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Rio de Janeiro, 26 de abril de 2024


País

Por que o jovem está mais distante da política, no mundo

João Pedroso de Campos - Do Portal

02/10/2012

 João Pedroso de Campos

O alheamento dos jovens à política é, segundo especialistas, um fenômeno mundial. Embora mobilizado por discussões comportamentais – como as associadas a diversidade sexual, legalização de drogas e caminhos religiosos –, o jovem se ressente da falta de bandeiras políticas "mais fortes e apaixonantes", apontam pesquisas mundo afora. O Brasil segue a tendência. Recente estudo da agência paulistana Na Mosca traça um perfil da participação política do brasileiro de 16 a 30 anos: dos 784 ouvidos, 57% identificam escassez de representantes políticos que lutem pelos interesses da juventude, apenas 10% se dizem satisfeitos com a prática política no país e 24% gostariam de ser mais engajados politicamente. A convite do Portal PUC-Rio, analistas apontam os motivos e as implicações em torno desta inclinação anti-política.

Para o professor de Ciência Política da PUC-Rio e Coordenador do Instituto Mais Democracia, João Roberto Lopes Pinto, o descrédito com relação à política é difuso, "atinge a todos, independentemente das faixas etárias". Ele pondera, contudo, que o jovem, por estar em fase de "definições determinantes", é mais sensível à estrutura política e ainda tende a manifestar suas insatisfações de maneira mais contundente.

– O jovem é um dos mais atingidos pela violência e pelas faltas de emprego e perspectiva, mas é também o primeiro a perceber esta falta de compromisso. Ele nota a égide dos grandes grupos econômicos que financiam as campanhas. Mas tal percepção deve levar a juventude a se mover. Ela tem um papel fundamental, pode chacoalhar a política – afirma o professor.

 Carlos Serra  Há pouco mais de 20 anos, os jovens brasileiros mostraram na pele, literalmente, este tipo de descontentamento e ajudaram a chacoalhar para fora do Planalto um ex-Caçador de Marajás. O Movimento dos Caras Pintadas simbolizou uma geração que resgatou a tradição militante, normalmente aflorada contra perdas de liberdade e de perspectiva profissional, ao ganhar as ruas para pedir a saída do então presidente (e hoje senador) Fernando Collor de Mello, envolvido em denúncias de fraudes e corrupção. Na era da internet, em que revoluções políticas como as que constituíram a Primavera Árabe surgem primeiramente na rede, essas manifestações da juventude ganharam um adereço que substitui as tintas dos anos 1990: a máscara do anti-herói “V de Vingança” (foto), das histórias em quadrinhos de Alan Moore (1982) torna-se frequente em protestos do gênero. Os mais recentes, que eclodiram contra a corrupção no Brasil, e Wall Street, o coração econômico dos Estados Unidos, contaram com um sem-número de mascarados.

"Geração Y acomoda-se à sombra das instituições democráticas"

O cientista político Adrian Gurza Lavalle, professor da Universidade de São Paulo (USP), avalia que o jovem da geração Y – nascido entre 1980 e meados da década de 1990 –, mesmo totalmente imerso na era da informática e da internet, não é mais individualista ou menos crente na coletividade como encadeadora de mudanças. Para ele, o distanciamento identificado por pesquisas decorre da falta de identificação do jovem com a pauta dos governantes. Os eleitores daquela geração, observa o especisliata, acomodaram-se à sombra das instituições democráticas e não valorizam tanto a liberdade política e o voto por não terem vivido sem eles:

– Os jovens Y beneficiam-se hoje da existência de regras e instituições democráticas conquistadas por gerações anteriores. Para eles, essas regras e instituições, a própria democracia, são um dado do mundo.

