americanos algo em torno de US$ 20 bilhões (R$ 40 bilhões). Contabilizadas as perdas relativas à interrupção da Bolsa e do transporte público, além da turbulência no fluxo turístico – resultado do cancelamento de dezenas de voos, 17 deles com o Brasil –, a conta torna-se ainda mais salgada, de difícil projeção. O economista José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio pondera, entretanto, que o fechamento da Bolsa de Nova York compromete os negócios momentaneamente, mas "não terá grandes desdobramentos":

– Os negócios são adiados, porém, quando a Bolsa for reaberta, as negociações deverão retomar a normalidade. Acredito que grande parte dos efeitos seja passageira.

Há 28 anos radicado em Woodside, no distrito de Queens, o carioca Carlos Belo dirige uma empresa de transporte voltada aos 2.500 brasileiros que moram em Nova York. Embora apreensivo com o cenário de terra arrasada observado em diversos pontos, sobretudo aqueles surpreendidos também pela escuridão, mais ao sul da ilha, ele acredita que o impacto seja "temporário" e a cidade recupere logo a rotina:

– Todos os dias, 12 voos lotados chegam a Nova Iorque. Desembarcam, em média, 1.500 turistas por dia, para roteiros de negócios ou lazer. Até por conta deste fluxo intenso de visitantes, a cidade tende a se recuperar rapidamente – argumentou Belo, por telefone, ao Portal.

Ele reconhece, no entanto, que a cidade “está parada”. Estabelecimentos fechados, serviços de trem, metrô e ônibus interrompidos, ruas desertas, e a fé de que o pior já passou. Apesar da uma morte decorrente de queda de árvore no Queens, Belo avalia que os danos revelam-se relativamente brandos:

– Ontem (segunda) observei duas ou três árvores caídas. Não há desespero, é apenas um alerta. Mas o vento ainda é forte – relata ele, lembrando do furacão Irene, que rondou a região no ano passado – A situação é parecida, apesar do alarde da imprensa. Estado de emergência, sim, mas de relativa tranquilidade.

Carlos Belo tem razões para relativizar os estragos. Está numa região poupada do blecaute que atingiu 500 mil moradores. Ele diz que as áreas mais afetadas estão na orla, principalmente em Manhattan e Connecticut.

 Brenda Leal A apreensão também cruzou o passeio da estudante brasileira Brenda Leal, de 19 anos. Hospedada desde a sexta-feira passada em Manhattan, ele confessa que, apesar da recomendação para a permanência no hotel, ela arriscou uma pequena volta pelas imediações. Viu lojas fechadas, mas, como havia luz, andou "sem problemas".

Brenda considera que o estado de emergência decretado pelo presidente Obama seja "muito mais uma precaução para evitar perdas maiores". A estudante garante que a fúria de Sandy não estragou a viagem por Nova York, "muito proveitosa e divertida". Mas conta que o tráfego aéreo seja normalizado, para voltar ao Brasil na data prevista: próxima quinta.

Furacão não deve afetar inclinação de voto do eleitor de Nova York, avalia especialista

Outro possível prejuízo, ainda mais difícil de precisar, ronda a maré política. A megatempestade tende, segundo analistas, a intensificar a turbulência entre Obama e Romney em relação ao modelo para combater desastres naturais. Enquanto o presidente defende a manutenção de uma agência centralizadora, administrada pelo governo federal, seu oponente prega a autonomia dos estados para lidar com respectivos desastres. Baixada a poeira, ou a água, da Sandy, a discussão deve ganhar força na reta final da campanha, até as eleições de 6 de dezembro.

O cientista político e professor da PUC-Rio Ricardo Ismael prevê que o presidente Barack Obama deve se despir momentaneamente da candidatura para “monitorar os desastres econômicos”. Para o analista, a esta altura da campanha presidencial, um desastre como o Sandy pode ser traiçoeiro ao democrata: “Obama não pode tirar capital político com isso. Mas, se ele cometer um erro grave e for negligente, favorecerá Romney”. Ismael avalia como "fatais" deslizes como os associados ao ex-presidente George Bush no gerenciamento do furacão Katrina, que assolou Nova Orleans em 2005.

– Em nível federal, ele (Obama) deve estar monitorando e dando apoio à estrutura local. Estados mais ricos já têm uma estrutura pronta para agir. Desastre natural depende muito das prefeituras, que já contam com um esquema estabelecido antes. O governo federal apoia, mas quem está à frente é o próprio prefeito. No furacão Katrina havia áreas pobres ligadas. Com o rompimento de um dique, houve consequências ao governo Bush – lembra Ismael, segundo o qual a resolução de incertezas em estados como Flórida e Ohio tendem a ser mais determinante à sucessão presidencial do que a contabilidade de danos causados pela megatempestade.

Ainda de acordo com a avaliação do especialista, os 15 mortos e a paralisação do transporte público, principais sequelas na metrópole, devem ser insuficientes para alterar o perfil de voto do eleitorado de Nova York, tradicionalmente alinhado ao Partido Democrata:

– O evento causa atenção porque é midiático, mas não mudará o voto dos indecisos. O transtorno maior seria, para Obama, a interrupção da campanha. A eleição vai se dar em estados que não foram afetados.

Quanto à provável estratégia de Romney, Ricardo Ismael segue a mesma lógica:

– Ele se pronunciará caso o governo federal erre gravemente, algo pouco provável.

Sandy perderá força nos próximos dias

Embora o clima eleitoral possa esquentar, meteorologistas descartam, por ora, a possibilidade de maiores desastres decorrentes da fúria climática. O furacão que virou megatempestade preocupou, e ainda preocupa, os americanos não só pelos danos à economia e à rotina, mas pela característica singular do fenômeno, cuja rota trocou o tradicional caminho da Flórida e avanço rumo à parte superior da América do Norte.

Simulações feitas pela meteorologia local apontam que, nas próximas 24 horas, o ciclone perderá força e se tornará tempestade tropical. Ainda assim, os ventos seguirão com velocidade de 80km/h e a população deverá continuar em alerta.

Meteorologistas afirmam que ainda não há como precisar quando a tormenta nascida nas águas mornas do Atlântico Norte irá se dissipar totalmente. Uma frente fria formada na metade do continente americano deverá se encontrar com a tempestade e provocar chuva e nevascas. Serviços meteorológicos dos EUA estimam que o volume de chuva poderá ser até três vezes maior do que o esperado para o período.