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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Campus

Novela, humor e futebol, três paixões nacionais em debate

Tiago Coelho - Do Portal

22/09/2012

Eduardo Ribeiro

Nem o intenso calor na tarde desta quinta-feira, 20, desanimou os alunos que lotaram a sala 102K para assistir ao ciclo de palestras da Semana de Rádio e TV. Lá, nomes experientes da comunicação falaram de três assuntos que mobilizam os brasileiros: o futebol, a telenovela e o humor. Para o veterano novelista Manoel Carlos, a roteirista novata Natália Klein e o jornalista Paulo Julio Clement, os estudantes sempre tinham na ponta da língua uma pergunta, dúvida ou questionamento.

Disponíveis, bem-humorados e sempre com boas histórias para contar, os três convidados mantiveram a plateia ligada durante toda a tarde. O início da carreira, as dicas para quem pretende seguir os mesmos passos e histórias e curiosidades do trabalho de cada um deles foram revelados aos futuros jornalistas, publicitários e cineastas.

Manoel Carlos anunciou que se prepara para escrever sua última novela e emocionou ao contar a história da menina com leucemia que o convenceu a não deixar morrer a protagonista de Laços de família. Natália Klein arrancou risadas mostrando como sua história pessoal inspira a personagem que interpreta na TV. Já o comentarista esportivo Paulo Julio Clement falou sobre o que é preciso para ser um bom jornalista, e criticou excessos de usuários de redes sociais como o Twitter.

Manoel Carlos – A vida se mistura com a arte.

Eduardo Ribeiro Maneco contou que deve escrever o seu último folhetim, previsto para 2014, e, depois disso, se dedicar apenas a minisséries. Quer fechar a trajetória de Helenas homenageando aquela que começou a galeria de mulheres que entraram para o imaginário coletivo da teledramaturgia. Julia Lemmertz será a escalada para viver a última Helena. Sua mãe, Lilian Lemmertz, foi a primeira.

– Estou tentando escapar de escrever mais uma novela. Mas, se tiver que fazer, será com a Julia Lemmertz, que é filha da Lilian, minha primeira Helena. Desta forma, fecho um ciclo. Depois, quero só fazer minisséries, adaptações. Acho que a adaptação literária é um caminho para a televisão brasileira. Só faço outra novela em 2014, quando tiver mais de 100 anos – brincou o autor, que tem 79.

Maneco desmentiu mitos em torno do nome Helena – já ouviu que as heroínas errantes das suas histórias têm o nome de sua mãe, de uma antiga namorada ou de uma de suas filhas. Na verdade, para ele Helena é um nome que permeia o campo da imaginação e remete à heroína grega:

– Não tem nenhum significado maior. Escolho esse nome porque acho que Helena não tem nome de uma pessoa real, mas sim de personagem. E é uma referência à Helena da mitologia grega, que para mim tem muitas das características da mulher contemporânea.

Maneco justificou a escolha do Leblon como cenário de suas histórias por gostar de escrever sobre o que conhece e gosta. Contou dar aos personagens o mesmo nome das pessoas com quem convive no bairro,

Também brincou com a fama de ter tornado o Leblon, cenário da maioria de suas novelas, no metro quadrado mais caro do Brasil. 

– As pessoas no Leblon me culpam por o bairro ser tão caro. Acham que inflaciono o Leblon porque as pessoas assistem às minhas novelas e acabam achando que lá é um paraíso. Mas nem é esse paraíso todo como falam – minimizou, rindo.

Sobre as brigas que costumam ocorrer entre diretores e autores durante uma novela, disse que consegue ter uma convivência harmoniosa com os que dirigem sua obra. Mas deixa claro que, em novela sua, quem manda é ele:

– O escritor é autoridade máxima de uma novela. Se ele não gostar de dirigir um ator, então pede para outro dirigir, mas um autor não pode escrever para quem ele não gosta – afirmou o novelista, que costuma levar em conta na condução de suas novelas a opinião do público, da família e das pessoas que o param na rua para dar sugestões.

Foi a partir do pedido de uma criança na rua que ele decidiu o destino de Camila, personagem que tinha leucemia em Laços de família (2000). Maneco disse que estava em dúvida se a personagem morria ou não. Num supermercado, uma menina de 8 anos que sofria da mesma doença o cutucou e pediu que a personagem se recuperasse da doença. A avó, que acompanhava a menina, explicou ao autor que ela assistia à novela e nutria a esperança de que, assim como Camila, iria se recuperar.