Embora refira-se, particularmente, ao jovem brasileiro, o professor da USP estende o desinteresse político à esfera mundial. Acredita que se deva, em parte, a mudanças nos partidos, que "não têm mais tanto apelo ideológico aos eleitores". O argumento reforça a necessidade de uma iniciativa praticamente consensual entre analistas do setor, adiada por sucessivas administração públicas: uma reforma política que aperfeiçoe os mecanismos da democracia representativa brasileira, com a qual se tenha, por exemplo, uma nitidez sobre os propósitos, compromissos e ideologias partidários. Gurza Lavalle considera que o envolvimento do jovem exige a compreensão, pelos agentes políticos, de como e onde ele manifesta suas preferências morais sobre a ordem social:

– A dificuldade em atrair essa faixa etária não é um problema só dos partidos brasileiros. Os diagnósticos chegaram primeiro da Europa. Os partidos perderam algo da sua centralidade no último quarto do século XX. Deixaram de ser percebidas e de agir como instituições cruciais da sociedade civil e ganharam progressivamente o caráter de corporações com o monopólio de um domínio de representação.

"Universidade deve contribuir para uma formação pública"

Para Lopes Pinto, o “onde” são as universidades. O meio acadêmico, lembra ele, jamais deve priorizar os resultados no mercado de trabalho em detrimento de um espaço para a politização. O cientista político da PUC-Rio acredita que “muitos universitários se formam fora da realidade brasileira”.

– As universidades são onde o jovem está, mas, se estiverem voltadas prioritariamente a produzir resultados, se distanciarão da sociedade – alerta – Questões sociais deveriam ser mais incluídas no meio acadêmico para mostrar a realidade brasileira e para que o jovem possa realmente interferir na política, apesar do desencantamento natural com ela nessa fase da vida. Deve-se trabalhar para que o jovem tenha uma formação mais pública.

O Brasil despeja R$ 50 bilhões por ano no ralo da corrupção, segundo o Fiesp. Mas os escândalos constantes envolvendo a classe política e a sensação ainda predominante de impunidade, segundo o cientista político da PUC, não são as únicas molas a impulsionar o alheamento do jovem em relação à política. Ele reafirma que o caráter econômico incorporado à maneira de se fazer política no Brasil a tornou um espaço anti-construtivo, cujo olhar é desviado de projetos e temáticas que interessam aos jovens:

– A representação politica hoje, sem generalizar, é um teatro em que os atores têm interesses escusos, velados. Ela é privatizada, sem dimensão pública. Essa é a contradição: a economia influencia a política e está a salvo dela. Isso se traduz em ausência de políticas públicas que beneficiem os mais jovens e os mais pobres. A raiz do descontentamento do jovem e da população como um todo não é só o dinheiro da cueca, o mensalão. A insatisfação é quanto à posição do privado sobre o público – avalia o cientista político.

Ele chega a propor uma nova forma de votar:

– Talvez plebiscitos e votações em leis atraíssem mais os jovens. Votar em pessoas é secundário, deveríamos votar nas leis.

Gurza Lavalle concorda que a corrupção não é a raiz absoluta do problema. Ele ressalva, por outro lado, que os avanços socioeconômicos podem se tornar um instrumento favorável ao engajamento político:

– Seria possível fazer o argumento inverso: a melhora dos indicadores socioeconômicos nos últimos 14 anos é uma mostra gritante de que as políticas (e por tanto, a política) fazem diferença, a despeito da corrupção – contra argumenta o professor da USP.

Diretórios de Juventude buscam integrar o jovem com "consciência"

Jovens responsáveis pelos Diretórios de Juventude do PT, do PSDB e do DEM – três dos partidos mais numerosos na Câmara Federal com, respectivamente 87, 52 e 44 deputados cada – contaram ao Portal o que têm feito para politizar os contemporâneos e renovar a militância "com qualidade". Eles  estão entre os 440 mil brasileiros entre 16 e 28 anos que, segundo a pesquisa Sonho Brasileiro, são filiados a partidos. A pesquisa revela, entretanto, que 59% dos consultados não têm partido de preferência e 83% concordam com a afirmação de que o poder político concentrado na mão de poucas pessoas é o grande problema do Brasil. O estudo comprova também que o jovem sente-se pouco representado pelo sistema político institucional e, assim, redefine o que entende por política e suas possíveis formas de participação: a internet é a eleita o novo meio para se atuar politicamente.

