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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


Cultura

Documentário mostra bastidores do golpe de 64

Tiago Coelho - Do Portal

02/10/2012

Divulgação

A justificativa do governo militar era assumir o poder apenas para “arrumar a casa”, em caráter transitório. Mas a arrumação se converteu em uma ditadura que durou 21 anos. Este é mote do documentário O dia que durou 21 anos (2011), que relata o período que antecedeu o golpe de 1964, que levou os militares ao poder. O filme, exibido na Premiére Brasil domingo, teve nova sessão ontem no Armazém da Utopia, no Porto, com um debate reunindo o diretor, personagens do filme e especialistas.

O interesse do diretor Camilo Tavares era contar uma história que não é bem explicada nas aulas de história. Filho do jornalista Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos pedidos em troca da liberdade do embaixador Charles Elbrick em 1969, ele mesmo teve a história marcada pelo regime. Por este motivo, Camilo nasceu no México.

Flávio Tavares acredita que, mesmo inconscientemente, o interesse do filho foi movido por questões pessoais:

– Meu filho nasceu no México. Acho que ele quis resolver um problema existencial. Ele nasceu no exílio, faz parte da história dele.

– Fiz o filme para conhecer esta história que faz parte da minha vida e da de muita gente – resumiu o cineasta.

Filme expõe ligação dos Estados Unidos com a ditadura no Brasil

Como observou Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo, o documentário consegue ser didático sem perder os atrativos de uma história bem contada.

O jornalista Carlos Fico, uma das fontes do documentário, também elogiou o filme e disse nunca ter visto documentário tão bom sobre o tema. Autor de vários livros que revelam a ligação do governo americano com a ditadura, Fico disse que o filme resume com competência como os Estados Unidos financiaram, através da CIA, o golpe militar. Para o jornalista, há documentos mais do que suficientes, e o filme é importante para dissipar as dúvidas que ainda resistam:

– A certeza se configurou quando tivemos acesso a documentos sobre a operação Brother Sam.

A operação, retratada no filme, foi uma ação do governo americano que ameaçou secretamente enviar uma frota militar do Caribe para o Brasil caso houvesse resistência ao golpe de 1964. O golpe, segundo Fico, foi articulado em 1963 e teve o conhecimento dos militares, diferentemente do que afirmam setores das Armadas.

A história lança luz ao nome de Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no Brasil e que foi grande incentivador da política de Washington que interviu na política brasileira, sob a liderança do presidente Lyndon Johnson. O filme mostra o temor americano de que um país grande como o Brasil se alinhasse ao comunismo durante a Guerra Fria. Reformas de base propostas por João Goulart, como a agrária, causavam temeridade à potência capitalista. Plínio Arruda, que era relator do projeto, conta no documentário o drama da cassação política imposta pelo regime militar.

O jornalista afirmou que João Goulart não resistiu ao golpe para não haver derramamento de sangue e, sobretudo, porque sabia do enfrentamento norte-americano:

– Jango não resistiu porque tinha informações sobre as tropas. Ele sabia que, se resistisse, os Estados Unidos, que eram o principal investidor estrangeiro no Brasil, poderiam contra-atacar. Não deixou de reagir porque era covarde, mas porque sabia que os americanos eram o maior mantenedor do Brasil.

No filme, há depoimentos de jornalistas, historiadores, políticos e de ex-integrantes do governo americano. Para a jornalista Denise Assis, outra pesquisadora do assunto, apesar de o documentário ser conduzido de forma confessional, destaca-se a qualidade da apuração das informações:

– As questões tratadas no filme ficam patentes e contundentes de forma digerível para qualquer plateia. Do ponto de vista jornalístico, é feito com um vigor de apuração como nunca se fez.

Denise acrescenta que o êxito do golpe não se deve apenas aos militares e o apoio dos Estados Unidos. Empresas e setores da elite apoiaram a instalação da ditadura – na madrugada de 31 de março de 1961, quando tropas lideradas pelo general Mourão partiram de Juiz de Fora com destino ao Rio de Janeiro, onde se iniciaria o movimento armado que perduraria até 1985.

– O golpe não foi militar apenas. As empresas, as mulheres das elites cariocas e a igreja também estiveram à frente. As empresas estrangeiras lavavam dinheiro enviado pela CIA em contas publicitárias – acrescenta Denise.