– Naquele momento não tive mais dúvida: a Camila não podia mais morrer. Tinha prometido à menina – lembrou Maneco, que sempre conta com um time de colaboradores e pesquisadores para auxiliá-lo em assuntos polêmicos.

De outra obra de grande sucesso, Por amor (1997), Manoel Carlos revelou outra boa história. Nas vésperas de gravar a fatídica cena em que Helena troca o bebê morto de sua filha pelo seu, que estava vivo, a atriz Regina Duarte telefonou para ele pedindo que suspendesse a cena. A atriz – que fez três de suas oito Helenas – argumentava que o público não entenderia os motivos e teriam ódio dela. O medo não foi apenas de Regina, mas de todos na emissora. Seguro de sua escolha, Manoel Carlos pediu que a cena fosse adiada e encomendou ao Fantástico uma enquete entre as espectadoras, e constatou-se que muitas mulheres fariam o mesmo se estivessem na situação da personagem. A cena não só foi gravada, como se tornou antológica na história da telenovela no Brasil.

Acostumado ao entra e sai dos filhos em seu escritório, contou que foi pai aos 19 anos e desde então está acostumado a desenvolver seus textos com a movimentação cotidiana do lar, diferentemente de colegas que preferem se isolar. Escreve, inclusive, em situações adversas. Perdeu dois de seus filhos tendo novelas suas no ar, e nunca interrompeu seu trabalho.

– Nossos filhos e amigos morrem, mas os dos personagens não. A novela continua – afirmou, lembrando que, em Sol de verão, o ator Jardel Filho, protagonista e seu grande amigo, morreu. Neste caso, em que escrevia especificamente para o amigo atuar, o autor antecipou o fim da trama, que perdera o sentido.

Sobre seu modo de trabalhar, diz não ter muitos métodos. Acorda, senta diante do computador sem a menor ideia e planejamento do que será o capítulo que irá escrever, apenas com o gancho da última cena do capítulo anterior. Sua rotina diz bem sobre a pessoa que demonstra ser e o tipo de novela que escreve:

– Nunca sei o que será dali para frente. Sento e vou escrevendo, vou tocando a história, sem saber que rumo vai tomar, assim como a vida.

Testemunha e personagem fundamental da história da TV brasileira, Manoel Carlos contou pessoalmente aos alunos da PUC passagens já estudadas em sala de aula. Do teleteatro nos anos 1950, na TV Tupi, aos musicais da Record como o Fino da Bossa e Esta noite se improvisa, nos anos 1960, até a consolidação da telenovela nos anos 1970, o dramaturgo demonstrou sua capacidade de contar boas histórias.

Maneco manteve cativa a audiência dos jovens desde o momento em que chegou até o fim da palestra, quando se aglomeraram em torno do ilustre morador do Leblon para tirar fotos. Autodidata, o novelista revelou que parou de estudar ainda no Ensino Fundamental e que, quando começou a escrever para a televisão, não havia referências nem cartilhas. Aprendeu a fazer roteiros “no tranco”. Com um estilo inconfundível em suas novelas e nas crônicas semanais na revista Veja Rio, aconselhou quem gosta de escrever roteiros a ler e assistir filmes.

Natália Klein

O que começou como um trabalho de conclusão de curso virou um blog, um programa de TV, pode virar filme e Eduardo Ribeiro catapultou Natalia Klein como atriz e roteirista da série Adorável psicose. Formada em Rádio e TV pela UFRJ, Natália chegou à palestra na PUC cheia de estilo, como a personagem homônima que interpreta na série do Multishow. Com uma bolsa que fazia referência ao “cara de bigode”, personagem da série, Natália conquistou a simpatia dos alunos mostrando que não é como a persona mal-humorada que encarna como jurada do Prêmio Multishow de Humor.

Logo de cara, os alunos da PUC quiseram saber: o que há em comum entre a Natália da TV para a da vida real? “Tudo”, foi a resposta.

Do nome às histórias vividas no cotidiano, assim como Manoel Carlos, aquilo que Natália vive vai para a tela. Por se basear em suas próprias experiências, considera natural que a personagem tenha o mesmo nome, além de seré uma forma de criar uma identificação mais direta com o público, ela diz:

– As primeiras temporadas eram muito focadas na minha vida e nas minhas histórias. Agora me sinto um pouco mais livre para criar situações imaginadas. Mas acho que, quanto mais me exponho, melhor para quem está vendo.

