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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Crítica de Cinema

Documentário recompõe a aura e os ecos do Tropicalismo

Miguel Pereira e Tiago Coelho - Do Portal

25/09/2012

 Divulgação

Miguel Pereira*

As primeiras imagens de Tropicália, documentário de Marcelo Machado, mostram Caetano Veloso, em 1969, num programa da televisão portuguesa, afirmando que o movimento do tropicalismo tinha acabado. Ele e Gilberto Gil estavam a caminho do exílio, em Londres, depois de passarem pela prisão e pelo confinamento impostos pela ditadura militar. Diante de tal violência e cerceamento à criação artística, tomaram, a contragosto, o caminho possível da sobrevivência. Não fazia mais sentido algum continuar fora do país um movimento surgido num caldo cultural brasileiro. Significa dizer que o Tropicalismo foi também vítima da ditadura militar. O filme faz uma espécie de recomposição histórica, tentando estabelecer conexões entre a quebra de padrões musicais, promovida pelos baianos, em São Paulo, de 1967 ao final de 1968, e o contexto político e cultural daqueles anos.

O sentido das imagens de arquivo e os depoimentos são uma evidente evocação à Semana de Arte Moderna de 1922. Marcelo Machado constrói seu discurso cinematográfico através de parâmetros alusivos a outros momentos da história cultural brasileira onde a ruptura foi o procedimento inovador. O foco é certamente São Paulo, e, de algum modo, fica implícito que o tropicalismo está associado à capital industrial brasileira.

Já as últimas cenas do filme são imagens de arquivo que registraram o retorno do exílio dos baianos à terra natal e a festa em sua homenagem. O mais interessante desse momento da narrativa é a forma com que Caetano e Gil olham essas imagens do passado e cantarolam as próprias melodias. O sentimento não é de nostalgia. Expressam uma jubilosa e verdadeira alegria. A conjugação entre passado e presente não carrega qualquer tipo de ônus ou ressentimento, culpas ou denúncias políticas. Apenas celebram o momento vivido. É o prazer e o gosto de ser no mundo.

Se algo justifica o filme de Marcelo Machado é essa capacidade de tornar o passado presente, sem culpas ou determinações históricas. O vivido vale em si. O que se vai viver bebe no vivido, sem antolhos. Essa liberdade é o leitmotiv do documentário. O que talvez destoe um pouco é a forma ¨moderninha¨ de sua narrativa. Intervenções nas imagens de época, alguns efeitos digitais e sonoros, enfim, o uso das tecnologias contemporâneas nem sempre se somam à expressividade da linguagem. Viram adornos que distraem do essencial. Não se trata de cobrir eventuais deficiências das imagens originais. É mesmo uma tentativa de estilo, válida em si, mas poucoeficiente na forma de narrar.

O contraponto das imagens de Caetano e Gil que veem o que não vemos, mas ouvem o que ouvimos, diz tudo daquele sentimento impresso na imagem. A natureza do cinema é mesmo a sua verdade que a imagem imanta de forma encantatória. Quando isso ocorre, todo o resto é dispensável. Apesar desse apelo estilístico um tanto errático, o filme consegue uma eficiente comunicação com o seu público. Tropicália é, assim, um documentário musical, moda que parece estar em voga, que nos remete ao tempo presente embora falando do passado.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.

Tiago Coelho

Como um documentário cuja maioria das imagens é em preto e branco poderia explodir em cores e vitalidade? A resposta é simples: trata-se de um filme sobre o Tropicalismo, o mais inquietante movimento artístico brasileiro desde a Semana de Arte de 1922, que serviu de inspiração pela trupe liderada por Caetano Veloso e Gilberto Gil. No documentário Tropicália, o filme (2012), que está em cartaz em mais de 38 salas em todo o país, o diretor Marcelo Machado faz uma justa homenagem ao movimento antropofágico que sacudiu a cultura brasileira na segunda metade do século XX, mostrando suas influências na música, no cinema, no teatro, na poesia, nas artes plásticas e até na televisão.

Num intenso caldeirão de influências que vai de Mário de Andrade a Beatles, passando pelo Chacrinha, os tropicalistas conseguiram ecoar um grito que misturava alegria e rebeldia. A expressão tropicalista tinha uma aura em tecnicolor em plena ditadura militar, onde a vigência era que tudo fosse cinza-chumbo.

