Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Ele comanda o invisível mundo por trás das projeções

Caio Cidrini * - Do Portal

01/10/2012

 Maria Christina Corrêa

Invejado por cinéfilos, porém invisível aos 17 milhões de brasileiros que, segundo o Datafolha, vão esporadicamente ao cinema, o projecionista é peça chave na indústria da "maior diversão". Também conhecido como operador de projeção cinematográfica, cuida para que cada imagem revelada na película, geralmente de 35 milímetros, esteja perfeita na tela. A cada 24 fotogramas, o profissional constrói um segundo de história. Ao arrematar o trabalho de roteiristas, produtores, atores, diretores, editores, defende a máxima de que nada vale um grande filme com uma projeção ruim. Mas, como se costuma dizer do juiz de futebol, só é notado quando erra.  

Apesar da importância do ofício, o número de projecionistas no mercado nacional é pequeno: um por sala. Embora o Ministério da Cultura pretenda tornar o Brasil o quinto maior mercado cinematográfico do mundo, o país reúne apenas 2.236 salas. O volume deve saltar para 3.250 até 2015, o que indica um aumento na quantidade de operadores. Todavia, o avanço revela-se distante dos números observados nos principais polos internacionais da atividade. Enquanto a média brasileira é de uma sala para cada 85 mil espectadores, nos Estados Unidos fica em torno de 7 mil; no México, de 18 mil; na Itália, 15 mil e na Argentina, de 35 mil espectadores. Outro empecilho ao projecionista é a falta de representatividade, pois não há sindicato ou movimento que lute para melhorar a remuneração média, no país, de R$ 690 por mês. Ainda assim, sobram paixão, perseverança e fôlego aos que encaram a missão de, com mais tecnologia e menos glamour, fazer a bola do cinema rolar. Equipe do Portal PUC-Rio conversou com um destes abnegados, dos mais experientes do Festival do Rio, com quase 20 anos de projeção.

 Maria Christina Corrêa Gilberto Ribeiro dos Santos, o Gil, de 37 anos, é o responsável pela sala 1 do principal cinema do Circuito Estação: o Estação Sesc Rio, em Botafogo. Desde 1996, passa ali 303 dias por ano. Folga uma vez na semana, um domingo no mês e nos dias 24 e 31 de dezembro. Mergulhado na rotina dos filmes, reconhece que a vida social perde para vida por trás das sucessivas projeções:

– Eu trabalho das oito da manhã às sete da noite. Não tenho muita vida social. Perco até aniversário de filha, de esposa, sem contar os churrascos de fim de semana...

Gilberto, claro, gosta de cinema. Aprende "muita coisa" com os filmes que passa. Ele confessa, no entanto, que a repetição volta e meia põe o tédio em cartaz:

– Antes de me invejar, o cinéfilo deveria pensar duas vezes. A semana toda vejo o mesmo filme, sete, oito sessões. Chega uma hora em que não presto mais atenção e acabo fazendo outras coisas. Leio livro, jornal e até navego num notebook que um amigo me trouxe. Desde que não atrapalhe a projeção, não tem problema – ressalva o operador veterano.

À mesa do café do Estação, o morador do Catumbi avalia que seu desempenho, predominantemente técnico, é favorecido pelos avanços digitais. O domínio de botões e calibragens destinados a projetar o filme com a qualidade desejada de aúdio e imagem soma-se ao olhar calejado de quem já viu milhares de produções, de variados gêneros e orçamentos, um olhar capaz, por exemplo, de prever a reação da plateia sobre uma cena. 

Para Ana Luíza Lopes, 20 anos, aluna do curso de Cinema da PUC-Rio, a experiência pode ser proveitosa para quem pretende ser cineasta. "É importente conhecer todas etapas de cadeia de produção e exibição", justifica. A futura profissional diz que valoriza muito o trabalho do projecionista, pois ele "capricha para que tudo dê certo e o filme passe sem problemas."

– Além do mais, assistir aos filmes de graça deve ser bom – acresenta, bem-humorada, a estudante.

Já o também aluno de Cinema Helio Chrockatt, de 21 anos, prevê que a digitalização do cinema transforme efetivamente a função do projecionista em "algo mecânico":

– O trabalho será selecionar um filme e dar play, além de ajustar o tamanho da tela e o foco. Não será necessário gostar ou conhecer cinema para tabalhar – opina.

Gil discorda. Considera imprescindível, à eficiência do ofício, o encantamento não só pelo cinema, mas pela necessária contribuição para que se consuma o casamento entre arte e diversão. A despeito das dificuldades do “trabalho solitário”, Gilberto é apaixonado pelo que faz. Tão apaixonado que, nas poucas vezes em que consegue ir ao cinema com a família, acaba reparando e analisando o rendimento do projecionista da sala.

– Trabalhar com isso mudou a minha visão. Eu começo a ver o trabalho de quem está lá em cima. Vejo o que está dando errado, o que está fora de foco. É um colega de trabalho, mas existe gente que gosta do que faz e gente que faz por necessidade. Eu gosto, e acabo me incomodando – ressalta ao repórter, enquanto caminha para a cabine da sala 1, seguro de que fará bonito em mais uma maratona do festival carioca, que exibe, até o dia 11, mais de 400 produções.