O fato de ter conseguido emplacar um projeto audiovisual tão jovem despertou curiosidade sobre qual o caminho que trilhou para conseguir mostrar seu trabalho TV. Natália contou que começou mostrando o trabalho aos professores, juntando a equipe da produtora em que trabalhava, e fazendo um blog e vídeos para internet. Com o piloto do trabalho pronto, ela conseguiu mostrar para a direção do Multishow, que aprovou e encomendou cinco programas – ela se prepara para a quarta temporada.

Para ter o trabalho exibido e reconhecido, Natália aposta na internet e recomenda que se use a web como vitrine. Para ela, a produção de conteúdo está passando por uma transição.

– Quando fiz os vídeos do Adorável psicose para internet, achava que eram bons demais para colocar na rede. Hoje, acho que a internet é subestimada. Tem programas, como Porta dos fundos, que está sendo patrocinado. Dá para ganhar dinheiro na internet. As emissoras vão ter que entender isso.

Ainda sobre a força da web, a roteirista contou como virais da internet podem ajudar novatos a “se mostrar”. Um vídeo de um garoto imitando a personagem Valéria, do humorístico Zorra Total, do qual Natália é roteirista, chegou ao conhecimento da redação. A brincadeira foi considerada tão boa que o rapaz foi convidado a participar do programa.

Sobre o humorístico da Globo, a roteirista afirma ter uma relação apenas profissional, por não ser o tipo de humor com que se identifica:

–Eu ligo um botão modo Zorra total e faço os textos. Este é o trabalho do redator profissional – disse Natália, cuja personagem favorita é a mendiga hightech Adelaide, que está sempre com seu “tablete”.

O sucesso da série Adorável psicose rendeu a Natália o convite para adaptar a história para o cinema. No ano passado, foi convidada para participar da série Macho man, interpretando Nikita, que considera o alterego de Fernanda Youg, autora da série da TV Globo.

O jeito irônico, as piadas sarcásticas e as histórias engraçadas que a Natália “de verdade” conta deixa claro que ela não é muito diferente da Natália da ficção. Nesta mistura do que é fictício ou e real, sobra inclusive para os mais próximos. Até os nomes de seus melhores amigos, Diogo e Carol, batizam os melhores amigos da ficção. O figurino pin-up que Natália usa na vida real às vezes vai parar na série.

Como o Adorável Psicose é produzido com a mesma equipe de amigos desde a primeira temporada, às vezes sai briga segundo ela. Como é a dona do roteiro, ela revela que acaba agindo como fiscal no set e não gosta quando alteram o texto que ela escreve meticulosamente para manter uma fluência nos diálogos.

Natália não escapou de responder sobre a onda politicamente correta que tem levado alguns humoristas para o tribunal. Ela diz que “à principio” pode-se falar sobre tudo, mas gosta de tomar certos cuidados. Ela defendeu o Rafinha Bastos e disse que as pessoas estão perdendo o senso de humor:

– As pessoas no Brasil se ofendem muito, não sabem brincar. Nos Estados Unidos as celebridades participam dos programas de humor, aqui querem processar. Eu tenho meus limites, mas reconheço que há uma limitação. O Rafinha (Bastos, ex-CQC), por exemplo, sempre é pego para Cristo. Há um grupo que agora está implicando com a Adelaide.

Natália fez todos rirem ao mostrar a foto da infância quando usava o penteado que chama de “volume vertical” (que também foi tema de um episódio do programa). Contou que sofreu buyiling na infância, e costuma fazer piada sobre isso, apesar de reconhecer o trauma. Tudo isso ela diz ter superado usando o humor como arma. Contra aqueles que a perseguiam na escola, ela revela com a ironia e o humor que lhe são característicos:

– Acompanho pelas redes sociais todos aqueles que me zoavam na escola. Uma delas está gorda e com dois filhos. A outra virou prostituta de luxo.

Ela reconhece ser neurótica como a personagem e revelou que quase não interpretou a si mesma na série. Mas foi convencida pelos amigos, a quem agradece a força que recebe:

– Quase não fiz eu mesma na TV. Era meu primeiro trabalho, estava insegura. Ainda bem que fiz. Se tivesse feito sucesso com outra atriz, eu ia querer que ela morresse – brincou a adorável psicótica.

