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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

"Burocracia é um horror", diz Domingos de Oliveira

Tiago Coelho - Do Portal

10/10/2012

Após a exibição do filme Primeiro Dia de Um Ano Qualquer (2012), no Armazém da Utopia, no Porto, Domingos de Oliveira recebeu a imprensa e os espectadores para um debate sobre seu 15º longa-metragem. Com o bom humor que lhe é peculiar, o cineasta chegou cantando uma versão brasileira da trilha do filme O mundo da fantasia (1954) que diz que “não há nada igual ao show bussines”. E deste universo Domingos conhece bem. Ator, roteirista, diretor e músico, ele transita em diversas artes e mídias. Um verdadeiro showman que tem seu nome gravado no mundo do entretenimento desde 1962.

O filme, apontado como um dos favoritos a ganhar o prêmio Redentor do Festival do Rio 2012, conta a história da relação entre familiares e amigos no primeiro dia do ano. Um verdadeiro desfile de interessantes tipos humanos vistos sob a generosa lente do diretor. 

Com sua formação em teatro, Domingos é considerado um bom diretor de atores, como lembrou o crítico do Estadão Luiz Carlos Merten, presente no debate. As relações familiares, o casamento, o amor e o envelhecimento são os elementos representados na tela e emoldurados por uma bela fotografia. Assim como o personagem Napoleão, que interpreta no filme e diz a pérola “se você não gosta de gente a culpa é sua. Pois toda pessoa é interessante”, Domingos se diz um apaixonado pelo humano e pela profissão de ator:

– Se colocassem um marciano dentro do cinema ou do teatro, ele não entenderia nada, pois é uma coisa muito humana. Acho a arte do ator uma grande arte, pois tem que usar a imaginação que é a única capacidade realmente livre do ser humano – filosofa.

O seu interesse pelo ator se justifica pelo fato de estar sempre acompanhado deles. O cinesta assistiu à película acompanhado do elenco e dividiu a mesa de debates com as belas Maitê Proença, Dedina Bernadeli e a esposa Priscilla Rozenbaum.

O filme, aliás, nasceu de uma “ação entre amigos” na casa da atriz Maitê Proença, que protagoniza a obra. A história não só foi idealizada na casa da atriz, como foi toda rodada na bela residência que Maitê tem na serra fluminense. Entre a ideia e a realização do projeto, foram necessários apenas 4 meses. E as filmagens duraram apenas 12 dias. A atriz, avessa a mostrar a casa em revistas de celebridades, abriu as portas para 80 pessoas (a equipe do filme e seus agregados como filhos e cônjuges).

– A história surgiu na minha casa, entre as pessoas que estavam ali comigo. O Domingos estava fotografando e achou que toda aquela beleza não deveria ficar em uma foto parada, mas sim numa fotocontínua, num filme.

Segundo Maitê Proença, isso foi possível pois os amigos que frequentam sua casa no filme são os mesmo que a visitam na vida real, incluindo Domingos de Oliveira. Até o cachorro da atriz fez uma ponta.

– No filme, assim como na minha vida pessoal, os amigos são meus e o cachorro também. Quando vi tinha uma multidão na minha casa, foi enlouquecedor – contou a atriz que emprestou inclusive os objetos de arte para as cenas e o carro da filha.

O esquema de produção foi definido pela produtora do filme, Tereza Gonzales, como uma associação. E apesar de ter sido feito com poucos recursos, é uma produção tão cara quanto qualquer outra:

– Fizemos em esquema de cooperativa. Todos os atores se associaram. Produzir filmes no Brasil custa caro, e este tem o mesmo custo que os outros filmes nacionais – disse a produtora que informou que o longa custou R$ 1,80 milhão.

Domingos de Oliveira contou que muitos trabalharam apenas pelo prazer de participar do projeto.

– É uma ação entre amigos. Ninguém assinou nada. Ficou combinado de que quando pintasse alguma grana nós pagaríamos. Todo mundo trabalhou sem receber e isso me deixou muito emocionado. 

O cineasta aproveitou para espinafrar a burocracia que gira em torno das produções cinematográficas no Brasil:

– Burocracia é um horror. Um mal moderno.

A equipe acha que a exposição do filme no Festival do Rio chame atenção de distribuidores e exibidores e que o longa entre em circuito no início do próximo ano.

Domingos, porém, não faz grandes planos e se mostra pessimista:

 –Este filme não tem lugar no mercado. Não vai ser como o filme do Breno Silveira que tem 400 cópias distribuídas. O meu deve fazer no máximo 20.

Seja pelos diálogos criativos, o humor apurado e por participar dos próprios filmes, Domingos costuma ser comparado ao nova-iorquino Woody Allen. Quando um convidado da plateia o pergunta sobre o que ele acha de ser considerado o Woody Allen brasileiro, o cineasta não perde a oportunidade de fazer piada:

– Espero que o Eduardo Paes esteja ouvindo isso – brincou o diretor sobre os rumores de o atual prefeito do rio estar disposto a financiar um filme de Allen rodado no Rio.

Quando insistem para que Domingos aponte uma diferença entre ele e o diretor de “Manhattan”, ele manda mais uma:

– Digamos que ele tem mais facilidade de produção do que eu. Mas eu adoro o Woody Allen. Acho ele um gênio. É quem melhor pensa o mundo moderno.

O que muitos desconhecem ao tecer a comparação é que Domingos de Oliveira estreou na profissão no mesmo ano que o Woody Allen, e desde seu primeiro filme Todas as Mulheres do Mundo, de 1966, o diretor brasileiro destila seu estilo inconfundível.

Quando questionado sobre suas cenas preferidas, o diretor aponta uma que homenageia a sétima arte. Napoleão, seu personagem, está assistindo ao filme A Felicidade Não Se Compra (1946), quando é esquecido pelos amigos na sala de cinema. Quando percebe o que aconteceu, Napoleão dispara: “Fui esquecido dentro de uma sala de cinema e isso é uma honra”. Mais Domingos de Oliveira, impossível.