 Maria Christina Corrêa A rotatividade maior do festival exige, logicamente, mais atenção do operador. Até porque ele responde também pelo cumprimento da ordem de exibição. Normalmente, esta sequência é programada por semana, renovada a cada sexta-feira. Na última sessão de quinta-feira, o programa é desmontado e na sexta de manhã o novo programa é montado.

– Eu que escolho a ordem dos trailers – orgulha-se Gil.

Ele trabalha no Estação Sesc Rio desde que a casa foi inaugurada, 1992. Tinha só 17 anos e começou como uma espécie de vigia diurno. Em quatro anos, assumiu a cabine de projeção depois de tanto observar e ajudar os operadores antigos. Aprendeu “com a mão na massa”:

– Não se estuda para ser projecionista. Você precisa acompanhar quem sabe. Com um bom mestre e a prática, você é capaz de fazer um bom trabalho.

Como em qualquer profissão, erros cruzam o caminho. Ele lembra que no Festival do Rio de 2010, montou metade de Federal (2010), com Selton Mello, de cabeça para baixo. Percebida a barbeiragem, Gil tratou de corrigi-la rapidamente:

– Eu tive que parar e tirar, rebobinar, ajeitar e emendar o resto do filme – explica, com gestos que apontam a intimidade com o mundo invisível da projeção.

 Maria Christina Corrêa Lembrado só quando uma falha prejudica a exibição, e algumas vezes interrompe a sessão, o projecionista deve cultivar equilíbrio para, não raramente sob vaias, solucionar rapidamente o problema. Em duas décadas de carreira, passou por algumas situações do gênero. Segundo ele, a reação dos espectadores é variada, desde os mais estressados, que exigem revalidação do ingresso, aos que apenas esperam pacientemente.

– Na maioria dos casos, o problema é técnico, não há como culpar o operador – explica Bruno Sá, coordenador de projeção do Circuito Estação e do Festival do Rio.

Além dos espectadores, Gilberto precisa lidar com outros dois tipos de público: a imprensa e os diretores. Ele também cuida das sessões para jornalistas e críticos, conhecidas como "cabines". Neste caso, o filme é montado e projetado fora do horário comercial. Já com os diretores, a relação é mais complexa. Alguns deles frequentemente pedem para que seja preparada uma sessão exclusiva, como objetivo de avaliar a obra antes do lançamento. Gil lembra com carinho do episódio com um dos mais conceituados diretores brasileiros:

– Uma vez o Walter Salles queria ver um filme no Paço Imperial, mas o cinema fechou na última semana de exibição do longa. Ele acabou pedindo para passar aqui, e deixou minha filha assistir junto. Fiz uma sessão para ele e para ela.

“Vai ser a melhor projeção da história do festival”

 Maria Christina Corrêa Assim afirmou Gilberto, que participou de todas as edições, reforçado por Bruno Sá, que só não trabalhou na primeira. O festival conta com oito projetores 2K, cuja resolução é duas vezes superior à do antigo digital, e um projetor 4K, no Odeon. Sessenta filmes do festival serão exibidios com esta tecnologia que, para o operador, representa um grande passo para melhorar a qualidade da exibição:

– Não vamos trabalhar mais com DVCAM, Blue Ray e DVD. Elas ganham em preservação e facilidade, mas perdem em qualidade.

O coordenador de projeção conseguiu os projetores por meio de convênios com a prefeitura de Paulínia (SP) e com a Barco, fabricante dos aparelhos. Bruno Sá fez o curso de projeção referente à nova tecnologia e repassou as orientações aos projecionistas do festival, entre eles, Gilberto.

Depois do período, os tais projetores serão devolvidos e Gil, Bruno, e outros tantos projecionistas e espectadores, ainda terão de sonhar com parâmetros mais próximos aos adotados em boa parte da Europa e dos Estados Unidos. Apenas 14% dos cinemas brasileiros são digitalizados com as tecnologias de alta resolução, contra 20% da média dos países latino-americanos. Na Europa Ocidental, o percentual é 51% e nos EUA, de 66%. Cada projetor 2k custa, em média, R$ 750 mil.

O Oscar de Gil vai para...

Como a filha de 14 anos é aficionada pelos lançamentos da indústria cinematográfica, Gilberto aproveita parte das poucas folgas para levá-la ao... cinema. Cumpre o dever de pai sem se influenciar pelo gosto que inclui filmes de vampiro e comédias românticas. Ele prefere filmes de ação, como indicam os seus eleitos:

Filmes:  1 - Velozes e Furiosos (2001, Rob Cohen)

            2 - Tropa de elite (2007, José Padilha)

            3 - Os mercenários 2 (2012, Simon West)

 

Atores: 1 - Sylvester Stallone

            2 - Vin Diesel

            3 - Arnold Schwarzenegger

* Colaborou Maria Christina Corrêa.