Paulo Julio Clement: “Jonalista esportivo é como bilheteiro de cinema”.

 Com 25 anos dedicados ao jornalismo esportivo, Paulo Julio Clement credita o sucesso de sua trajetória profissional ao amor que sente pelo que faz. Do início da carreira, no Jornal dos Sports, até seu mais novo trabalho como comentarista da Fox News, Paulo alertou aos alunos de que só gostar de esporte não é o suficiente para ser um bom jornalista esportivo, e que só os dedicados sobrevivem na profissão.

Com passagem pelas principais mídias, o jornalista disse que é necessário que os futuros jornalistas tenham noção dos obstáculos da profissão para saber se é o que realmente querem.

– É bom para refletir se vale à pena. Não é nenhuma fraqueza desistir. A vida de jornalista esportivo é pesada.

Ele compara o trabalho do jornalista ao do bilheteiro de cinema:

– A gente trabalha enquanto os outros se divertem – brincou.

Paulo passou também pelas redações do Jornal do Brasil, do Globo, da rádio Globo, CBN e Sport TV. Neste tempo, viu importantes transformações no trabalho jornalístico. Algumas boas, outras nem tanto. Da parte boa, destaca o profissionalismo da cobertura jornalística, sobretudo no rádio:

– Havia uma cultura no rádio que confundia o departamento jornalístico com o departamento comercial. Locutores e repórteres faziam propaganda. Hoje isto acabou, felizmente.

Da parte ruim ele ressalta a dificuldade de se ter acesso direto aos jogadores, como havia antes. Hoje tudo é intermediado por assessores de imprensa, que mais dificultam do que facilitam.

Ele mesmo foi assessor de imprensa, de Ronaldo Fenômeno, em 2005, pouco depois de o craque ter se separado da modelo Daniela Cicarelli. Dessa época, lembra-se da dificuldade que teve em lidar com a imprensa de “celebridades”, que segundo ele publicava informações sem preocupação com a apuração. Para ele, a função do assessor não é ser babá de atleta:

– Tem assessor que vai buscar seu cliente no aeroporto, carrega mala. A função do assessor é trabalhar a melhor forma de o assessorado lidar com imprensa. Para mim, assessor tem que lidar com a imprensa.

Outra reclamação de Paulo é a falta de informação dos profissionais mais jovens. Dia desses ouviu de repórteres recém formados que Petkovic era o maior jogador do Flamengo e de uma outra que não sabia o que era Grenal.

– Não dá para ouvir isso de quem faz jornalismo esportivo. Quando o repórter me disse que o Petkovic era o melhor jogador do Flamengo, mandei abrir o youtube para ver o Zico jogar. Não é nem culpa de quem diz isso, é culpa de quem seleciona, precisa ser mais criterioso. Ter conteúdo é fundamental.

Sobre a tendência de misturar jornalismo esportivo com entretenimento, Paulo Julio Clement foi categórico:

– As pessoas querem informação, antes de tudo. Essa fórmula de jornalismo esportivo misturado com humor tem data de validade. A matéria jornalística, sobretudo na TV, pode ser simpática, só não pode ser desinformada. A notícia deve vir antes da gracinha.

Como comentarista de TV, Paulo diz que está sempre aprendendo. O efeito colateral, afirma, é a falta de respeito dos usuários do twitter, que fez com que desistisse da rede social.

– As pessoas são agressivas no twitter, xingam, ofendem. Há colegas que respondem, mas eu os desaconselho. É muito agressivo. Ninguém desrespeitava João Saldanha por ele ser botafoguense, por exemplo.

Ele também contou boas histórias dos tempos de repórter, e falou da importância de se exercitar um olhar próprio e criativo. Certa vez, estava cobrindo um treino do Fluminense em Xerém, pelo JB. Os jogadores, ao final da partida, foram tomar banho, mas, ao se darem conta de que só havia água fria, resolveram voltar para Laranjeiras e tomar banho na sede do clube. Quando tentaram entrar sujos no confortável “frescão” da equipe, foram impedidos pelo motorista. Tiveram que ir embora no ônibus comum, de linha, reservado ao time de juniores, e os novatos voltaram no ônibus deles, de luxo. Paulo decidiu que esta seria sua reportagem:

– Era uma partida banal, de chutes a gol. Não tinha nada demais. No dia seguinte, todos deram a mesma matéria, e fui o único a sair com uma história diferente.