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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Campus

'O jornalista tem poder de conduzir a condenação'

Matheus Vasconcellos - Do Portal

18/09/2012

 Eduardo Ribeiro

A difícil tarefa de julgar e a influência da cobertura jornalística em veredictos foram tema de debate organizado pelos professores e pesquisadores Leonel Aguiar e Leise Taveira na PUC-Rio, no último dia 14, numa ação integrando os departamentos de Direito, Comunicação e Psicologia.

O desembargador Luis Gustavo Grandinetti usou o cinema como metáfora para ressaltar que um julgamento interfere diretamente na vida e na liberdade de outras pessoas, caso da vara criminal:

 Eduardo Ribeiro – Um crime é como um filme e, dependendo do caso, nossa vontade é de assistir a apenas algumas cenas. Quando um jornalista faz a cobertura de um crime, deve assistir ao filme todo. Ouvir somente o promotor e o delegado não é suficiente para que uma notícia seja publicada. Temos que ouvir todos os lados em uma cobertura jornalística, para evitar um erro – afirmou Gradinetti.

Jornalista e advogada, Leise é coordenadora do Programa Jornalismo Legal, que prepara os futuros jornalistas para a cobertura da área jurídica, e abordou o tema no artigo O caso Isabella na novela da vida (sur)real (Jornal da PUC, 2008). Para a pesquisadora, a superexposição de partes dos processos, como no caso Isabella Nardoni, acaba por influenciar no julgamento. Ela afirmou que, nesse caso específico, o júri popular que condenou Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá pela morte da menina chegou ao tribunal com a sentença pronta, sem ao menos analisarem as evidências do processo.

– O jornalista tem o poder de conduzir, de alguma maneira, a condenação. Por isso, precisa estar preparado, pois só assim poderá ter credibilidade para evitar a publicação de uma reportagem inconsistente – completou Leise.

Reafirmando que o júri no caso Nardoni havia julgado de antemão, a professora de psicologia Lídia Levy, também da PUC-Rio, acrescentou que as notícias, muitas vezes carregadas de sensacionalismo por causa do apelo popular, podem ser determinantes para a condenação dos julgados. Eduardo Ribeiro

Advogada na área criminal, Victória Sulocki, professora de Direito pela PUC-Rio, disse acreditar que, quando a relação entre a notícia e a ação policial passa dos limites, a reportagem não só influencia como começa a construir a realidade, como no caso Eloá, em que seu ex-namorado e sequestrador, Lindemberg Alves, ouviu na televisão que a polícia iria invadir o apartamento em que mantinha a jovem refém. Victória crê que, ao ouvir a notícia, Lindemberg se sentiu pressionado psicologicamente, e matou Eloá.

Organizador e mediador do debate, ao lado de Leise, Leonel Aguiar reafirmou a dificuldade do papel do jornalista, que precisa contar com as testemunhas, e às vezes é traído por “falsas memórias”.

– Nós, os jornalistas, quando produzimos a verdade, apurando um fato, julgamos noticiosamente, fazemos uma produção discursiva dessa reportagem. A profissão do jornalismo não é uma tarefa fácil, pois temos três palavras que vão nos acompanhar para sempre: imparcialidade, objetividade e neutralidade ­– resumiu Leonel.