Secretário estadual da Juventude do PT (JPT), Daniel Gaspar (foto), de 28 anos, ressalta que os jovens se organizam em movimentos sociais variados, como estudantil, feminista, de combate à homofobia, pastorais de juventude, de bairro e por "memória, verdade e justiça", entre outros. Para ele, o jovem, filiado ou não a partidos, deve lutar para que temas afins ganhem as plataformas das legendas e amadureçam em políticas públicas específicas.  Arquivo Pessoal

– Nos últimos oito anos houve avanços. O partido organizou duas Conferências de Juventude, com grande participação popular. Foi criado o Conselho Nacional de Juventude e a Secretaria Nacional de Juventude – destaca.

O presidente da Comissão Executiva da Juventude PSDB carioca, Pablo Guimarães, de 28 anos, concorda com o professor João Roberto Lopes Pinto sobre a importância das universidades para o estímulo à reflexão e à mobilização políticas. Na opinião dele o movimento estudantil "deve se blindar às influência partidárias, de maneira a não se tornar mero instrumento de manobra e de atração de votos". 

– Temos trabalhado, nos últimos anos, neste sentido. Formamos um grupo que trabalha, estuda e faz política por ideal. Procuramos promover eventos de conscientização e formação política, dos quais todos podem participar, independentemente de filiação partidária – convida Lopes.

Presidente da Juventude Democratas carioca, Bruno Kazuhiro, 24 anos, considera que fatores como a  estabilidade democrática, o crescimento econômico e o individualismo tenham reduzido a quantidade e a intensidade dos fenômenos reivindicatórios típicos da juventude. Ainda na visão de Kazuhiro, também contribuem para este arrefecimento a baixa confiabilidade da classe política, mas não a ponto de "levar exclusivamente a culpa": 

– Creio que não se pode atribuir a baixa participação dos jovens a apenas um fator. Obviamente, a credibilidade da classe política anda em baixa, mas não acredito que tudo se resuma a isso. Além disso, me parece que a lacuna existente no ensino formal, na imprensa e na mídia a respeito de temas como civismo, cidadania e consciência política tamném colaboram para esta situação.

Gaspar observa que medidas como o estabelecimento da cota de 20% para jovens nas instâncias de direção partidária, a Caravana da Juventude, "que fortalece a juventude nas campanhas municipais", e um "intenso e obrigatório" processo de formação política revelam-se essenciais para reagrupar os jovens:

– Acreditamos, também, que os jovens devam atuar fortemente nos movimentos sociais. Por isso a JPT, participou, neste ano, de mobilizações, por exemplo, contra o aumento das passagens nas Barcas e pelo aumento do orçamento para a educação – acrescenta Daniel Gaspar, que se diz entusiasta de uma ampla reforma política.

Guimarães afirma que, no PSDB, a novidade destas eleições é o estímulo à participação jovem por meio da unificação dos esforços em torno de candidaturas únicas e mais representativas da juventude do partido, não só na capital, mas em todo o estado do Rio. O democrata Kazuhiro assegura também que o partido tem dado apoio e autonomia à ala jovem, até como estratégia para qualificar as futuras gerações do partido.

Pesquisas de intenção de voto para as eleições municipais mostram que, em meio às evidências de afastamento e ceticismo, a juventude mira renovação: a maioria dos jovens eleitores inclina-se para candidatos mais novos ou estreantes. Se dependessem apenas do voto desse eleitorado, Marcelo Freixo (PSOL), Gabriel Chalita (PMDB) e Manuela D’Ávila (PC do B), talvez pudessem cultivar ambições maiores do que provocar os segundos turnos em Rio, São Paulo e Porto Alegre, respectivamente.