A história deste movimento, contada pelo documentário, começa quando Caetano Veloso chega da Bahia e encontra uma cena musical dominada por bossanovistas que cantavam um Brasil dos anos dourados, cada vez mais destoante da realidade dura em que se vivia no país e das mudanças pelas quais o mundo passava. Encantados com a música pop internacional, que naquela época ficava cada vez mais forte, e interessados em misturar estas influências com a musicalidade brasileira, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Gosta acompanhados dos Mutantes (Rita Lee, Arnaldo Batista e Sérgio Batista) e regido pelo maestro Rogério Duprat, mudaram a cara da música popular brasileira. Eles queriam mais do que um banquinho e um violão. A intenção era gritar aos brados uma nova possibilidade de se pensar o Brasil: “Não queríamos ficar naquele lugarzinho da segunda leva da Bossa Nova, falando sobre as coisas da zona sul carioca” – disse Caetano no filme.

O tempo era o final da década de 1960, nas cucas encaracoladas dos jovens do mundo todo estava passando uma profusão de ideias e questionamentos, e a Tropicália aparece justamente para deixar os jovens brasileiros em compasso com as contradições do mundo da Guerra Fria, sem deixar de trazer para a roda nossas próprias discussões. A estética tropicalista trazia a interlocução de várias manifestações artísticas. Do filme Terra em transe, de Glauber Rocha, ao teatro irreverente e crítico de José Celso Martinez Corrêa, com o Rei da vela (1967) em seu Teatro Oficina. Nada passava em branco pela ótica tropicalista. A ordem era: o que fosse sentido era reproduzido, como lembra Sérgio Batista dos Mutantes.

A realidade social brasileira, os costumes rígidos, o moralismo e a censura oficial, tudo isso servia de crítica para os tropicalistas. Já o Brasil alegre, festeiro e debochado, que tinha na TV a figura do Chacrinha como a mais perfeita epígrafe, servia de inspiração.

O documentário ilustra bem o espírito tropicalista com imagens preciosas de apresentações, entrevistas e bastidores da movimentada atividade dos artistas. Diferentemente de outros trabalhos documentais no cinema, onde imagens de arquivo são entremeadas por depoimentos dos personagens que em geral estão sentados, Machado fez a opção por contar a história do Tropicalismo por suas próprias imagens narradas pelos personagens desta história. Dos tesouros garimpados no documentário, há Glauber Rocha fazendo experimentações, as instalações de Hélio Oiticica, as apresentações do Teatro Oficina e os históricos festivais de música da TV Record.

O Tropicalismo, como todo movimento de vanguarda, causou incomodo e teve seus detratores, de todos os lados, da esquerda para a direita. O governo militar passou a perseguir o grupo por considerá-los contestadores demais, subversivos em potencial. Para um governo que tinha a censura como método de coerção, Caetano Veloso cantando que “é proibido proibir”, não era bem visto pelos homens de farda. A esquerda nacionalista e antiamericana os acusava de imperializados e entreguistas pela influência do rock. No contexto político da época, houve até artistas que fizeram passeatas contra a guitarra elétrica. O músico, escritor e desenhista Rogério Duarte, um dos criadores do movimento, traduziu em depoimento aquilo que de fato o tropicalismo foi: “A estética da Tropicália comportava as minhas contradições. O tropicalismo era síntese das contradições”, resumiu o intelectual.

A seleção musical apresentada no filme irá fazer os fãs de música brasileira sacudirem na poltrona. Tem Os mutantes cantando Dois mil e um e Panis et circense; Tom Zé cantando São São Paulo; Caetano Veloso com London, london e Gilberto Gil cantando Back in Bahia.

Em determinado momento do filme, Gal Costa narra uma história que ilustra bem o espírito tropicalista. Ela conta que estava cantando Divino maravilhoso, cujos versos dizem “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”, na televisão quando um homem começou a gritar “Fora!”. Gal disse que começou a cantar cada vez mais forte a canção. Aos poucos ele começou a se aquietar e acabou sentando. Isto é a Tropicália, e o filme reúne histórias que mostram o quanto o movimento pretendia pisar na porta e escancarar um novo caminho para a arte brasileira.

O legado tropicalista está presente na cultura brasileira intrinsecamente. Tudo o que apareceu na MPB depois do tropicalismo está ligado ao movimento.

Dos Novos baianos, que misturaram o samba com guitarras de rock, ao movimento do rock 80, no qual Os Paralamas do sucesso misturaram rock com batidas de samba. A marca da antropofagia está no DNA cultural brasileiro.

No momento mais marcante do documentário, Gil e Caetano saudosos e orgulhosos daquilo que marcou suas vidas (eles foram presos e exilados) cantarolam Back in Bahia, que diz: "Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim, Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar". Assistindo ao filme, ninguém fica imune à força artística do movimento. Atrás da Tropicália, só não foi quem não entendeu.